A Suécia não é mais um porto seguro para refugiados iraquianos

Gregory Katz
do Houston Chronicle
Em Sundsvall, Suécia

Os seis iraquianos amontoados em uma pequena sala de estar bebendo chá açucarado pagaram aos traficantes de pessoas mais de US$ 10.000 (cerca de R$ 20.000) para trazê-los para esta cidade, no centro da Suécia.

Os homens estão entre as quase 4,2 milhões de pessoas que fugiram do Iraque por causa da violência crescente. Cerca de 2 milhões procuraram abrigo em outras partes no Iraque; o resto espalhou-se pelo mundo, com grande concentração na Jordânia e na Síria, ameaçando a estabilidade desses países.

Esses seis sobreviventes trocaram o Iraque tórrido e aterrorizante pelas florestas de pinho plácidas e lagos da Escandinávia. Escolheram a Suécia porque tem sido mais simpática do que qualquer nação não-árabe ao seu sofrimento. Mas essa atitude de braços abertos mudou, e uma reação contra os imigrantes está se desenvolvendo.

O Conselho de Migração Sueco determinou neste verão que a situação no Iraque não constitui um conflito armado, abrindo caminho para a deportação de milhares de iraquianos, inclusive esse pequeno grupo aqui.

"A conclusão do conselho é que temos que decidir cada caso individualmente; não podemos dizer que a situação no Iraque é tal que todo iraquiano pode ficar na Suécia", disse Marie Andersson, porta-voz do Conselho de Migração Sueco.

A decisão, baseada em três determinações da justiça, deve conter a entrada de iraquianos, que aumentou fortemente no último ano. Os refugiados também vão para a Alemanha, Noruega, Dinamarca e outros países europeus, mas a Suécia atraiu mais por causa de sua atitude benevolente, e recebeu três vezes mais do que qualquer outro país.

Quase 9.000 iraquianos pediram asilo só no ano passado, disseram autoridades suecas, e estima-se que 20.000 entrarão no país pedindo proteção neste ano.

Os EUA, por outro lado, permitiram muito menos iraquianos no país. Apenas 68 iraquianos entraram nos EUA legalmente entre outubro e junho como refugiados, disseram membros do Departamento de Estado na sexta-feira. Um total de 1.135 encontraram abrigo nos EUA desde o início da guerra no Iraque, em 2003.

A chegada de tantos refugiados na Suécia modificou sua sociedade, que costumava ser homogênea, e gerou um partido político anti-imigrantes, chamado Democratas Suécia. O governo endossou uma política mais rígida. O ministro de relações exteriores, Carl Bildt, disse no início do mês que os iraquianos não serão automaticamente aceitos para asilo, apesar das lutas no país.

"Cada caso terá que ter seu mérito julgado", disse Bildt, que estimou que mais de 80.000 iraquianos estabeleceram-se na Suécia, inclusive muitos que vieram antes da guerra, durante a era de Saddam Hussein.

Os seis iraquianos sabem que a decisão do conselho tornará muito mais difícil sua permanência na Suécia.

Se a fortuna sorrir para eles, poderão ficar. Receberão treinamento profissional, atendimento médico, aulas de sueco e a possibilidade de trazerem suas mulheres e filhos. Mas, se seus pedidos de asilo forem negados, o que parece cada vez mais provável, eles enfrentarão a possibilidade de serem enviados de volta ao Iraque.

O governo vai pedir aos que tiverem seus pedidos negados que voltem voluntariamente e oferecerá ajuda financeira, mas manterá o direito de deportá-los à força, disseram as autoridades.

"Quando ouvimos falar da decisão, ficamos três dias sem dormir", disse Ali Abdul Hassan, ex-oficial do exército iraquiano de 53 anos que disse que foi seqüestrado e surrado antes de fugir.

"Há explosões e matanças no Iraque todos os dias", disse ele. "Você arrisca sua vida toda vez que sai de casa. Então, estamos preocupados com nosso destino."

Para ganhar asilo, cada iraquiano terá que provar que enfrentará ameaças específicas se for enviado de volta, disse o conselho de migração. Não será mais assumido que todo mundo que voltar ao Iraque correrá perigo.

