Amor moderno: passagem para a Índia, por meio de um elevador

De Katherine Russel Rich*
Em Nova York

Dizem que em uma língua diferente você se transforma em uma pessoa diferente, mas eu mal havia chegado ao subjuntivo no idioma híndi e já não era mais eu mesma. Isso se tornou evidente pela primeira vez em um restaurante em East Village, em Manhattan, para o qual algumas amigas me haviam levado para uma festa de despedida. Na primavera anterior, eu assinara um contrato para escrever um livro sobre o aprendizado do hindi, uma língua que eu vinha estudando por diversão. Agora eu estava prestes a partir para a Índia, para morar lá por um ano e documentar todo o processo.

A idéia de escrever o livro pareceu exótica quando eu estava redigindo a proposta, e engenhosa quando as páginas foram sendo preenchidas, mas quando o projeto foi aprovado, senti um baque, como se aquilo fosse uma loucura.

The New York Times
"Se eu for capaz de parar o elevador, você namoraria comigo no elevador parado?"

Retornamos e, durante pelo menos 20 minutos, nos beijamos lá nas alturas

Recebi uma brochura da escola indiana na qual me matriculei, que trazia dicas como, por exemplo, o que usar como substituto para papel higiênico. Li o livro e percebi um fato óbvio: eu não andava com a cabeça no lugar.

Naquela noite no bar, com o momento da partida aproximando-se rapidamente, eu era um retrato destroçado do sofrimento. Mas foi aí que uma tropa de bombeiros entrou com passos pesados no restaurante, todos eles muito atraentes. Eles haviam sido chamados para reanimar um sujeito que estava no bar, um viciado em heroína até onde entendi, que começou a mergulhar em câmera lenta em direção ao assoalho. No momento, ele estava paralisado a meio caminho da queda. Assim que se certificaram de que o cara demoraria algum tempo até se estatelar no chão, os bombeiros seguiram alguns procedimentos de primeiros socorros e passaram a flertar conosco.

"Ei, moças", disse um deles. "Vocês estão fazendo apostas sobre o momento em que ele chegará ao chão?".

"Ei, moças", falou um outro. "Isso aqui está parecendo um jantar no teatro, hein?".

Eles gritaram "Ei, ei!" para o viciado, e neste momento o mais velho deles se aproximou.

"Ei, moças, como está a comida?", indagou com um ar de "maitre", como se a pergunta fizesse parte do seu trabalho. Ele tinha uma voz áspera, um cabelo louro manchado e um nariz fino e reto. No meu estado de estupefação, ele me lembrou os homens de calças estreitas de um quadro toscano do século 15.

A minha reação usual em uma situação desse tipo é ficar examinando o meu garfo. Mas eu não era mais a pessoa que costumava ser. Agora eu era alguém que se comportava de forma impetuosa. "Por que você não se senta conosco?", ouvi a minha voz perguntando.

"E por que não marcamos um encontro?", ele retrucou.

"Ok", respondi calmamente, suavemente, com a tranqüilidade gerada pela carência de oxigênio. Eu nunca havia feito algo nem remotamente parecido com isso. Mas, mude o idioma, e você muda a sua vida.

Ele me deu uma caneta. Escrevi meu telefone em um pedaço de papel.

Nós nos encontramos no segundo andar de um restaurante italiano mal iluminado. Até então eu só havia estado com homens que poderiam ser descritos como do tipo criativo: por exemplo, um ator que ficou pelado sobre flores de jacarandá e se esfaqueou no peito. Em um encontro como este, eu não sabia sobre o que devia falar.

Ele iniciou a conversa com o que tinha de melhor no repertório; histórias sobre o seu tio que fora membro da máfia. Depois disso, foi a minha vez. Redigi o nome dele em escrita devanagari em um guardanapo. Talvez porque estivesse imersa na língua híndi havia muito tempo, ou então porque tinha me encontrado com muitos homens do tipo criativo. Mas acreditei honestamente que começara bem.

