Os 'escândalos Clinton' valem a pena ser lembrados?

Peter S. Canellos, do The Boston Globe*
Em Washington

A morte na semana passado do ex-deputado de Illinois, Henry Hyde, o republicano patriarcal que liderou o impeachment do presidente Clinton, trouxe de volta à memória o que o pré-candidato presidencial democrata Barack Obama chama de "as batalhas dos anos 90".

Aquelas batalhas estão no coração do diálogo político atual, à medida que Obama e John Edwards, o ex-senador da Carolina do Norte, argumentam que a eleição de Hillary Clinton como presidente reviveria os ressentimentos dos anos 90.

Mas está longe de ser claro o que as pessoas pensam daquelas batalhas em retrospecto. Em uma década marcada por preocupações de maior peso —e batalhas de maior peso— os chamados "escândalos Clinton" podem ser vistos como triviais. E apesar dos Clintons terem sido o foco das batalhas, não foram eles os instigadores: a pergunta para a atual campanha é se ainda assim merecem alguma culpa, devido ao seu comportamento e estilo de política.

É uma pergunta aberta, e como será respondida poderá ser a chave para o destino de Hillary Clinton.

Estritamente segundo os números das pesquisas, nenhum dos supostos
escândalos —do negócio imobiliário Whitewater às demissões do escritório de viagens, da arrecadação de fundos no quarto de Lincoln à alegação de perjúrio no coração do caso Monica Lewinsky— teve sucesso em voltar o público contra os Clintons.

Os índices de aprovação de Bill Clinton eram altos durante seu impeachment e permaneceram altos durante o restante de sua presidência. Os escândalos também não impediram Hillary de conseguir a manobra política difícil de conquistar uma cadeira no Senado por um Estado onde nunca morou antes.

Todavia, havia um elemento de "fadiga de Clinton" na corrida presidencial de 2000, quando o candidato republicano George W. Bush prometeu devolver a honra à Casa Branca e falou com pesar da presidência de Clinton como um caso de potencial inatingido —uma aspirante a "Camelot" que degenerou em um drama de televisão proibido para menores. O vice-presidente Al Gore, o candidato democrata, expressou sua desaprovação ao comportamento de Bill Clinton no escândalo Lewinsky e manteve o presidente distante por grande parte da campanha.

O segundo presidente Bush definiu a si mesmo como o anti-Clinton, uma pessoa que fala sem rodeios, um líder guiado por valores mais do que instintos políticos, um tomador de decisões ao estilo executivo-chefe que não perde tempo com detalhes. Foi refrescante por algum tempo, mas logo a guerra no Iraque expôs as fraquezas no estilo Bush que colocaram os anos Clinton sob uma luz mais favorável.

Além disso, muitos americanos anseiam pela política centrista dos anos
Clinton, atribuindo as falhas de Bush a um excesso de ideologia e uma não
disposição de chegar a um meio-termo como seus oponentes. Bush provavelmente encerrará sua presidência com índices de aprovação ainda mais baixos que os de seu antecessor.

Em campanha, Hillary Clinton recebe crédito pelos feitos de seu marido e
deixa claro que sua administração marcaria um retorno ao mesmo estilo de
governo: eles podem ser uma mistura difícil como marido e mulher, mas são companheiros de equipe política inseparáveis. Eles ascendem e caem juntos; logo, se os eleitores nutrirem más lembranças do impeachment de Bill, Hillary sofrerá.

A morte de Hyde, aos 83 anos, reviveu o debate em torno dos anos Clinton mas não foi muito longe na sua análise. Bill Kristol, o editor neoconservador do "Weekly Standard" e chefe de gabinete de Dan Quayle, o ex-vice-presidente, viu o falecimento de Hyde como um lembrete do "mau gosto dos anos Clinton", retratando a luta de Hyde pelo impeachment como um ato de consciência.

Mas o jornalista Tom Edsall, escrevendo no "Huffington Post", apontou para uma velha reportagem de Bob Woodward de que Hyde buscou um acordo de bastidores que teria reduzido o impeachment de Clinton em um voto de censura, de forma que a consciência de Hyde podia o estar devorando, afinal.

Hyde sempre cultivou um ar de dignidade de estadista, e apesar de ter se mantido ao lado de sua decisão de impeachment, ele provavelmente seria melhor lembrado pelo restante de sua longa carreira no Congresso, marcada por uma firme oposição ao aborto, o assunto que realmente definiu sua política.

Igualmente, Bill e Hillary Clinton prefeririam ser lembrados por seus feitos políticos, mas o legado do impeachment —e os escândalos que vieram antes dele— constituem uma mancha que não foi bem lavada. A capacidade dos Clintons de prosseguir na política dependerá da disposição do público de ignorar a roupa suja do passado.

*Peter S. Canellos é o chefe da sucursal de Washington do "Globe" George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos