Brasileiros e estrangeiros mobilizam-se para salvar onça do Pantanal

Madeleine Nash

A temperatura da manhã mal começava a subir quando o biólogo Ricardo Costa saiu procurando onças na Fazenda São Francisco, uma propriedade na qual se cria gado e cultiva-se arroz, e que também conta com uma reserva de vida selvagem. A fazenda tem 12.140 hectares e fica na região do sudoeste do Brasil conhecida como Pantanal.

Logo, na borda de um trecho de mata baixa, Costa viu uma jovem onça macho perambulando em uma área de sombra pontilhada de raios de sol. "É o Orelha", cochichou o biólogo, apontando para um rasgo na orelha direita do animal.

Enquanto Costa observava a partir do assento do motorista da sua caminhonete Toyota, a onça se espreguiçava e bocejava, revelando dentes fortes o suficiente para esmagar o crânio de quase qualquer outro bicho. "Maravilha!", exclamou o biólogo.

A onça-pintada, ou jaguar, cujo nome científico é Panthera onca - o maior felino da América e o terceiro maior do mundo -, ainda vaga pelos pastos do Pantatal, uma área de 192 mil quilômetros quadrados formada por um mosaico de rios, florestas e savanas periodicamente inundadas que também se estende pela Bolívia e pelo Paraguai.

Sob o ponto de vista da onça, esta área vasta e rica em vida selvagem provavelmente é um pedaço de paraíso - ou pelo menos seria caso esses grandes felinos não fossem rotineiramente caçados como retaliação pela perda de cabeças de gado.

Costa, por exemplo, diz estar preocupado com Orelha e com Grandão, o irmão mais arisco da onça que avistamos. Dois anos atrás, um macho mais velho e maior que patrulhava o mesmo território foi morto ao se aventurar em uma fazenda vizinha.

E agora Fernando Azevedo, o principal cientista com o qual Costa tem trabalhado, diz ter perdido quatro das 14 onças que estava começando a estudar na Fazenda São Bento, que fica a cerca de 100 quilômetros da Fazenda São Francisco.

Mais uma vez, ao que parece, os animais foram mortos quando saíram de uma fazenda na qual são protegidos, e penetraram em propriedades adjacentes. Azevedo suspeita que entre os animais mortos estava uma fêmea adulta e os seus dois filhotes bastante crescidos. Convencer fazendeiros e vaqueiros a parar de matar as onças tornou-se uma prioridade para os conservacionistas na região.

A importância do Pantanal foi ressaltada em outubro do ano passado, quando Thomas Kaplan, diretor executivo da fundação Panthera, uma força emergente na área de conservação dos grandes felinos, adquiriu duas grandes fazendas na região, e assinou um acordo para a compra de uma terceira, criando assim uma propriedade que terá e breve uma área total de mais 162 mil hectares.

As fazendas, que serão gerenciadas pela Panthera, são especialmente importantes porque elas conectam refúgios da vida selvagem que anteriormente estavam isolados uns dos outros. Agora as onças serão capazes de se movimentar com segurança de uma área de preservação para outra.

"No caso das onças temos a oportunidade de jogar na ofensiva", diz Kaplan, empresário e financista que em 2006 fundou a Panthera. "Existem certas áreas, como o Pantanal, nas quais o vento sopra pelas nossas costas".

Kaplan afirma que o plano da Panthera é continuar criando bois nas fazendas, testando ao mesmo tempo diversas técnicas para reduzir a interação entre o gado e as onças. Ele espera que os resultados encorajem outros a adotar práticas de administração que privilegiem a coexistência, e não o conflito.

Segundo os conservacionistas, o que está em jogo no Pantanal é uma fração significativa - talvez 15% - da população remanescente de onças do mundo.

"A pecuária e a conservação das onças não precisam ser mutuamente exclusivas", afirma Alan Rabinoviz, diretor-executivo do programa de ciência e exploração da Sociedade de Conservação da Vida Selvagem, com sede no Bronx, em Nova York.

"O gado limpa a área, e aumenta o habitat para as presas selvagens da onça. Se retirássemos o gado e deixássemos que grandes áreas voltassem a virar matas, teríamos uma quantidade muito menor de onças no Pantanal do que a que temos hoje", afirma Rabinovitz.

As onças também podem proporcionar aos fazendeiros uma fonte adicional de renda. Por exemplo, vários fazendeiros no Pantanal, entre eles o dono da Fazenda São Francisco, trabalham com o ecoturismo, uma atividade que transformou um problema em um bem valioso.

Os conservacionistas dizem que a próxima década será crucial para as onças, tanto no Pantanal quanto nas outras regiões habitadas por este felino, cujo habitat vai do norte da Argentina até a fronteira entre México e Estados Unidos.

Ninguém conhece o índice preciso de declínio da população de onças, e tampouco quantas delas existem. Mas a União Mundial de Conservação estima que o número de animais adultos em liberdade seja inferior a 50 mil, e classifica a onça como estando perto de ser considerada um animal ameaçado de extinção.

