Entrevista com Jodie Foster, uma atriz não tão "Valente"

Lisa Kennedy
do The Denver Post
Em Toronto

Antes de seu mundo virar de cabeça para baixo, antes de empunhar uma arma como um certo motorista de táxi em um famoso filme dos anos 70, a personalidade de rádio de Nova York, Erica Bain, lembra ao seu produtor: "Eu não sou um rosto. Sou uma voz".

Jodie Foster, que habita o corpo marcado e a alma assustada de Erica em "The Brave One" (Valente) de Neil Jordan, é certamente ambos.

Em uma recente tarde de sábado em meio à série de entrevistas para televisão, a vencedora de dois Oscar fez uma pausa para o almoço.

Ela ainda está maquiada. A blusa azul escura acinzentada que veste realça a cor de seus olhos, que se sobressaem em meio aos traços que compõem seu rosto familiar, determinado. Enquanto ela fala, sua voz, quase rouca, se levanta e baixa.

"The Brave One" traz um elemento novo aos chamados filmes de vingança. O mais óbvio é a escolha de Jodie Foster como uma mulher de profunda decência cultural que se torna uma vigilante. Jodie conta no filme com a companhia do talentoso Terrence Howard, que interpreta um policial de Nova York que fica perturbado ao descobrir que seu trabalho foi usurpado por um cidadão agindo à noite.

A atriz de 44 anos fala sobre a estranheza de uma atividade da qual é participante-observadora há quatro décadas.

Rainer Jensen/EFE - 13.set.2007 
Jodie Foster chega para a estréia do filme "The Brave One", em Berlim, Alemanha

Pergunta - Quão difícil é esta parte do trabalho?
Resposta -
Eu quero que as pessoas saibam como me sinto a respeito do filme. Eu gosto. Mas no final, eu realmente preciso de um bom banho. Uma moça simpática de Hong Kong se aproxima e pergunta, posso tirar uma foto com você? E digo: 'Claro, venha cá.' E coloco meu braço ao redor dela e sorrio. Mas na minha cabeça eu fico #$$%&. Eu me sinto péssima. Quando eu termino uma destas sessões, e quero me deitar no chão e odeio a mim mesma.

Pergunta - Há uma boa quantidade de vulnerabilidade em atuar.
Resposta -
É um trabalho estranho. É difícil explicar quão só você se sente. Você está cercada de 125 pessoas. Você está deitada em uma poça de sangue em Prospect Park às 4 da manhã. A equipe de maquiagem vem e aplica uma pequena cicatriz aqui, coloca um pouco de sangue ali. Alguém diz "vire para a direita, vire para a direita". Não é como se deixasse seu corpo, mas o exercício de estar em ambos os lugares ao mesmo tempo é estranho. É difícil de descrever. Mas quando você chega lá você sente tipo "Uau". (Ela faz uma pausa). Eu estou realmente só.

É engraçado. Eu anseio por isto. Eu preciso ter algo que não pertença à minha mãe, não pertença aos meus filhos (ela tem dois, um de 9 anos e outro de 6 anos), não pertença à minha parceira. Pertença só a mim. Eles não podem me tirar isto. Eles não podem entendê-lo. Mas é tão solitário. Isto faz você fazer coisas estranhas.

Pergunta - Por exemplo?
Resposta -
Por exemplo, eu nunca falo sobre o filme que estou fazendo com minha família. E se alguém me pergunta, eu digo coisas como "como vão os Mets?" ou "eu realmente quero um cappuccino". Então, quando está tudo acabado, eu saio com minha amiga para um drinque, bebo champanhe, faço um brinde e então vou (ela simula uma confissão truncada, chorosa). Eu me perco totalmente.

Pergunta - É fácil dispersar o mistério de algo se tentar dominá-lo cedo demais no processo.
Resposta -
É uma espécie de ritualização. Também é a vida que levamos. Após estas entrevistas, eu acho, as pessoas não vão até o bar? Isto pode levar você ao alcoolismo.

Pergunta - No ano passado, eu perguntei a Dakota Fanning: "Que carreira você gostaria de ter?" Ela disse: "A sua".
Resposta -
Ohh.

Pergunta - Você assistiu "Hounddog"? (No filme controvertido, que ainda aguarda lançamento, a personagem de Dakota Fanning é estuprada.)
Resposta -
Aquele foi o pior filme.

Pergunta - Você foi citada como tendo dito que considerou corajosa a atuação dela.
Resposta -
A interpretação dela é espetacular. Toda aquela coisa de menina impulsiva e indisciplinada é tão livre - e Fanning não é livre. Eu considerei que tudo aquilo foi belamente observado. Ela fará grandes coisas. E sabe de algo? Se ela não seguir a carreira de atriz, ela será uma excepcional corretora imobiliária.

Pergunta - Como você aprendeu a se proteger da toxicidade do showbusiness?
Resposta -
Eu tinha este tipo de mecanismo de sobrevivência. Às vezes há coisas que quero e eu sei que se não as tiver eu morrerei. A faculdade foi assim. O lado intelectual foi ótimo, mas a intimidade foi o que interessava. Se eu não tivesse aquilo eu teria morrido. Eu tenho certeza que tem a ver com minha mãe. Para minha mãe é uma questão de medo. Coisas ruins vão acontecer se você fizer isto. Coisas ruins vão acontecer se você fizer aquilo. Estar cercada de pessoas que deixam você contar o que sente e não haver nenhuma conseqüência.

Pergunta - E quanto ao seu emprego estranho?
Resposta-
Honestamente, atuar não é muito natural para mim. Não faz parte da minha personalidade. Eu não nasci subindo na mesa e dizendo "olhem para mim". Eu não sou alguém que é uma caixa de lágrimas. Eu não sou uma pessoa boa em exibir muitas emoções, eu sou bastante estóica. Fazer isto diante das câmeras é um pouco como arrancar minhas entranhas. É difícil para mim e exige uma certa bravura. Talvez seja por isso que sou uma medrosa na minha vida. Eu não consigo dizer "eu preciso de você" para alguém. Eu não consigo pedir que alguém me pegue no aeroporto. Na minha vida, eu simplesmente não consigo. George El Khouri Andolfato

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