Imigrantes passam por três ilhas gregas para entrar na União Européia

Caroline Brothers
Em Samos, Grécia

Seis homens e uma mulher estavam agachados no escuro contra o muro do quartel-general da guarda costeira. Um oficial vestindo uniforme de camuflagem berrava: "nome? Idade?"

Com os dedos eles indicaram suas idades: de 20 a 27 anos.

"País?" Ele gritava mais alto quando eles não entendiam. Ele falava em inglês, uma língua na qual poderiam entender algumas poucas palavras. Cinco disseram ser do Afeganistão, dois disseram ser palestinos. Então ele os colocou em fila e os fez marcharem ao longo da orla marítima.

Cenas como esta ocorrem toda noite em Samos, uma das três ilhas gregas tão próximas da Turquia que não existem águas internacionais entre os países. Imigrantes do Iraque, Afeganistão, Somália, Líbia, Líbano, Eritréia, territórios palestinos e Irã chegam a estas ilhas, situadas ao longo de uma fronteira porosa para a imigração para a União Européia.

Contrabandistas monitoram a guarda costeira da Grécia e da Turquia e, disseram advogados de imigração e imigrantes, cobram US$ 870 por um lugar em um bote inflável no qual os imigrantes remam a curta, mas traiçoeira distância rumo à União Européia.

Em destinos mais conhecidos para imigrantes que tentam penetrar as fronteiras da União Européia - Lampedusa, na altura da Itália, e as Ilhas Canárias - os refugiados tentam desembarcar após viajarem centenas de quilômetros em embarcações frágeis. Aqui, o perigo e destino ficam comprimidos em cerca de 1,5 quilômetro de mar. Seria um trecho possível de ser cruzado a nado se não fosse por um estreito perigoso.

O total de pessoas que chegam a esta cadeia de ilhas mais que dobrou em 2007, causando problemas para as ilhas. Até o final de novembro, 10.961 imigrantes desembarcaram em Samos, Lesbos e Chios, ilhas no norte do Mar Egeu, em comparação aos 4.024 em todo o ano de 2006, disse Vassilios Gatsas, o chefe de polícia das três ilhas. Por sua vez, a chegada de clandestinos a Lampedusa e às Ilhas Canárias diminuiu.

Com a geografia colocando a Grécia na defensiva contra este afluxo, ela tem reagido. Para muitos que chegam aqui, a porta é batida com força.

Eles são presos e colocados na detenção por três meses. A maioria é ordenada a deixar o país em 30 dias. Muitos dos que conseguem escapar das autoridades e tentam ser levados mais adentro na Europa são pegos e enviados de volta à Grécia.

"A Grécia não está pronta para aceitar um número tão grande de imigrantes", disse Gatsas.

"De país exportador de imigrantes, nós nos tornamos importadores em um período muito curto", ele disse, se referindo ao êxodo pós-1945 de gregos para a Austrália, Canadá, Estados Unidos e outros destinos.

Os gregos comuns, com uma história de dificuldades e emigração, ainda se mostram em geral simpáticos em relação aos imigrantes. Mas o Ministério do Interior precisa lidar com problemas políticos e de policiamento, assim como o aumento das críticas internacionais.

Em abril, a Grécia perdeu um caso impetrado pela Comissão Européia no Tribunal de Justiça Europeu, que criticava a Grécia por não fornecer acesso adequado aos pedidos de asilo. Segundo as regras da União Européia, o primeiro país ao qual um imigrante chega deve lidar com os pedidos de asilo. Outros países argumentam que o fracasso da Grécia em tratar adequadamente da questão apenas transfere o problema para eles.

Gatsas disse que entre os imigrantes que seguiram para suas ilhas no ano passado, 24 morreram na travessia. Seus corpos foram levados para as praias de Samos ou pegos em redes de pesca, ele disse.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados contou 100 mortos ou desaparecidos na região de Samos, Lesbos e Chios no ano passado.

Um homem na faixa dos 50 anos que pediu asilo, que disse que conseguiu fazer a travessia até Samos "no tempo recorde de 40 minutos" no verão e que falou sob a condição de anonimato para proteger sua família no Irã, contou que seguiu o conselho de seu contrabandista turco e picou seu bote inflável assim que desembarcou. "Se a polícia pegar você e não ver o bote, ela diz 'Venha comigo'", ele disse, diminuindo as chances de uma rápida deportação.

A onda de imigrantes sem documentos em 2007 tem imposto um enorme fardo a esta ilha de 35 mil habitantes, mais conhecida como resort turístico e local de nascimento do antigo matemático Pitágoras.

Em 1º de dezembro, Samos abriu um centro de detenção de US$ 3,6 milhões. Ele substituiu uma antiga fábrica de tabaco dilapidada que Giorgos Tsarbopoulos, diretor para Atenas da agência de refugiados da ONU, disse que abrigava os imigrantes em condições que "ofendiam a dignidade humana".

Gatsas disse que as três ilhas, com uma força policial de 500 homens, receberá mais 300 neste ano. "Até agora, nós tentávamos lidar com o problema com o pessoal que tínhamos", ele disse.

Apesar de a Grécia estar investindo em segurança, apenas um advogado está disponível para ajudar os refugiados aqui com assistência legal e pedidos de asilo. Tal advogado, Dimitrios Vouros, disse no final do ano passado que apenas sete dos 4.469 imigrantes que passaram pelo centro de detenção pediram asilo. Este foi o mesmo número de pedidos de 2006, quando o número de recém-chegados foi um terço do atual.

Mesmo com a disponibilidade de folhetos da ONU explicando os procedimentos de asilo em muitas línguas, disse Vouros, alguns imigrantes acreditam que têm melhor chance se aguardarem para dar entrada no pedido em Atenas. Ireni Tremouli, a assistente social do centro de detenção, disse que muitos não entendem a gravidade de sua situação, se concentrando apenas em sua soltura.

Outros imigrantes aparentemente sentem que serão ouvidos com maior simpatia se conseguirem sair da Grécia para outro país europeu para fazer o pedido de asilo. Autoridades da ilha disseram que se sentem sobrecarregadas e sem apoio suficiente de seus vizinhos na proteção da fronteira leste da Europa.

Gatsas, o chefe de polícia, Stellos Partsafas, o chefe da guarda costeira, e Emmanuel Karlas, o prefeito de Samos e sua principal autoridade política, criticaram a Turquia por não deter o fluxo de pessoas e a União Européia por sua falta de ajuda. "A Turquia não controla sua fronteira", disse Karlas. "A União Européia deve falar com os turcos para que controlem o fluxo de imigrantes."

Apesar do ônus, muitos moradores das ilhas demonstram boa vontade para com aqueles que chegam às suas praias.

"De certa forma é a história de Samos", disse Vouros. "Durante a Segunda Guerra Mundial, por três ou quatro anos sob a ocupação do exército alemão, centenas, se não milhares, de gregos tomavam pequenas embarcações toda noite e partiam para a Turquia, assim como essas pessoas, e da Turquia elas seguiam para o Egito. Essas pessoas são como nós. Nossos avós viveram a mesma história." George El Khouri Andolfato

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