A onça pode ainda não estar em uma situação tão desesperadora quanto o tigre asiático, cuja população reprodutora na natureza despencou para um patamar inferior a 2.500 animais, ou o leão africano, espécie que, atualmente, talvez só conte com apenas 20 mil ou 30 mil indivíduos na natureza. Mas se os conflitos com as pessoas e o gado não for resolvido logo, advertem os conservacionistas, as onças poderão em breve percorrer uma trajetória similar.

À primeira vista, o conflito entre onças e fazendeiros parece ser incontornável. "Os felinos estão na mesma área em que se encontram as vacas, e as vacas são propriedade de pessoas", diz Almira Hoogesteijn, veterinária pesquisadora do Centro de Pesquisas e Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional no México.

Mas, ainda que as onças matem e comam o gado, isso acontece com uma freqüência muito menor do que se poderia imaginar.

Um quadro quantitativo dos hábitos dietéticos das onças emergiu de um estudo realizado por Azevedo na Fazenda São Francisco em 2003 e 2004.

No decorrer de quase dois anos, Azevedo e seus auxiliares colocaram coleiras com transmissores em 11 onças adultas e rastrearam os seus movimentos. Eles também coletaram meticulosamente as fezes das onças e examinaram as carcaças das suas presas.

O conteúdo das fezes revelou que a presa mais comum das onças é o roedor gigante conhecido como capivara, seguida pelos jacarés e pelos veados pantaneiros. Dentre 113 carcaças de animais mortos pelas onças, houve identificação positiva de 35 de capivaras, 23 de jacarés e 32 de bois.

Pesquisador que faz pós-doutorado na Universidade de São Paulo, Azevedo compilou o número bovinos mortos em relação a um universo maior. Ao todo, 169 bovinos morreram na Fazenda São Francisco durante o período de estudo, segundo ele e o seu ex-orientador de tese, Dennis Murray, da Universidade de Trent, no Canadá, relataram na edição de setembro do periódico "The Journal of Wildlife Management". Desses, 19% foram mortos pelas onças. Em uma manada de 5.000 cabeças de gado, o número de bovinos mortos pelas onças diminuiu ainda mais de significância: tal número equivaleu a menos de 1%.

A Fazenda São Francisco mantém as suas onças sob controle por meio de uma série de táticas, afirma o dono da fazenda, Roberto Coelho. Entre as estratégias usadas está a utilização de touros e vacas mais velhos com chifres para "tomar conta" de animais novos e inexperientes, e a retirada imediata de manadas de uma pastagem assim em que nesta ocorre um episódio de ataque pelas onças.

Além disso, segundo Coelho, os amplos arrozais da Fazenda São Francisco constituem-se em uma barreira efetiva entre as pastagens e as florestas adjacentes da fazenda. Segundo os especialistas nesses ataques ao gado, uma das coisas mais importantes a se entender a respeito das onças é que elas gostam de ficar em áreas próximas à água.

Um exemplo das novas abordagens é o caso de Teresa Bracher, que estava enfrentando problemas nas quatro fazendas que possui em uma região que é habitat preferido das onças, ao longo do Rio Paraguai, a principal artéria do Pantanal. Durante um certo período, as perdas para as onças podem ter chegado perto de 8%, afirma Bracher, que além de fazendeira é uma conservacionista.

Em busca de assistência, Bracher procurou Peter Crawshaw Jr., um dos principais especialistas em onças que mora no Parque Nacional do Pantanal. Crawshaw sugeriu diversas estratégias não letais para conter os ataques das onças, conta Brachaer, e ela e o primo, que é responsável pelo manejo do gado, implementaram todas essas medidas.

Por exemplo, eles passaram a utilizar cães de guarda e rodearam o gado com cercas eletrificadas. Instalaram luzes brilhantes em volta das pastagens e criaram patrulhas regulares. Os fazendeiros chegaram até a soltar fogos barulhentos à noite, período no qual as onças são mais ativas.

O resultado foi a queda significativa de mortes de bois pelas onças. Assim com vários outros fazendeiros na área, Bracher teme uma medida cujo objetivo é reduzir os ataques das onças: a substituição do gado por búfalos d'água. Os búfalos tornam-se facilmente selvagens, criando um problema tão grande quanto aquele que supostamente resolveriam.

Mas, segundo Rafael Hoogesteijn, um veterinário venezuelano internacionalmente respeitado como especialista nesse tipo de ataque, uma manada de búfalos manejada de forma correta é a coisa mais próxima de um rebanho à prova de predadores que se pode conseguir. Quando uma onça ou um puma aparece, os búfalos formam um círculo de proteção em volta dos filhotes. Eles chegam até a ameaçar o predador, avançando contra este, com os grandes touros na dianteira.

Em um estudo que está prestes a ser publicado, Hoogesteijn e a sua irmã, Almira, relatam a experiência com búfalos d'água e gado em seis fazendas na Venezuela. Ele observa que em três delas as onças conseguiram capturar alguns novilhos quando os búfalos foram introduzidos pela primeira vez. Mas depois disso as manadas aprenderam a se defender por si próprias, e os ataques das onças cessaram.

