Para onde vai a China, vai o aquecimento global

De Andrew C. Revkin

Dado o acelerado degelo atual da Groenlândia, provavelmente não é mais adequado se usar o adjetivo "glacial" para descrever negociações de tratados destinados a limitar a interferência humana sobre o clima.

As conversações em Bali, na Indonésia, nas duas últimas semanas foram apenas o mais recente pequeno passo na tentativa de fazer com que isso aconteça. A conquista de Bali? Mais dois anos de negociações. Enquanto isso, as concentrações de monóxido de carbono (CO), a principal emissão responsável pelo aquecimento do clima, continua sua ascensão iniciada há 250 anos, uma vez que a industrialização se fortaleceu com uma dieta de combustíveis fósseis.

Portanto, supondo que as nações industrializadas e em processo de industrialização estejam levando o assunto a sério, quem ou o quê pode, realisticamente reverter a onda do carbono?

Como sempre, os dedos de muitos especialistas em energia e meio ambiente apontam tanto para o oeste como para o leste -para os Estados Unidos e a China.

A superpotência estabelecida cresceu cavalgando uma onda de prosperidade abastecida por combustíveis fósseis. A emergente, assentada sobre a riqueza do carvão, vê poucos motivos para não fazer o mesmo; afinal, ela acaba de pegar a sua onda (com a Índia e outros na sua cola).

No entanto a maré só poderá mudar, concordam vários cientistas e economistas com perspectivas diversas, se a China e outras potências em ascensão, como a Índia, acelerarem sua passagem pela tradicional rota de desenvolvimento de um país -extração de recursos, crescimento industrial e econômico, acompanhando a espoliação, e depois a restauração e proteção ambiental. Se eles não o fizerem, suas emissões acabarão por submergir todos os outros recursos, segundo muitas análises.

Richard Richels, economista do Electric Power Research Institute, ajudou a elaborar uma sinistra previsão: Mesmo se as potências industriais estabelecidas desligassem todas suas usinas elétricas e carros agora, a menos que haja mudanças nos países mais pobres, a concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera ainda poderia alcançar 450 partes por milhão -um nível considerado inaceitavelmente perigoso por muitos cientistas- até 2070. (Se ninguém fizer nada, tal limite será alcançado em 2040.)

Os partidários do livre-arbítrio dizem que uma vez que os países ficarem ricos, farão o certo pelo clima. Mas os críticos dessa visão dizem que a longa vida do dióxido de carbono (e de fontes como as usinas de queima de carvão que a China constrói no ritmo de uma por semana) demonstra que esperar só fará o problema aumentar além da possibilidade de ser remediado.

As teorias são muitas sobre qual a melhor forma de ajudar a China a dotar políticas de redução de emissões. Uma forma, dizem muitos cientistas e estudiosos, é tornar as fontes de energia não-poluente mais baratas que a queima indiscriminada de abundantes combustíveis fósseis. No momento, elas estão muito mais caras.

Essa é a razão pela qual várias dezenas de especialistas de alto nível em clima e energia enviaram uma carta este mês aos membros do Congresso e candidatos à presidência, defendendo a multiplicação por dez dos recursos destinados à pesquisa em energia, no orçamento federal, atualmente em torno de US$ 3 bilhões anuais.

Alguns economistas dizem que a única coisa que vai acelerar a mudança é dinheiro, seja ele chamado de ajuda, assistência tecnológica ou qualquer outro nome.

Representantes de países em desenvolvimento há muito insistem nisso, observando que as potências estabelecidas gastaram um século gerando o efeito estufa. Falando em Bali, Munir Akram, embaixador do Paquistão na ONU, disse: "O que precisamos fazer é encontrar uma forma de reduzir as emissões daqueles que podem se dar ao luxo de reduzir as emissões."

Mas existem muitas dúvidas a respeito da disposição do Congresso, em particular, de pagar por concorrentes de economias emergentes.

Alguns especialistas vêem as melhores perspectivas de mudança vindo de baixo para cima, apontando para esforços como o do MetroBus, um programa envolvendo o World Resources Institute, que expandiu enormemente o uso o transporte de massa na cidade do México.

BinBin Jiang, pesquisadora associada em energia e desenvolvimento na Stanford University, vê oportunidades similares na criação de uma infra-estrutura eficiente para as cidades de porte médio da China, em processo de grande expansão. "É aí que se determina se haverá um avanço ou vamos seguir na velha trilha do Ocidente," ela diz.

Mas Jiang também declarou que uma mudança significativa na política energética e climática dentro dos Estados Unidos é essencial.

"A China é claramente responsável pela maior parcela de emissões no futuro, mas os Estados Unidos ainda são o maior empecilho, atualmente" ela afirma. "Os EUA não terão influência por dizer à China o que deve ser feito. Precisam orientar pelo exemplo". Claudia Dall'Antonia

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