Jogada de mestre: quando voltar à escola de pôquer

De Matt Villano
Em Las Vegas

Após uma tarde inteira jogando pôquer No-Limit Texas Hold'Em, este era o momento pelo qual Donny Campbell vinha esperando. Debruçado sobre uma mesa de pôquer em uma sala dos fundos do Caesars Palace, Campbell olhou para as suas cartas e viu um par de damas. Um dos seus dois adversários havia apostado US$ 300 em fichas, e outro US$ 600, e agora chegara a sua vez de apostar.

 The New York Times 
Em dois ou três dias de 'aulas', amadores melhoram seus lances com profissionais


Campbell olhou para a parede, como se esta tivesse um buraco que permitisse que ele visse algo distante. Ele fez uma pausa. A seguir, olhou mais uma vez para as suas cartas.

"Vou subir a aposta", disse ele, empurrando US$ 1.200 em fichas para o centro da mesa.

Isso agitou os outros jogadores. O primeiro oponente recobriu as cartas silenciosamente. O segundo, suspirando, fez o mesmo.

Mas antes que Campbell pudesse comemorar a sua vitória, Mark Seif, um jogador de pôquer conhecido por grandes vitórias, e que observava a jogada, deu um conselho.

"Isso funcionou, mas subir a aposta poderia ter sido arriscado, considerando as cartas que o poderiam ter derrotado", disse Seif. "A posição é importante, mas o fato da pessoa ser a última a agir não significa necessariamente que ela precise ser a agressora".

Campbell, 29, de Tampa, Flórida, sorriu com gratidão. Em circunstâncias normais, ele poderia ter ficado embaraçado após ter cometido tal gafe estratégica na presença de um jogador famoso. Desta vez, porém, foi exatamente pela avaliação de Seif que Campbell havia se inscrito como aluno da Academia do World Series of Poker (o mais famoso campeonato de pôquer, realizado anualmente em Las Vegas).

A academia funciona em diferentes cidades durante o ano e é, essencialmente, uma maratona de pôquer de dois ou três dias, uma oportunidade para que até 200 jogadores amadores melhorem as suas técnicas de jogo a partir dos conselhos dos profissionais. O World Poker Tour Boot Camp, afilado ao World Poker Tour, é organizado de forma semelhante, e proporciona oportunidades similares a grupos menores -de até 60 jogadores por vez.

À medida que mais pessoas adotam o pôquer como hobby, os dois seminários ficam mais e mais disputados. Juntas, as duas escolas ofereceram quase 40 desses eventos desde janeiro, e quase todos eles o número de vagas se esgotou rapidamente.

O preço pago por tal experiência não é barato, variando geralmente entre US$ 1.695 e US$ 4.300. Mas Jeffrey Pollack, comissário do World Series of Poker, diz que para as pessoas suficientemente sérias com relação ao pôquer para assistirem a uma aula, o dinheiro é uma aposta no futuro.

Para aqueles jogadores que pensam em jogar nos eventos cujas inscrições custam de US$ 5.000 a US$ 10 mil, Polack diz que "uns dois mil dólares para a obtenção de instrução valiosa é quase como uma política de seguro". Ele lembra que ambas as escolas oferecem aulas sobre vários tipos de jogo de pôquer.

Para alguns fanáticos do pôquer, os retornos dos investimentos são sutis: uma nova estratégia para esconder a cartada inicial de um conjunto ás-rei, ou uma nova abordagem para o semi-bluffing, que é uma jogada que se baseia em fingir que se tem um excelente conjunto de cartas.

Mas para outros amadores, a experiência foi em pouco tempo acompanhada por grandes vitórias.

Por exemplo, Bill Spadea, de Easton, Massachusetts, pagou US$ 3.000 por uma vaga em um seminário do World Poker Tour. Dias depois, ele ganhou US$429.114 por ter ficado em 13° lugar no "Evento Principal" da World Series of Poker. A inscrição para esta competição custa US$ 10 mil.

E também há o caso de Lee Childs, que disse ter pago US$ 1.500 por um outro seminário do World Poker Tour e que embolsou US$ 705.229 no Evento Principal, ao ficar sem sétimo lugar. Childs, que mora em Reston, em Virgínia, disse ter se inscrito na aula apenas para "polir" algumas técnicas básicas.

"Eu diria que foi um dinheiro bem empregado", afirma Childs a respeito da taxa de inscrição. "Eu já sabia como jogar pôquer, mas ouvir aqueles profissionais ensinar disciplina fez com que eu evitasse uma série de ciladas no torneio".

Os currículos nas duas escolas são similares. O dia começa com uma preleção -geralmente feita por um profissional do pôquer, mas às vezes de um especialista em estatística ou estratégia de apostas.

Em julho último, na Academia do World Series of Poker, Joe Navarro, um ex-agente especial do Birô Federal de Investigação (FBI), falou sobre a leitura de linguagem corporal (uma das dicas clássicas de Navarro: quando um jogador tem um bom conjunto de cartas, ele geralmente olha para as suas fichas).

Por volta do horário do almoço, os alunos de ambas as escolas vão para as mesas de jogos para participarem de demonstrações ao vivo. Essas sessões são como os jogos de apostas em um salão de pôquer, com a exceção de que os administradores de cada mesa são jogadores de pôquer profissionais -como Seif, Greg Raymer, Linda Johnson, Clonie Gowan, Scott Fischman e outros.

Os profissionais atuam como instrutores e pedem aos alunos que façam as jogadas da mesma forma que fariam em um jogo comum. Porém, ao invés de fazer com que os alunos entreguem as cartas quando passam, os profissionais pedem que os jogadores coloquem as cartas na borda da mesa até que a jogada acabe.

Finalmente, quando alguém ganha, todos os alunos mostram as suas cartas, e os profissionais analisam as jogadas, pedindo a cada um que explique a decisão tomada. Eles também mostram como a linguagem corporal reflete de forma não intencional a estratégia dos oponentes. A seguir os instrutores dão as suas opiniões -por mais críticas que estas possam ser.

T.J. Cloutier, um profissional que leciona nas escolas World Poker Tour, diz que embora a revisão passo a passo possa ser difícil, ela proporciona uma excelente oportunidade para que os alunos aprendam como deveriam ter feito as suas jogadas.

"O pôquer é um jogo que depende da situação", explica Cloutier. "Assim, falar a respeito de como alguém deveria ter feito certa jogada em uma situação particular pode ajudar essa pessoa a agir corretamente em situação semelhantes futuras".

Após um jantar, o dia de aprendizado é concluído com um campeonato no qual cada estudante testa as suas novas habilidades. Os prêmios variam de uma escola para outra, mas geralmente consistem em uma vaga gratuita em um futuro torneio. Em alguns casos cada uma dessas vagas chega a custar mais de US$ 5.000.

É claro que o sucesso nas escolas de pôquer não se traduz automaticamente em sucesso nos jogos de verdade. Steve Berman, vice-presidente do World Poker Tour Boot Camp, afirma que no pôquer, assim como em outros esportes, a prática leva à perfeição.

"Os nossos cursos são ótimos para que os jogadores aperfeiçoem as suas técnicas", afirma Berman. "Mas depende deles aplicar ou não o que aprenderam aqui" UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos