Lembrar as vítimas tornou-se parte história, parte cura

Kevin Simpson
do The Denver Post
Em Littletown

Uma eternidade, para alguns. Um suspiro, em termos históricos.

A inauguração do memorial de Columbine nesta sexta-feira (21/9) -que ficou oito anos em construção- pode parecer absurdamente tardia pelos padrões atuais. Mas marcos permanentes de tragédias nos EUA demoravam décadas para subir, quando saíam do papel.

Agora, em um mundo conectado, onde as emoções mais íntimas são rotineiramente compartilhadas em grande escala, nossos monumentos tendem a tomar a forma mais rapidamente e têm funções que vão além de meramente marcar a história.

Jeff Mitchell/Reuters 
Jovem presta homemagem às vítimas do massacre de Columbine

"Os memoriais estão na intersecção do luta e da interpretação histórica", disse Elizabeth Greenspan, antropóloga e palestrante na Universidade de Harvard.

As pessoas não perderam o desejo de significado maior, diz ela, "mas assumiram o peso extra do sofrimento e da perda de uma forma pessoal".

Sua concepção e criação se centram no que alguns especialistas chamam de "trabalho de memória". De forma geral, é mais rápido do que costumava ser.

As comunidades antes escondiam lembranças horríveis e incidentes vergonhosos, observa Kenneth Foote, professor de geografia da Universidade de Colorado em Boulder, que estudou como nosso ambiente eterniza eventos violentos e trágicos.

Os julgamentos das bruxas de Salem, que resultaram na morte por enforcamento de 19 homens e mulheres em 1629, só foi lembrado 300 anos depois, com a dedicação de um memorial em 1992. Eventos como os confrontos historicamente significativos ou matanças notórias de gangues -o massacre do dia dos namorados (Valentine's Day)- são abandonados sem traços históricos tangíveis.

Foote recentemente visitou um local perto de Greeley onde 20 estudantes foram mortos quando um trem chocou-se contra um ônibus escolar, em 1961. O memorial foi concebido, construído e inaugurado neste ano, quase meio século depois.

"Conversei com um sobrevivente", lembra-se Foote, "e ele disse que as pessoas não queriam falar sobre o assunto; que o incidente tinha tirado a vida de tantas crianças que as pessoas simplesmente não queriam enfrentá-lo".

Antropólogos e outros especialistas observam que memoriais permanentes recentes fazem mais do que preservar datas e transmitir mensagens amplas e históricas.

Agora os memoriais sobem tão rapidamente que respondem a necessidades imediatas -especialmente de cura para as vítimas, suas famílias e comunidades.

O mergulhador de combate Danny Dietz, de Littleton, morreu em junho de 2005 no Afeganistão e recebeu a Cruz da Marinha. No ano seguinte, sua família e oficiais da cidade iniciaram esforços para lembrá-lo com uma estátua em um parque local. O monumento foi inaugurado no dia quatro de julho.

Por comparação, o primeiro de três monumentos a Joe P.Martinez, que recebeu a Medalha de Honra e morreu na Segunda Guerra Mundial em 1943 nas ilhas Aleutian, só foi inaugurado 45 anos depois.

Outro fenômeno também chamou a atenção dos antropólogos: o do memorial instantâneo.

Indivíduos cujas mortes têm pouca ou nenhuma importância histórica ainda assim encontram reconhecimento público em esforços hoje considerados lugar comum cultural.

Templos improvisados polvilham as estradas americanas. Memoriais aparecem espontaneamente quase toda vez que a vida é perdida em circunstâncias horríveis ou comovedoras. Velas, flores, ursos, cartazes -tudo passou a expressar o pesar público.

"O tempo comprimiu-se significativamente", diz Tim Nimz, diretor do Museu Histórico Littleton. "Há mais sensação de urgência no mundo de hoje, seja por acesso instantâneo à informação ou outra coisa. Há uma expectativa que as coisas podem ir mais rápido".

Como principal museu perto de Columbine, Littleton aceitou a responsabilidade da maior parte dos artefatos históricos deixados na escola e no parque Clement, ali perto, local do novo memorial. Apesar de ter armazenado e catalogado a maior parte dos quase 2.500 itens coletados, o museu não os apresenta. Talvez faça uma exibição em 2009 para marcar o 10º aniversário do ataque.

Dezenas de caixas de papelão no museu têm coroas de flores, móbiles, anjos de plástico, becas de graduação e bichos de pelúcia.

Em outra sala, estão os itens maiores: uma cruz assinada por centenas de visitantes; todos os tipos de cartazes; outra cruz com um revólver de brinquedo amarrado e algo escrito sobre violência armada; um azulejo gravado enegrecido pelas chamas de uma vela votiva.

Há poemas, histórias, cartas e reclamações -respostas escritas deixadas no local da tragédia.

Especialistas traçam a origem do fenômeno ao Memorial do Vietnã em Washington, inaugurado em 1982, sete anos após a queda de Saigon. Alguns também apontam para a expressão pública na morte de 1997 da princesa Diana.

Desde então, o conceito foi generalizado e -com enorme assistência da mídia- a idéia ficou marcada como sendo aquela em que as pessoas de luto devem criar memoriais espontâneos quase em qualquer lugar onde algo terrível tenha acontecido.

"Todo o fenômeno é uma resposta populista nacional que as pessoas estão tendo; os indivíduos querem responder a coisas horríveis que acontecem em nossa sociedade", diz Sylvia Grider, professora aposentada de antropologia na Texas A&M. "A mídia provavelmente teve um papel muito ativo em ensinar o público onde e como devem ser esses tributos -porque dão ótimas fotos".

Grider estudou esses memoriais de perto.

Onze alunos e um ex-aluno da Texas A&M morreram e 27 ficaram feridos quando a tradicional, e por vezes controvertida, fogueira da escola -uma pilha de 12 metros de altura que incluía cerca de 5.000 toras- desmoronou.

Assim que a região do desastre foi isolada, memoriais instantâneos, idiossincráticos acumularam-se no local. Grider rapidamente organizou um esforço de catalogar milhares de artefatos.

"Não consigo imaginar as conseqüências emocionais para esta comunidade", disse ela, "se o staff tivesse jogado tudo no lixo".

A criação de memoriais permanentes apresenta um conjunto de desafios diferente, a começar pelas implicações históricas de monumentos que sobem relativamente rápido.

"Freqüentemente, o desafio é trazer memórias individuais para uma história institucionalizada, em que todos concordem. É aí que nasce o conflito", disse a antropóloga Greenspan.

Algumas vezes, o conflito não se resolve por gerações, muito depois dos parentes das vítimas e sobreviventes terem morrido.

"Esses eventos significam algo para um conjunto de pessoas muito maior, e esses locais são significativos para um grupo maior que vítimas e sobreviventes", diz Foote. "Como conseqüência, há tensão sobre quem vai dizer como será o memorial. Nos eventos em que as famílias das vítimas dominam, elas tendem a determinar seu significado".

O memorial de 11 de setembro em Nova York tem sido um exemplo de controvérsia desde sua concepção, em parte porque as famílias das vítimas queriam que mais informações pessoais sobre seus entes queridos fossem incluídas.

O memorial de Oklahoma City, em homenagem às vidas perdidas no atentado ao prédio federal, é freqüentemente citado como exemplo de colaboração eficaz.

Para o memorial de Columbine, acrescenta Foote, os organizadores "abriram um debate em círculos fechados, reconheceram grupos e significados diferentes. Isso retarda o processo, mas tudo bem".

Não há menção aos atiradores Eric Harris ou Dylan Klebold no memorial permanente, refletindo o consenso da comunidade sobre como a tragédia deveria ser retratada para a posteridade.

"Há escolhas, coisas excluídas", observa Greenspan de Harvard. "A memória desses dois (atiradores) não se encaixava na forma como as pessoas queriam se lembrar disso. Como uma pessoa de fora, minha lembrança desses dois jovens também é trágica, de outra forma. Os memoriais", acrescenta, "fazem uma ponte entre o luto pessoal e o significado coletivo". Deborah Weinberg

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