"Uau! Realmente é assim que você faz um 'p'?", disse ele com enorme educação.

Tínhamos tão pouca coisa em comum, que isso tornou a noite emocionante.
"Índia!", disse ele quando eu mencionei o meu plano. "Índia? Você quer dizer, com os elefantes e tudo mais?".

Não me ofendi quando ele disse que não gostava de jornalistas, acrescentando, "com todo o respeito", mesmo sendo esta a minha profissão.
Ele me contou como certa vez pegou um neném em um quarto em chamas e desceu cinco lances de escada com ele. Quando chegou ao térreo, ele tentou entregar o bebê a primeira pessoa que viu, mas o homem, um jornalista, recusou-se a ajudar.

Ele sacudiu a cabeça. "Tá bom, vou lhe dar uma entrevista", ele disse ao jornalista.

Ele me contou como pretendia abrir um pequeno negócio quando se aposentasse, dentro de três anos. Uma firma de dispositivos de segurança. Eu não sei que dispositivos seriam esses, porque nesse instante ele segurou o meu dedo mínimo com o seu, e me pediu para fazer promessas. O bombeiro disse que nunca havia viajado ao exterior, mas que estava pensando em conhecer a Itália.

Tentei imaginar nós dois na Itália, ou até mesmo morando juntos, três anos depois. Decidi que talvez isso fosse possível. Na verdade, tudo o que veio a minha mente foi uma cerca - eu de um lado, retornando e falando híndi, ele do outro, fazendo promessas amarradas pelo dedo mínimo. Mas coisas estranhas aconteceram. Na verdade, coisas estranhas vinham acontecendo comigo durante o ano inteiro.

Quando pensei no que deveríamos fazer a seguir, fui tomada pela exaustão. Mergulhamos ininterruptamente nos mundos um do outro, e embora eu quisesse encontrá-lo de novo, no momento eu só queria ir para a minha cama e dormir.

"Estou de carro. Vou lhe dar uma carona", disse ele de forma cavalheiresca.

Foi um trajeto com um desvio: ele primeiro tinha que parar no seu departamento por um motivo que só podia ser, eu tinha certeza disso, mostrar aos colegas que arranjara uma namorada. Mas quando chegamos ao departamento de bombeiros, não havia ninguém lá. Ele trouxe para mim uma camiseta do FDNY (Departamento de Bombeiros de Nova York), e depois ficamos sentados no carro e esperamos. Finalmente surgiu um carro de bombeiros, e eu fui apresentada a um senhor gentil, o capitão, e apertei as mãos dos outros membros da tropa.

Depois disso, ele me levou para casa, e na porta de entrada, disse:
"Gostaria de entrar". Nós discutimos os prós e os contras. Um aspecto negativo, para mim, é que mal o conhecera. Um fator positivo, para ele, era o fato de realmente querer entrar. Finalmente eu rompi o impasse. Dei-lhe as costas e disse que precisava entrar.

"Espere", disse ele. "Espere". E fez um gesto com a cabeça em direção a um enorme edifício de tijolos do outro lado da rua, um colosso de quatro torres. "Se eu conseguir que nós dois subamos até o telhado do edifício, você ficará comigo esta noite?".

Eu perguntei como é que ele achava que faria aquilo.

Ele sorriu e respondeu: "Tenho a chave de incêndio".

Dizem que todos têm o seu limite, e acontece que nesta encarnação o meu não é muito alto. "A chave de incêndio!", exclamei. "Bem, ok!".

Entramos pela porta da frente, passamos pelo porteiro, pressionamos um botão. O elevador nos levou até o topo. Mas, quando chegamos lá, a chave de incêndio não funcionava. "Está bem, isso é tudo", disse eu. "Estou indo embora".

"Espere", disse ele. "Se eu for capaz de parar o elevador, o que você acha? Você namoraria comigo no elevador parado?"

"E como é que você faria isso?", perguntei, rindo de forma conspiratória.

Retornamos e, durante pelo menos 20 minutos, nos beijamos lá nas alturas.

