Tecnologia: o caso do smartphone abaixo do padrão

De Joe Nocera

Meu Treo morreu.

Aconteceu há cerca de três semanas e não posso dizer que não vi que estava para acontecer. Eu comprei um Treo 700p no início de janeiro e, basicamente, senti remorso disto desde então.

O 700p, é claro, faz parta da família Palm de smartphones (telefones inteligentes); é o que usa o sistema operacional Palm (o 700w usa Windows). Eu o escolhi por ser usuário de longa data do Palm Pilot e porque já tinha todos meus dados armazenados no aplicativo Palm do meu computador. Em outras palavras, era o tipo de decisão tecnológica totalmente racional que nós, não-entendidos, tendemos a tomar -e então, infelizmente, vir a lamentar.

Praticamente desde que foi tirado da caixa, meu Treo travava regularmente. Eu nunca consegui sincronizar minha conta do Gmail com o Treo e tinha que usar a Internet para ler o e-mail -o que exigia paciência de Jó. Ele tinha todo tipo de falhas estranhas: às vezes ele rolava o menu enquanto eu observava impotente; em outras ocasiões, ele passava de um aplicativo para outro sem motivo. Ele tocava aleatoriamente. Em junho, ele desligava sozinho duas ou três vezes por semana, mesmo no meio de chamadas telefônicas, e então religava.

Eu pensei que talvez fosse azar meu. Talvez eu tivesse comprado um aparelho defeituoso, de forma que deveria tentar fazer com que minha operadora, a Verizon Wireless, o substituísse. Mas sabe como é: a vida continuou interferindo e nunca consegui resolver isto.

Mas também achei que o adiamento se devia a um pensamento mais doloroso,
sombrio: talvez os Treos fossem simplesmente aparelhos ruins. Talvez eu nunca devesse ter dado ouvidos ao guru de tecnologia do "The Wall Street Journal", Walt Mossberg, que escreveu no início de 2006 que "os smartphones Treo da Palm são os melhores celulares de ponta disponíveis no mercado, com a melhor combinação de capacidades de voz, e-mail e navegação na Internet em um dispositivo handheld". Talvez eu tenha sido tolo em presumir, como claramente fiz, que simplesmente porque a Palm antes fazia grandes produtos, ela ainda os faz.

Causa mortis: uma atualização oficial
Então meu Treo morreu e isto me deu a resposta. O que o matou foi, entre todas as coisas, uma atualização de software da Palm. Eu finalmente tentei fazer com que substituíssem meu 700p, mas a Verizon Wireless insistiu que tentasse primeiro o mais recente atualização do Palm, para ver se resolveria o problema. Em vez disso, o novo software destruiu o telefone; de fato, em uma semana, a atualização foi retirada, com a Palm postando um quase pedido de desculpas em seu site, prometendo uma nova atualização que consertaria os problemas graves causados pela anterior.

Eu não vou falar sobre que aconteceu depois porque ainda estou tentado apagar da minha memória: a recusa da Verizon Wireless em substituir o telefone na loja, apesar de ainda estar na garantia, me obrigando a comprar um novo, a preço integral, para não ficar sem telefone. Quando meu novo telefone "de verdade" chegou uma semana depois pelo correio, e então devolvi este telefone temporário para obter um reembolso pleno (esta manobra, a propósito, foi sugerida por um técnico da operadora).

Então vieram as horas de trabalho com o valente rapaz do suporte técnico, enquanto ele lutava para deixar meu aparelho funcionando. Havia o software que se recusava a funcionar. A dificuldade contínua de sincronizar com o Gmail. As reinicializações. A frustração. O refrão constante de "vamos tentar isto de novo". E finalmente, após tudo estar mais ou menos rodando, a dolorosa percepção de que o novo telefone era quase tão problemático quanto o antigo.

E como aprendi, eu não era o único passando por isto. Leia os comentários sobre o Treo na Internet; são brutais. "Eu estou enojado com a Palm", escreveu um consumidor furioso. "A linha de produtos Treo está cada vez mais vulgar e não confiável", escreveu outro. Nas palavras de Ryan Bloc, o editor do site de eletrônicos de consumo Engadget.com, "a Palm perdeu o rumo". Quem diria?

Smartphones são mesmo telefones inteligentes?
Antes de ir mais além, vale a pena apontar algo que ninguém se incomodou em dizer a nós não-entendidos. É difícil fazer um bom smartphone -tão difícil, na verdade, que ninguém ainda conseguiu. Os BlackBerrys são ótimos para e-mail, mas o telefone mal chega a ser adequado e sua capacidade de Internet não é boa. O Motorola Q trava quase com a mesma freqüência que o Treo. O iPhone da Apple é excelente para música e mídia, mas ruim para e-mail e chamadas telefônicas.