Os Hoogesteijn descobriram que esses intimidadores herbívoros parecem rodear o gado com uma silhueta protetora. Nas fazendas venezuelanas, as onças atacaram o gado com uma freqüência significativamente menor quando este era colocado nas mesmas pastagens com os búfalos.

"Com os bovinos, você sempre terá perdas", afirma Rafael Hoogesteijn, que concordou em se tornar supervisor das operações da Panthera no Pantanal. "Mas, com os búfalos, é possível haver uma verdadeira coexistência".

O que frustra os conservacionistas daqui é o fato de que, mesmo havendo diversas técnicas para minimizar os problemas causados pelas onças, a primeira reação é freqüentemente recorrer à uma arma, algo de deveria ser o último recurso.

Isso ocorre apesar de a onça ser protegida não só no Brasil, mas em todo o território em que habita. Porém, a lei praticamente não é cumprida.

Hoogesteijn e outros consideram o atual sistema de incentivos perverso. Os fazendeiros não são penalizados por matarem onças, mas também não são recompensados por resolverem de uma forma ecologicamente sensível o problema da predação por parte dos felinos.

Alguns acreditam que programas que compensam os fazendeiros pelas suas perdas podem ajudar. Outros observam que tais programas são caros e, caso sejam mal projetados, podem perpetuar más práticas de gerenciamento.

Uma pesquisa feita com 50 fazendeiros no norte do Pantanal, publicada dois anos atrás, sugeriu que as pessoas da região vivem um conflito profundo em relação à questão das onças. Bem mais da metade dos entrevistados disse não poder tolerar onças nas suas próprias fazendas, e no entanto quase três quartos deles achavam que as onças precisavam ser protegidas. Entre os entrevistados, 38% consideraram as onças um fator de prejuízo econômico maior do que enchentes, secas, roubos e doenças.

Os especialistas descobriram que os fazendeiros tendem a exagerar os prejuízos provocados pelas onças. Em parte, isso ocorre porque as onças gostam de comer carniça, de forma que costumam se alimentar de carcaças de animais que não mataram. Mas a tendência ao exagero também resulta do fato de os fazendeiros muitas vezes não terem consciência de até que ponto doenças como a leptospirose e a brucelose lhes causam prejuízos.

De acordo com Hoogesteijn, essas doenças atacam o aparelho reprodutor das vacas, provocando abortos e nascimentos de bezerros mortos. Em uma grande fazenda venezuelana, ele certa vez calculou que o prejuízo annual decorrente de gestação e partos problemáticos equivaliam a algo entre 400 e 3 mil "cabeças de gado em potencial", ou dez vezes o número real de bovinos comprovadamente mortos por onças e pumas.

Não obstante, existem onças que são um problema. E não são poucas as que trazem antigos ferimentos provocados por tiros. Ferimentos que prejudicaram a sua capacidade de tocaiar e matar as presas. Alguns conservacionistas admitem que às vezes a solução é caçar um animal problemático.

Mas, segundo Silvio Marchini, biólogo especialista em vida selvagem que trabalhou no Pantanal antes de mudar-se para a Amazônia, talvez seja possível obter mais sucesso ao se concentrar mais no aspecto humano do problema. "Existe a suposição de que o motivo pelo qual as pessoas matam as onças é o fato de elas provocarem prejuízos econômicos. Mas atitudes sociais e culturais podem ser também fatores muito importantes".

Conforme diz Marcos Morais, dono da Fazenda São Bento: "Precisamos de uma nova geração que surja e modifique as antigas maneiras de pensar".

No Pantanal, a caçada de onças é parte de uma tradição tão enraizada quanto costumava ser a caçada de raposas no interior da Inglaterra - exceto pelo fato de que aqui nao é o proprietário rico o caçador mais entusiasmado, mas sim os seus empregados, os caubóis pantaneiros.

Para eles, a caçada de onças é uma forma de entretenimento do sertão, explica Sandra Cavalcanti, uma especialista em onças que em breve receberá o seu Ph.D. Pela Universidade do Estado de Utah.

E há também um componente machista. "Matar uma onça é considerada 'coisa para homens de verdade'", diz Cavalcanti. No final deste ano, Cavalcanti, que passou a integrar a equipe que está sendo montada pela Panthera, espera começar a lidar com esse problema dando início a um programa de apoio aos vaqueiros, que poderá incluir projetos como serviços médicos, instrução sobre gerenciamento das áreas selvagens e controle da predação.

As onças do pantanal parecem estar em uma gangorra que pode tanto se inclinar para uma direção quanto para outra. Segundo Cavalcanti, tendo em vista o que está em jogo, os pesquisadores não podem mais se dar ao luxo de apenas estudar esses elegantes animais selvagens. "Para salvar as onças, precisamos agir", afirma a pesquisadora. UOL

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