Hassan disse que seria impossível cumprir as exigências. Ele teria que primeiro ir ao Iraque para reunir evidências comprovando sua alegação, depois voltar à Suécia para apresentá-las ao conselho.

A chegada de iraquianos mudaria do dia para a noite, se a imigração usar a decisão como justificativa para rejeitar pedidos de asilo, disse Christer Zettergren, secretário-geral da Cruz Vermelha sueca, que se opõe à mudança na política.

"Estamos protestando porque eles disseram que não há mais conflito no Iraque, e você pode ver na televisão todos os dias que há violência imprevisível lá", disse ele. "Quando uma mulher e uma criança saem para comprar pão e são mortas por uma bomba, é bastante evidente que há conflito armado."

A determinação do conselho deixará os iraquianos que já estão pedindo asilo em um limbo, disse ele, porque ficam sem saber se poderão ficar e trazer suas famílias para a Suécia ou se o governo vai tentar deportá-los.

"Isso é potencialmente uma catástrofe para os refugiados e para a Suécia", disse ele. "Temos uma longa tradição de hospitalidade; todo sueco acha que essa é a forma que devemos agir."

A decisão do conselho não afetaria os que já receberam asilo.

Até que o conselho de migração lançasse dúvida sobre seu futuro, os seis refugiados iraquianos sentiam-se confiantes sobre permanecer na Suécia. O país já é lar de uma comunidade considerável de refugiados do Oriente Médio, incluindo muitos iranianos e palestinos.

É fácil compreender o entusiasmo iraquiano pelo sistema sueco, que provê uma bonança de serviços sociais aos refugiados. Mesmo enquanto esperam a decisão sobre seus pedidos de asilo, recebem os benefícios, inclusive o uso gratuito do apartamento modesto e limpo, construído pelo governo em um antigo hospício. Eles podem ver médicos, receber aulas de sueco e visitar o centro cultural, que dispõe de livros em árabe.

Eles podem até fazer compras em uma mercearia que vende alimentos do Oriente Médio e carne Halal, necessária para satisfazer as exigências alimentares islâmicas.

Como a maior parte dos refugiados que puderam pagar aos contrabandistas para virem para a Europa, os homens não eram pobres no Iraque. Eles tinham propriedades e bons empregos antes da guerra.

Esperando respostas
Seus destinos serão decididos enquanto passam os dias neste ambiente institucional neutro, jogando futebol em um quintal, conversando em torno do chá ou assistindo notícias na televisão sobre as ultimas explosões em casa no Iraque.

"Não podemos trabalhar enquanto esperamos a decisão de nosso pedido", disse Majid Majid, engenheiro de computação de 46 anos que, ao entrar no país, imediatamente contatou as autoridades de imigração e pediu asilo.

Majid não pôde discutir os detalhes de sua viagem clandestina. Ele disse apenas que os iraquianos pagam em geral mais de US$ 10.000 aos traficantes para viajar do Iraque para a Turquia ou a Grécia e depois pegam barcos para a Itália e prosseguem em terra para a Suécia, cruzando as fronteiras da Europa onde a segurança é leve.

Ele é agradecido ao governo sueco, que está fornecendo cerca de US$ 240 (R$ 480) por mês enquanto processa seu pedido de asilo.

"É suficiente, pois não tenho minha família aqui", disse Majid. "Estamos em uma boa posição. Se não houver uma decisão em alguns meses, acho que terei permissão de trabalhar legalmente enquanto esperamos."

Se a decisão do conselho de migração levar as pessoas a serem deportadas para o Iraque, alguns dos homens preferirão ficar ilegalmente.

Hussein Nouri Hasoun, 36, disse que recebeu ameaças de morte em Bagdá que forçaram ele e sua família a deixarem sua casa no bairro de Haifa Street. Eles mudaram constantemente, de casa em casa, em busca de segurança.

"É difícil olhar para o futuro, mas espero que, em 10 anos, eu esteja trabalhando aqui como encanador e também consertando aparelhos de ar condicionado", disse ele. "Quando deixei meu amado país, fiquei muito triste, mas a situação não nos permitia ficar. Se o governo sueco nos mandar voltar, não irei, ficarei. Se voltar, morrerei." Deborah Weinberg

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