Dumbledore: o lado gay de 'Harry Potter'

Casey Seiler
Do Albany Times Union

No que apenas poderia ser chamado de saída do armário retroativa, a escritora J.K. Rowling disse na semana passada para uma casa lotada de fãs que Alvo Dumbledore, o cruzado diretor da Escola Hogwarts, era um bruxo gay.

Os leitores atentos podem ter percebido uma dica da orientação de Dumbledore nesta passagem de "Harry Potter e o Enigma do Príncipe", na qual Harry e Dumbledore usam uma penseira parecida com bola de cristal para espiar o passado:

"'Lá estou eu', disse Dumbledore, animado, apontando adiante para uma figura alta atravessando a rua (...) atraindo muitos olhares curiosos para a veste de corte extravagante de veludo cor-de-ameixa que usava."

Se o veludo cor-de-ameixa passou despercebido, o "corte extravagante" é quase claro.

Divulgação 
Michael Ganbom interpreta Alvo Dumbledore no filme "Harry Potter e o Cálice de Fogo"

Poucos comentaristas abordaram a relevância do local escolhido por Rowling para revelar o segredo: o Carnegie Hall, onde a autora realizava uma leitura para uma casa cheia, é um local sagrado na cultura gay.

Foi o palco onda a ícone gay Liza Minnelli gravou seu famoso álbum "Liza with a 'Z'" e o especial de TV em 1972. Também é o local onde a mãe de Liza, a ícone gay Judy Garland, gravou seu álbum ao vivo de 1961 -um concerto que foi recriado em 2006 pelo cantor-compositor muito gay Rufus Wainwright. Garland, é claro, estrelou "O Mágico de Oz" no papel de Dorothy, uma fantasia muito amada pelo público gay -pela aceitação de estranhos pela heroína, por seus sapatos extravagantes- e que inspirou o eufemismo "um amigo de Dorothy".

Então, o que tudo isto significa? Eu não sei ao certo, exceto que para um sujeito hétero, eu pareço conhecer muito da iconografia gay.

Independente de qual seja sua orientação como fã de "Potter", é seguro apostar que este dado não escrito e bastante casto sobre Dumbledore não afetará muito seu interesse pela série. Em uma sociedade composta por transmorfos, centauros, elfos domésticos, lobisomens e fantasmas tagarelas, a tolerância já era uma das principais virtudes.

Mas na Terra dos Conservadores Culturais, onde o pensamento mágico domina, Rowling forneceu uma distração muito necessária para a contínua presença de Larry Craig no Senado.

"Eu sinto que livros infantis não devem ser políticos. (...) Eles são entretenimento", disse um participante da convenção Values Voters (eleitores de valores) em Washington para a "ABC News". (Será que a inclusão de um personagem gay torna instantaneamente "política" uma obra de arte? E posso sair para alugar "Instinto Selvagem" e "Garotas Selvagens" antes de dar uma resposta definitiva?)

De fato, Dumbledore poderá fornecer uma grande afluxo de dinheiro para bastiões conservadores como o Media Research Council e a Universidade Pepperdine, onde os laptops sem dúvida ferviam na semana passada para produzir propostas de subsídios para relatórios com títulos como "Bruxa Boa/Bruxa Má: a Agenda Homossexual na Terra da Fantasia".

Certamente reacionários cheios de dinheiro como Richard Mellon Scaife podem desembolsar US$ 200 mil por um dossiê sobre a vida privada de alguns outros bruxos.

Por exemplo:

-Gandalf, de "O Senhor dos Anéis": Anda com elfos bonitinhos e anões suspeitos; interpretado no cinema por sir Ian McKellen, cujo ativismo desde o final dos anos 80 faz Rufus Wainwright parecer enrustido. Chances de ser gay: 2 para 1.

-Merlin, da lenda do Rei Arthur: A orientação de todos não é questionável em uma história que envolve um personagem chamado "Lancelot"? 4 para 1.

-Obi-Wan Kenobi, da série "Star Wars": Parece ter uma história com Yoda; seria o celibato Jedi um disfarce? 6 para 1.

-David Bowie como Jareth, o rei dos duendes, em "Labirinto" (1986): Algo sobre a peruca estilo Tina Turner me fez desconfiar ... mas ninguém transmite heterossexualidade americana, de sangue vermelho, à moda antiga, como David Bowie. 50 para 1. George El Khouri Andolfato

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