Amazônia e seus rios de onde jorram esperança... e tucunarés

De James Prosek
Em Manaus

Por muitos quilômetros saindo de Manaus, onde os rios Negro e Solimões se encontram para formar o Amazonas, e voando noroeste num pequeno avião, ainda se podia ver os vestígios da presença humana: o desmatamento da floresta, clareiras com plantações, prédios e estradas. Mas repentinamente, como se estivéssemos deixando uma cidade litorânea e voando em direção ao oceano, o desenvolvimento acabava.

O mar diante de nós não era azul, mas verde: o maior ecossistema de floresta tropical do mundo, a bacia amazônica.

Observando com atenção, podia-se ver do alto, aqui e acolá, uma pequena clareira e um prédio redondo. A moradia de algum povo indígena? Estávamos indo para um lugar a cerca de duas horas e meia floresta adentro, para um afluente do Amazonas, o Água Boa. Há algumas décadas, um médico de Manaus havia conseguido a concessão sobre os 250 quilômetros do rio, desde sua nascente até onde ele deságua, no Rio Branco. O rio foi patrulhado para impedir a pesca comercial, e a natureza pristina do lugar foi preservada. A única indicação de que o acampamento existia era a faixa bege da pista de aterrisagem, como um band-aid grudado na floresta, perpendicularmente ao rio.

O Água Boa fica no Brasil, próximo à fronteira com a Venezuela. Fica perto também de uma reserva demarcada pelos dois países para a maior nação indígena existente entre os povos da Amazônia, os Yanomami.

A razão da viagem era a pesca do tucunaré. O peixe tem uma coloração verde-dourada com várias marcas, dependendo da espécie. Há o tucunaré-pintado, o tucunaré-açu (o maior de todos, que tem listras verticais parecidas com as de uma perca), e o tucunaré-borboleta, que tem de três a quatro marcas do lado do corpo que se parecem com ideogramas chineses.

O tucunaré é notório por pegar moscas e iscas com o foco de um predador brutal, e uma vez fisgado, briga incansavelmente. Eu logo percebi que eles não eram como as garoupas (eles não tem nenhum parentesco próximo) quando tentei pegar um de seis quilos na mão. Os dentes de lixa e as mandíbulas fortes estraçalharam meu polegar. Enquanto eu via o sangue correr pela minha mão e punho, instantaneamente acordei do meu "jet lag" e percebi que estava na Amazônia. Ouvir os gritos estridentes de araras azuis-e-amarelas acima da minha cabeça só deixaram essa percepção mais vívida.

Vim parar aqui no final de novembro, a convite de Lance Ranger, um inglês que vivia na Suíça e que conheci em Newfoundland no último verão. Ranger, 47, comprou a propriedade na Amazônia no começo do ano. Ele se apaixonou pela beleza selvagem do lugar quando seu cunhado o levou para uma viagem de pescaria. Eu o encontrei no acampamento, ou melhor, o interceptei, uma vez que ele estava a caminho da Antártida para esquiar até o Pólo Sul com o objetivo de levantar dinheiro para seu projeto assistencial em prol das crianças deficientes em Maurício.

Uma noite eu perguntei a Ranger por que ele havia comprado o lugar. Ele riu e disse: "Eu bem que gostaria de descobrir a razão". Fez uma lista de uma série de problemas, incluindo a morte de seu pai e a separação de sua mulher, que o levaram à decisão, e então acrescentou: "Planejo passar o máximo de tempo que puder aqui. Esse lugar mexeu comigo. Quero cuidar bem desse rio, simplesmente mantê-lo do jeito que ele é."

O que mais o atraiu na Amazônia? "Está tudo aí", disse ele, e explicou que gostava da forma como nada ali escondia a sua verdadeira natureza. "Quase tudo aqui quer comer você."

Eu não precisei ser dono do lugar para gostar de lá, e também percebi que eu não era o único querendo pescar. Criaturas com presas afiadas estão em todo lugar, e se uma não está tentando comer a outra, é porque ela tem algum mecanismo venenoso, ou se mimetiza em uma criatura venenosa. Andar na floresta sem um guia, ou entrar no rio sem cuidado, não é uma boa idéia. Além de diversos insetos que picam, há bonitas arraias de água doce sobre as quais ninguém quer pisar acidentalmente.

Ainda há a possibilidade de que os jacarés sempre presentes venham atrás de um peixe na sua linha, como aconteceu comigo. O jacaré olhou para o peixe e num segundo esmagou sua cabeça. Foi o único peixe morto na viagem. Várias vezes os tucunarés pularam no barco, encurralados contra a margem e tentando escapar de nós enquanto passávamos por um pequeno canal para entrar em uma lagoa, fora do rio principal. Nas lagoas, o som rouco dos tucunarés guiando suas presas para a margem ecoava pela água. Nas margens, as aves esperavam os cardumes levados pelos tucunarés.

Ranger não é o primeiro a fugir para o rio depois de um período problemático. Há quase cem anos, Theodore Roosevelt foi para a Amazônia com seus vários problemas (ele havia perdido as eleições de 1912, entre outras coisas) apenas para encontrar mais desastres numa expedição martirizante e quase fatal pelo inexplorado Rio da Dúvida.

De qualquer forma, Ranger encontrou um segundo lar aqui, um lar que, se tudo correr bem para ele e para a vida selvagem, será um rio de esperança... Eloise De Vylder

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