Cinco artistas que jamais deveriam ter covers. Jamais.

De Ricardo Baca*
Do Denver Post

Quando se pensa nos artistas que mais tiveram covers nos anais da história da música, os primeiros a serem lembrados são os Beatles e Bob Dylan. Escreveram músicas que parecem implorar aos outros artistas que gravem suas canções. Mas uma banda que toca as músicas de outro artista pode ser sublime ou imoral.

5 COVERS MÁGICOS
- "D'yer Mak'er" (Led Zeppelin), com Sheryl Crow: sim, a nova música de Sean Kingston "Me Love" imita essa canção de uma forma realmente horrorosa. Mas acredite se quiser, a versão de Crow no single dub do Zeppelin -do disco tributo "Encomiun" é um grande sucesso

- "Black Star" (Radiohead), com Gilian Welch: nunca se deve fazer cover de músicas do seu próprio gênero. E é porque Welch vai tão além de seu original folk/bluegrass que ela tem sucesso aqui, com um fantástico cover acústico de um dos primeiros clássicos do Radiohead

- "Common People" (Pulp), com William Shatner e Joe Jackson: Ben Folds produziu essa irônica e bem sucedida música no gênero dance floor que combina a afetada entonação de Shatner com o tom cristalino e imponente de tenor de Jackson. É engraçado e bizarro, certamente, mas também é um cover harmoniosamente executado

-"Comfortably Num" (Pink Floyd), com Scissor Sisters: alguns poderão considerar um sacrilégio fazer um cover do poderoso pink Floyd, especialmente como uma homenagem na linha gay dos anos 70 ao som de discoteca em falsetto. Mas este é um sutil, moderado tributo a Floyd, drogas psicodélicas e shows de laser

-"Sex (I'm A)" (Berlin), com Peaches: fora de seu envolvimento com "Top Gun", o verdadeiro apelo do Berlin é a sordidez de sua música. Os primeiros adeptos do sintetizador reconheceram o potencial desagradável do instrumento. E mais de duas décadas mais tarde, o Peaches está redefinindo os sintetizadores como um instrumento tão sórdido quanto suas mentes.

Depende da música, do artista original, da banda que está a interpretando e do contexto. Poucos covers são tão bons quanto os originais, mas a beleza de um bom cover está em suas muitas diferenças em relação ao trabalho que lhe deu origem.

"Let It Be" deveria ser um território sagrado, até para Joe Cocker. E num mundo ideal, o mesmo deveria valer para "Blowing in the Wind" -independente do fato de esta já ter sido adotada por Bobby Bare, Judy Collins, Stevie Wonder, pelo Mormon Tabernacle Choir e, é claro, pelos Beatles.

Mas vamos um pouco adiante. Existem artistas que jamais, sob quaisquer circunstâncias, deveriam ser tema de um cover. Nem suas coisas mais antigas. Nem qualquer um dos seus lançamentos lado B.

Talvez seja porque seu som é único, ou o seu legado singular e intocável. Ou porque eles tenham sido tão revolucionários que tudo já tem a cara deles. Ou talvez porque seu líder era um gênio e as palavras não parecem ser as mesmas, vindas da boca de outros.

Porque eles são sagrados.

Existem cinco bandas com as quais que ninguém, jamais deveria fazer um cover -nem mesmo Bob Dylan.

- Radiohead

Que tipo de insolência permitiria a qualquer artista tentar um cover do Radiohead? Só a do tipo idiota.

Você se acha original com seu "Optimistic" acústico ou sua tentativa experimental de "Karma Police." È melhor escondê-la no fundo do bolso e esquecer que você já tenha tentado fazer isso.

As bandas que tentaram fazer o cover do Radiohead têm muitas coisas conspirando contra elas. Em primeiro lugar, a banda é um dos grupos mais criativos da última década. Tente compará-la a qualquer outra. Ela se parece com o Radiohead. Ela se parece com ela mesma.

Em segundo lugar, suas letras costumam soar imediatamente falsas quando vêm da boca de qualquer outra pessoa que não seja o autor. Tente ver se funciona a introdução de "Black Star" com sua própria voz.

O único cover admissível de Radiohead que eu já ouvi é a sutil pegada de Gilian Welch em "Black Star." Ela não imita o tom de falsetto de travesseiro de Thom Yorke. Ela preferiu trocar a grande produção por duas guitarras acústicas.

E fica harmonioso.

- Pixies

Depois que o Nirvana se separou e Kurt Cobain prestou seu juramento de fidelidade à Universidade de Frank Black (vocalista do Pixies) e sua Escola do "Loud, Soft, Loud", ficou na moda citar "Surfer Rosa" e "Doolittle" e ao mesmo tempo se apropriar do pendor do Pixies pela desordenado em meio a extraordinárias músicas pop.

E agora todo mundo quer fazer o cover dos Pixies porque acha que esse sucesso consagrado lhe trará credibilidade instantânea.

Na verdade, isso é encarado mais como desespero.

Você é tão bacana quanto sua coleção de discos. Mas isso não significa que você precisa fazer pouco da música de seus heróis.

David Bowie, Paul Weterberg e o Pearl Jam fizeram cover dos Pixies -só que nada bem. James Blunt ainda toca "Where is My Mind?" ao vivo, dedilhando desafinadamente enquanto canta, alheio ao fato de estar distante de ser tão bom como o original. A pegajosa "Velouria" de Weezer é tolerável, e a pegada progressiva de Bad Plus para a mesma música é enigmaticamente vaga.

Todos os outros se sairiam bem melhor escrevendo suas próprias canções -sob a inspiração dos Pixies.

- Joy Division

As gravações de álbuns e compilações do Joy Division são dissonantes. A voz indomável do cantor Ian Curtis é possessa e desagradável. O infortúnio parece tomar conta do pequeno catálogo da banda britânica, que inclui canções tais como "She's Lost Control," "Love Will Tear Us Apart" e "Dead Souls."

5 COVERS SEM A MENOR CHANCE
- "Sweet Child O'Mine" (Guns N' Roses), com Sheryl Crow: embora a alentada versão de Crow para o Zeppelin ("D'yer Mak'er") tenha funcionado bem, sua compenetrada tentativa com a glória do GN'R não teve a menor chance. Tocar a música acusticamente foi um belo lance, mas Crow não tem a garra para fazer essa faixa se impor

- "Where is My Mind?" (Pixies), com James Blunt: todos os "hipsters" culpam o filme "Clube da Luta" que apresentou esse clássico dos Pixies nos créditos finais, pela volta da popularidade da música. Pode ser. Completamente fora de meu entendimento, o cover de Blunt mais se parece com os Monkees fazendo cover dos Beatles

-"Behind Blue Eyes" (The Who), com Limp Bizkit: este péssimo cover em estilo clássico da maior balada do The Who não é culpa do líder do Bizkit, Fred Durst. O ônus é de seu grupo. Como é que seus amigos e colegas poderem ter deixado que esse massacre acontecesse?

- "Big Yellow Táxi" (Joni Mitchell), com Countin Crows: outra escorregadela legendária, Adam Duritz indo de Joni Mitchell, uma intérprete nascida para ter covers. Com certeza ela escreveu dez músicas melhores que esta, mas ainda assim, esse banho de sangue moderno do rock não ficou bem

- "Shadowplay" (Joy Division), com The Killers: o The Killers gravou esse cover do Joy Division para o excelente filme documentário sobre a vida de Ian Curtis "Control". É de longe o elemento mais fraco do filme. É torturante ouvir a tentativa de Brandon Flowers de encontrar um significado para as palavras de Curtis.

Isso é que conquistou os seguidores que o Joy Division merece em todo o mundo -mesmo que sua fama tenha chegado após o trágico suicídio de Curtis.

"Love Will Tear Us Apart" da banda -sobre o fracassado casamento de Curtis e sua vida em desintegração- é "provavelmente a música com maior número de covers no universo de blogs de MP3 e do mundo do rock indie," segundo Dodge, o guru do blog My Old Kentucky (http://myoldkyhome.blogspot.com). Ele compilou uma poderosa coleção de covers de "Tear Us Apart" para um registro no ano passado. E a maior parte deles não consegue transmitir a profundidade do original.

A frágil abordagem do Calexico para a canção é muito superficial. A bombástica colaboração do U2 e do Árcade Fire no single teve punhos fechados demais, rock de arena demais, épica demais, U2 demais. A abordagem rala do Squarepusher da canção é mais estranha que expressiva.

O Joy Division foi a única de tais bandas que fez músicas importantes sem tentar fazer músicas importantes -e sem ser pretensiosa ou ridícula. E tais canções deveriam ter sido deixadas no seu estado original.

- Janis Joplin

Infelicidade é... Faith Hill fazendo cover de "Piece of My Heart" de Janis Joplin. A versão gravada é aborrecida e modernosa -música indiferente feita para compras em supermercados. A música de Joplin era totalmente espiritual. Embora faça sentido que o Grateful Dead tenha um cover de "Me and Bobby McGee, eles não captaram a intenção melancólica da canção original. E mesmo que "Piece of My Heart" fosse ela mesma um cover de outro sucesso de R&B, Joplin a tornou sua, para sempre.

Deveria existir um lugar cruel, após a morte, para qualquer um que tente interpretar "Piece of My Heart" -especialmente para Hanson, o grupo de irmãos adolescentes que fez o cover da música no seu DVD de 2000, "At the Fillmore."

- The Clash

Essa é uma lista diversificada e -de enganos: No Doubt, Annie Lennox, Dropkick Murphys, Dwight Yoakam, Living Color, Pogues, Primal Scream, Pearl Jam, Specials, Indigo Girls, Rancid, Kid Dynomite, Los Fabulosos Cadillacs, MxPx, Audioslave, Josh Rouse, Hot Water Music, Strokes e Mighty Mighty Bossotones.

Todos eles tentaram fazer cover do Clash. Todos fracassaram.

A voz de Joe Strummer é tão individual como o punk rock com modulação dub de sua banda. Ninguém consegue captar a verdadeira estética de "Bankrobber". Ninguém consegue capturar a inquietante desilusão de "Train in Vain."

A descarada segurança de "Clampdown?" O funk psicótico de "This is Radio Clash?" Ninguém consegue tocar isso -a não ser o Clash.

"Mas eles são a minha banda favorita, cara", dirá algum sujeito em uma banda depois de ler este artigo. "Só estou homenageando quem deve ser homenageado. Não. Prestem suas homenagens ao Clash -ou a qualquer desses outros artistas- nas notas de apresentação de seus CDs.

Esse é todo o agradecimento necessário.

*Ricardo Baca é crítico de pop do "Denver Post" Claudia Dall'Antonia

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