E aquele teria sido um dos melhores momentos da minha vida romântica, exceto por um fato no qual eu não havia pensado: quando você pára um elevador com uma chave de incêndio, todos os outros também deixam de funcionar. Todos os elevadores ficaram parados, em um sábado à noite, quando os moradores tentam voltar para suas casas.

Recebemos essa informação assim que o elevador chegou ao térreo e as portas se abriram para uma multidão furiosa. E o pior é que eles tinham nos observado através da câmera do elevador.

"Ei, vocês não podem parar o elevador desse jeito!", gritou um homem de pijama, com voz de gripado. Ele levava um cachorrinho de olhar aflito. "Só porque você é bombeiro, não pode usar a chave dessa forma. Não, não pode. Vou chamar a polícia".

Ele estava falando sério, dava para ver. Olhei para o meu companheiro para ver o que ele faria. Mas ele foi criado na cidade de Nova York. O que ele fez foi se fazer de bobo. "Como assim?". Como assim, como assim, até que todo mundo estivesse discutindo. Então, ele se inclinou, agarrou a minha mão e sussurrou, "Corra".

Passamos pela multidão. Trancamos a porta por fora. Uma sirene fraca à distância foi ficando cada vez mais alta. Fugimos pela rua e chegamos à porta do meu edifício até que um carro de polícia chegou. Ficamos parados imóveis na escuridão. "Sabe de uma coisa?", disse ele arfante. "Agora você tem que me deixar subir".

Lá em cima, ele me fez apagar as luzes. Nos agachamos na janela e espiamos o que acontecia lá embaixo. "Dá para acreditar nisso?". Rimos e respiramos o ar noturno de agosto até que o movimento na luz acidentada lá embaixo chamou a nossa atenção. Homens uniformizados retornavam para o carro. Depois disso ele abriu a janela e me disse para gritar, "Você não vai me pegar viva, tira!".

E fui isso o que fiz, sem pensar por um segundo, porque àquela altura estava claro que eu tinha me distanciado muito do meu antigo jeito correto de pensar, de uma maneira que ninguém faria.

Quando as coisas se acalmaram, eu disse que precisava dormir. Ao chegar à porta, nos beijamos um pouco mais, trocamos endereços. Dissemos que escreveríamos cartas.

Parti para a Índia. Só algum tempo depois ficou claro para mim o que foi aquela noite: um momento de alegria pura e brilhante, daquele tipo que só ocorre pouco antes de tudo mudar, que só adquire forma em tais ocasiões, porque tal pureza destilada só pode ser obtida ao se fazer uma retrospectiva, após os fatos terem acontecido.

Em 6 de setembro de 2001, cheguei em Nova Déli. Cinco dias depois, tudo mudou.

Amigas em Nova York telefonaram diligentemente para todos os lugares para descobrir se ele estava vivo, sem sucesso. Finalmente o marido de 82 anos de idade de uma amiga caminhou tropegamente até o departamento de bombeiros e descobriu: ele sobrevivera. Ele estava fora do país, na sua primeira viagem ao exterior -que havia sido reservada para aquela semana.

Eu escrevi dizendo como estava aliviada por saber que ele estava bem. Uma carta chegou. Ele me disse que perdeu 92 amigos. Todos os bombeiros com os quais nos encontramos naquela noite, incluindo o capitão, morreram. Ele me disse para lhe dar um telefonema quando eu voltasse. E quando voltei, foi isso que fiz. Várias vezes. Mas em todas as ocasiões ele dizia: "Sim, sim, nós deveríamos...", e nunca ocorria um encontro.

Finalmente, percebi que jamais haveria um novo encontro. Porque, àquela altura, ele não estava mais lá. Ele havia ingressado em outro mundo.


*Katherine Russel Rich mora em Manhattan. O seu segundo livro, "Unspeakable: A Story About India and Life in Other Words" ("Inexprimível: Uma História Sobre a Índia e a Vida em Outras Palavras") deverá ser publicado no ano que vem pela editora Houghton Mifflin UOL

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