Parte do motivo tem a ver com o que é chamado de "fator forma". Por razões de mercado, todos tentam inserir todas estas funções complicadas em caixas cada vez menores e mais finas, ao mesmo tempo que adicionam duração maior da bateria e assim por diante. Invariavelmente, os projetistas precisam fazer concessões que implicam que algumas funções não funcionarão particularmente bem. Com isto, produtos que combinam funções tendem a decepcionar, talvez com a possível exceção do canivete suíço.

"Veja o forno-torradeira", disse Larry Keeley, presidente da firma de design industrial Doblin Inc. "Ele tenta ser forno e torradeira, mas é um produto que não satisfaz. É melhor ter uma boa torradeira." Este é o motivo para tantos executivos, particularmente, usarem o BlackBerry para e-mail, mas ainda manterem um celular separado para as chamadas telefônicas.

Finalmente, há a pergunta sobre a herança de uma empresa. Todas as grandes empresas de smartphone abordam o aparelho tendo pontos de partida diferentes. As raízes da Motorola estão nos celulares; sem causar surpresa, é o que funciona melhor no Motorola Q. A herança da Apple é o iPod e os computadores, de forma que música e mídia funcionam bem. O BlackBerry começou como um e-mail móvel, o motivo de seu e-mail ser muito melhor do que o dos demais.

Herança desleixada de um passado vencedor
A herança da Palm é o fato de praticamente ter inventado o dispositivo 'de mão' com seu Palm Pilot original -e nisto se encontra tanto a raiz dos problemas da empresa quanto a explicação para o que a mantém à tona atualmente. Por um lado, acredite se quiser, a empresa ainda está usando o mesmo sistema operacional que usava quando produzia o Palm Pilot, que, lembre, não contava com Internet, e-mail ou telefone.

Não é de se estranhar que o aparelho seja tão instável. Não é possível simplesmente acumular novas funções em um sistema operacional ultrapassado e não esperar que surjam grandes problemas. (Basta perguntar à Microsoft.)

Quando perguntei aos entendidos em tecnologia, o consenso geral era de que a Palm estava tão à frente no ramo que ficou aprisionada pelo próprio sucesso e, no processo, se tornou desleixada e arrogante. E agora está pagando o preço.

Por outro lado -e isto é o que mantém a Palm à tona- desavisados como eu, que não entendem muito, continuam comprando o maldito. É um exemplo notável do poder das marcas. Talvez, se tivesse lido algo mais além do Mossberg, eu poderia ter percebido que o Treo não valia a dor de cabeça.

Mas fiquei igualmente preso pelo fato de ter o Palm como parte da minha infra-estrutura pessoal e mantê-lo significava não ter que começar do zero, reinserir meus dados manualmente.

(Nota aos especialistas em tecnologia: por favor, não me digam quão fácil é transferir dados. Para a maioria de nós, este tipo de coisa sempre revela ser difícil demais.)

Então, quando me senti pronto para comprar um smartphone, eu presumi que a Palm ainda sabia o que estava fazendo -porque se fosse o caso, tornaria minha vida mais fácil. Em outras palavras, foi uma crença que surgiu da conveniência, não de um fato.

O tempo está acabando
Este também é o motivo para tantos consumidores agora estarem furiosos com a Palm. Assim que perceberam quão mal funcionava o Treo, eles se sentiram enganados por terem acreditado na Palm. E muitos deles prometeram nunca mais cometer o mesmo erro. Com o tempo, se pessoas suficientes começarem a se sentir desta forma, não haverá mais Palm. O tempo da empresa está se esgotando.

O único lampejo de esperança é que a Palm, finalmente, parece ter percebido a situação em que está. Há não muito tempo, o pessoal inteligente da Elevation Partners adquiriu uma participação de 25% da empresa. Assim que o acordo for aprovado em poucas semanas, a Elevation Partners terá direito a um punhado de cadeiras no conselho diretor, com uma deles destinada ao ex-diretor financeiro chefe da Apple, Fred Anderson. Jon Rubenstein, que dirigiu a divisão iPod da Apple de 2004 a 2006, ficará encarregado do desenvolvimento de produto.

Nesta semana, a Palm anunciou que estava cancelando um novo produto chamado Foleo, um esforço equivocado, e amplamente ridicularizado, de criar um dispositivo "tweener" -algo intermediário entre um laptop e um handheld. Em vez disso, ela concentrará seus esforços no preparo de um sistema operacional de próxima geração. Antes tarde do que nunca.
Os smartphones representam atualmente menos de 5% dos 1,1 bilhão de celulares vendidos anualmente. Claramente, ao longo dos próximos anos, tal percentual aumentará acentuadamente; em teoria, o smartphone tem utilidade demais para não ser bem-sucedido. No final, alguma empresa acertará e eles serão semelhantes ao canivete suíço -um raro produto combinado que funciona.

E talvez, apenas talvez, tal empresa será uma recém focada Palm. Mas até lá eu já terei partido. Segundo meu contrato com a Verizon Wireless, eu terei direito a um novo telefone, com um desconto substancial, em cinco meses.

Mal posso esperar. George El Khouri Andolfato

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