Estudo revela que medicamentos não ajudam a coibir a agressão

Benedict Carey

Os medicamentos mais usados para conter os surtos agressivos de pessoas com deficiência intelectual não são mais eficazes do que pílulas inativas para a maioria dos pacientes. E podem ser até menos eficazes, informam pesquisadores.

O resultado, que será publicado na sexta-feira, contesta fortemente a prática médica padrão em clínicas de saúde mental e sanatórios nos Estados Unidos e ao redor do mundo.

Nos últimos anos, muitos médicos começaram a usar as chamadas drogas antipsicóticas, desenvolvidas para o tratamento da esquizofrenia, como tranqüilizantes para todas as finalidades, visando acalmar um comportamento ameaçador, seja em crianças com problemas de déficit de atenção, estudantes universitários com depressão, pessoas mais velhas com mal de Alzheimer e pessoas com deficiência intelectual.

O novo estudo acompanhou 86 adultos com QI baixo em sanatórios comunitários na Inglaterra, País de Gales e Austrália ao longo de mais de um mês de tratamento. Ele apontou uma redução de 79% no comportamento agressivo entre as pessoas que tomaram placebo, em comparação com 65% ou menos entre aqueles que tomaram as drogas antipsicóticas.

Os pesquisadores se concentraram em duas drogas, o Risperdal da Janssen, e um medicamento genérico mais velho, o Haldol, mas disseram que os resultados quase certamente se aplicam a todos os medicamentos semelhantes. Tais medicamentos são responsáveis por vendas anuais de mais de US$ 10 bilhões e a pesquisa sugere que pelo menos metade de todas as prescrições são para usos não aprovados pela bula -freqüentemente para o tratamento de agressividade ou irritação.

Os autores disseram que os resultados provavelmente intensificarão os pedidos para uma análise governamental dos padrões britânicos de tratamento desses pacientes, e talvez levar a um estudo mais cuidadoso do tratamento para comportamento agressivo em pacientes com uma grande variedade de diagnósticos.

Outros especialistas disseram que os resultados quase certamente também vão inflamar o debate em torno do aumento do uso de drogas antipsicóticas. Defensores dos pacientes e alguns psiquiatras dizem que os medicamentos estão sendo usados em excesso.

Estudos anteriores sobre o efeito dos medicamentos em surtos agressivos apresentaram resultados confusos, com alguns mostrando pouco benefício e outros uma forte influência calmante. Mas as drogas apresentam efeitos colaterais sérios, como rápido ganho de peso e tremores, e os médicos possuem poucas evidências rigorosas para orientar a prática.

"Este é um resultado muito significativo por parte de psiquiatras bastante proeminentes", um que contesta diretamente o status quo, disse Johnny L. Matson, professor de psicologia da Universidade Estadual da Louisiana, em Baton Rouge, co-autor de um editorial que acompanha o estudo na revista "Lancet".

Apesar de não se saber quanto o estudo alterará os hábitos de prescrição, "a mensagem aos médicos deveria ser: pense duas vezes antes de prescrever, comece com doses mais baixas e monitore cuidadosamente os efeitos colaterais", prosseguiu Matson, acrescentando: "Ou simplesmente não prescreva. Nós sabemos que tratamentos comportamentais podem funcionar muito bem com muitos pacientes".

Outros especialistas discordam, dizendo que o novo estudo não condiz com a pesquisa anterior ou com sua própria experiência. A Janssen, uma subsidiária da Johnson & Johnson, disse que o Risperdal apenas promove usos aprovados, que neste país incluem o tratamento da irritabilidade associada ao autismo em crianças.

No estudo, Peter J. Tyrer, professor de psiquiatria do Imperial College London, liderou uma equipe de pesquisa que dividiu 86 pessoas com idades entre 18 e 65 anos em três grupos: um que recebeu o Risperdal; um que recebeu outro antipsicótico, o genérico Haldol; e outro que recebeu uma pílula de placebo. Os profissionais de saúde monitoraram o comportamento dos participantes. Muitas pessoas com QI muito baixo se enfurecem rapidamente e atacam outros, batem suas cabeças ou punhos contra a parede em frustração ou enchem o ar de palavrões quando incomodados.

Após um mês, pessoas em todos os três grupos tinham se acalmado, perdendo a calma com menos freqüência e causando menos danos quando perdiam. Mas inesperadamente, aquelas no grupo do placebo foram as que mais melhoraram, mais significativamente do que aquelas que receberam a medicação.

Em uma entrevista, Tyrer disse que não há motivo para acreditar que qualquer outra droga antipsicótica usada para agressividade, como o Zyprexa, da Eli Lilly, ou o Seroquel, da AstraZeneca, seria mais eficaz. Participar do estudo, com toda a atenção adicional que acarretou, foi o que aparentemente fez a diferença, ele disse.

"Estas pessoas costumam contar com pouca companhia", disse Tyrer. "Elas são negligenciadas, tendem a ser deixadas de lado, e esta atenção adicional teve um efeito muito maior sobre elas do que teria sobre uma pessoa de nível mais normal de inteligência."

Os autores do estudo, entre eles pesquisadores da Universidade de Gales, da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, e da Universidade de Queensland, em Brisbane, Austrália, escreveram que seus resultados "não devem ser interpretados como uma indicação de que drogas antipsicóticas não têm lugar no tratamento de alguns aspectos de perturbações de comportamento".

Mas a prescrição rotineira de medicamentos para agressividade, eles concluíram, "não deve mais ser considerada como uma forma satisfatória de tratamento". George El Khouri Andolfato

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