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25/11/2007 - 00h03

Quando um país-mãe diz ao seu filho: 'Por que não te calas?'

The New York Times News Service
De Simon Romero

Em Caracas, Venezuela
Apesar de terem conquistado a independência há mais de um século, os países de língua espanhola da América Latina freqüentemente olham para a Espanha como ponto de referência. Às vezes o país-mãe é um contraste, às vezes um apoio, às vezes um espelho para o que se desenrola do lado de cá do Atlântico.

AFP 
A reprimeda do rei da Espanha a Hugo Chávez virou 'hit', mas esqueceu-se do contexto

Nas últimas semanas, a Espanha claramente se transformou tanto em saco de pancada para os esquerdistas quanto um bastião de valor para os moderados na América Latina, depois de um debate no qual o rei da Espanha se ofendeu com os comentários do presidente venezuelano e lhe disse publicamente: "Por que não te calas?"

A reprimenda rapidamente ganhou vida própria. A frase do rei Juan Carlos se tornou instantaneamente slogan de campanha do dia para os inimigos do presidente Hugo Chávez. Ela correu o mundo em videoclipes do YouTube, virou campanhia de celulares tanto na Espanha quanto na Venezuela e apareceu em camisetas por toda Caracas.

Na empolgação, o contexto da discussão foi amplamente esquecido: além de um espetáculo épico, a ópera bufa ofereceu um excelente vislumbre das relações ainda complicadas entre a Espanha e suas antigas colônias.

Primeiro, o que aconteceu: aproveitando o momento em que o rei tinha retornado de uma viagem polêmica a pequenos enclaves espanhóis perto do Marrocos, Chávez usou um encontro de cúpula de líderes ibero-americanos para provocar os espanhóis, aplicando a palavra "fascista" a um ex-primeiro-ministro de direita (José Maria Aznar) que nem estava presente.

A reação do rei se seguiu, com posteriores ameaças de Chávez de rever os investimentos espanhóis na Venezuela. Antes de acabar, o presidente da Nicarágua e até mesmo Fidel Castro saíram em defesa de Chávez com alusões a colonialismo econômico espanhol e antigas queixas raciais.

Há uma história para tudo isto. Nos anos 80, quando grande parte da América Latina estava saindo de governos autoritários, a Espanha serviu como espécie de modelo à medida que estava em situação semelhante e buscava deixar para trás a longa ditadura do general Francisco Franco. Em 1981, esquerdistas de toda a região aplaudiram o rei Juan Carlos quando ele ajudou a impedir uma tentativa de golpe reacionário em seu país.

Nos anos 90, o relacionamento mudou. Os países latino-americanos carentes de dinheiro estavam privatizando suas empresas estatais e as colocando a venda. Os espanhóis adquiriram bancos, companhias elétricas, telefônicas e concessões de estradas. Os latino-americanos chamaram isto de "reconquista".

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Atualmente, a migração global agrava os ressentimentos. A Espanha atrai centenas de milhares de imigrantes, principalmente dos países andinos, e muitos se queixam de tratamento xenofóbico. No mês passado, o espancamento de um imigrante equatoriano adolescente em um trem em Barcelona foi registrado em vídeo, provocando protestos por todo os Andes.

Enquanto isso, o investimento da Espanha na região diminuiu drasticamente, em conseqüência de um aumento do comércio dentro da região, novos investimentos da China e da Índia e queixas contra algumas empresas espanholas.

Logo, se tornou fácil para um populista ganhar pontos junto aos eleitores pobres atacando a Espanha.

A rusga no encontro de cúpula ofereceu um bom exemplo. Quando Daniel Ortega, o ex-líder rebelde marxista que atualmente é presidente da Nicarágua, pegou o microfone para defender Chávez, ele também condenou uma empresa espanhola de virtual monopólio sobre a distribuição de energia na Nicarágua.

Castro, de sua reclusão em Cuba, tratou o episódio como "o Waterloo ideológico" da monarquia espanhola. Filho de um imigrante espanhol e de uma mulher cubana, ele levantou antigas questões raciais ao invocar sua conexão ancestral com os tainos, os habitantes pré-colombianos de Cuba.

"Eu tenho sangue taino, canário, celta e quem sabe o que mais", ele escreveu em um ensaio publicado na semana passada no jornal de seu governo, o "Granma".

Em seu ataque ao primeiro-ministro espanhol ausente, Chávez empregou uma rica tradição venezuelana que ainda choca partes mais polidas da América Latina e da Península Ibérica: o insulto político.

A tradição "faz parte de nossa cultura desde os primórdios da independência, quando insultar a virilidade de um rival político era a norma", disse Francisco Javier Pérez, autor de "O Insulto na Venezuela". Chávez o utiliza contra os presidentes Bush, dos Estados Unidos, Vicent Fox, do México; e Alejandro Toledo, do Peru. E também contra o ex-primeiro-ministro Tony Blair, do Reino Unido.

Chávez resistiu no poder por mais tempo que todos eles, com exceção de Bush, mas também deverá durar mais que este. O confronto em Santiago ocorreu apenas semanas antes do referendo marcado para 2 de dezembro, que Chávez espera que lhe autorizará a concorrer a um número indefinido de mandatos no governo. Seus críticos dizem que o incidente poderia ser uma distração antes do referendo, mas que poderá não acabar desta forma.

Atualmente há cerca de 300 mil espanhóis na Venezuela, muitos dos quais emigraram para cá em busca de oportunidades antes da ascensão econômica da Espanha nos anos 90; muitos deles não estão empolgados com os insultos à Espanha.

O afluxo fortaleceu os laços entre a Espanha e a Venezuela, que estão refletidos aqui na culinária, música, comércio e até mesmo em romances. Um livro publicado neste ano, "La Caraqueña del Maní", do escritor espanhol José Luiz Muñoz, captura a complexidade. O protagonista é um exilado basco em busca de uma nova vida em meio ao ambiente de reputação duvidosa de bares de salsa e restaurantes ibéricos.

Em meio a uma refeição de vinho Txakoli e queijo Idiazabal, ele resume como o Novo Mundo, apesar de seus acessos ocasionais contra a Espanha, ainda fascina o Velho. "A Venezuela é um país amistoso", disse Muñoz, "e se você tiver sorte de não ser pego no meio de um tiroteio, bem, é quase o paraíso".

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