O homem entre a guerra e a paz

Thomas P.M. Barnett*
da Esquire Magazine

(Naquela que se tornou uma das histórias mais comentadas da semana passada, o alto comandante americano para as guerras no Iraque e no Afeganistão renunciou em 11 de março, em resposta a este perfil publicado na revista "Esquire". Como chefe do Comando Central americano, o almirante William "Fox" Fallon estava encarregado da estratégia militar americana para as partes mais problemáticas do mundo, incluindo todo o Oriente Médio. Enquanto cresce a escalada da guerra de palavras entre a Casa Branca e o Irã, e a primeira parece cada vez mais determinada a atacar militarmente antes do final desta presidência, ele pedia por moderação e diplomacia.)

1.
Se, ao apagar das luzes do governo Bush, entrarmos em guerra com o Irã, tudo dependerá de um homem. Se não entrarmos em guerra com o Irã, tudo dependerá do mesmo homem. Ele é uma das criaturas mais raras no universo Bush: o policial bom para o Irã, o homem de brilhantismo estratégico. Seu nome é William Fallon, apesar de todos os seus amigos o chamarem de "Fox", que era seu apelido como piloto de caça décadas atrás.

Quarenta anos de uma carreira militar que viram este almirante comandar os dois postos de combate mais importantes dos Estados Unidos, o Comando do Pacífico e atualmente o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom), é impossível deixar este sujeito -como ele gosta de dizer- "nervoso no serviço".

Assim, apesar do chefe do almirante Fallon, o presidente George W. Bush, regularmente ameaçar o início da Terceira Guerra Mundial e seu governo freqüentemente retratar o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, como o Hitler deste século, cabe a Fallon -e aparentemente apenas a Fallon- argumentar que, como ele disse à "Al Jazeera" no ano passado: "Este constante rufar de tambores para um conflito não é de ajuda e não é útil. Eu espero que não haja guerra e é para isto que devemos trabalhar. Nós temos que nos esforçar ao máximo para criar condições diferentes".

O que os Estados Unidos precisam, disse Fallon, é uma "combinação de força e disposição de engajar".

Estas são palavras de combate para o neoconservador médio -sem contar o simpatizante médio de Israel, muitos dos quais atualmente em Washington e que aparentemente nunca serviram um minuto em uniforme. Mas se essas palavras aparecerem impressas, a impressão seria facilmente de indiferença ao "holocausto nuclear".

Como Fallon consegue escapar impune ao contestar tão ousadamente seu comandante-em-chefe?

A resposta pode ser a de que não conseguirá por muito tempo. Quando Fallon assumiu o Centcom na primeira metade do ano passado, a Casa Branca se preparava para ir à guerra com o Irã. Quase que instantaneamente, Fallon começou a pressionar calmamente contra o que considerava uma ação irrefletida. Ao longo de 2007, as declarações de Fallon à imprensa se tornaram cada vez mais desdenhosas da possibilidade de guerra, criando um sério atrito com a Casa Branca.

Em dezembro passado, quando a Avaliação Nacional de Inteligência reduziu a ameaça nuclear imediata do Irã, parecia que a cautela de Fallon era justificada. Mas ainda assim, observadores bem posicionados agora dizem que não será surpresa se Fallon for removido de seu comando antes da conclusão de seu mandato no segundo trimestre de 2009, talvez já em meados de 2008, para dar lugar a um comandante que a Casa Branca considere mais domável. Se isto vier a acontecer, poderia significar que o presidente e o vice-presidente pretendem agir militarmente contra o Irã antes do final do ano e não querem que um comandante fique em seu caminho.

E então Fallon, o policial bom, poderá em breve ficar desempregado por estar fazendo o que uma geração de jovens oficiais nas forças armadas americanas agora se queixam abertamente, de que seus líderes não fizeram nada em prol deles nos preparativos para a guerra no Iraque: ele está resistindo ao comandante-em-chefe, que ele considera estar contemplando uma guerra estrategicamente infundada.

E Fallon não tem pressa em igualar a aposta do Irã na questão nuclear. Em uma parte do mundo com "cinco ou seis pontos fervendo, nosso país não pode se dar ao luxo de ficar hipnotizado por um problema".

E se a situação levar à guerra?

"Vamos falar sério", disse o almirante. "Aquelas pessoas são como formigas. Quando chegar a hora, você as esmaga."

2.
Foi a queda de Rumsfeld que levou Fallon a assumir sua maior e, inevitavelmente, última missão. Por ser um sujeito inteligente, Robert Gates, o secretário da Defesa que estava assumindo o cargo, conseguiu convencer Fallon a deixar o Comando do Pacífico, onde estava radicalmente fazendo as pazes com os chineses, para que pudesse, entre outras coisas, ficar de olho no general David Petraeus no Iraque, que é ávido em agradar. Como chefe do Comando Central americano, seu território seria o deserto que se estende do Leste da África até a fronteira chinesa.

Onde há paz na região, como fazer para mantê-la? Onde há guerra, como fazer para contê-la ou encerrá-la? Onde há ameaças, como fazer para detê-las? Para começar, é possível que se queira fazer algumas amizades. Era o que Fallon vinha fazendo recentemente em uma excursão por sua área de responsabilidade.

No final de novembro em um Cairo cheio de fumaça e neblina, infestado de carros, eu estava parado diante do lobby frontal do ornamentado "clube dos oficiais de infantaria", nos arredores do centro da velha cidade. O Comando Central tinha acabado de concluir seu grande exercício regional bienal, chamado "Estrela Brilhante", e naquele dia o exército egípcio estava promovendo um "seminário de alta liderança" para todos os generais presentes. Era a cena do bar de "Guerra nas Estrelas", com mais uniformes nacionais do que podia contar.

A julgar pelo sorriso de Fallon após a passagem de um de seus oficiais, eu pude dizer que a história de primeira página no "Egyptian Gazette" desta manhã caiu com peso na mesa de alguém na Casa Branca. "EUA descartam Ataque Contra o Irã", dizia a manchete, acompanhada de uma foto de Fallon em consultas com o presidente egípcio Hosni Mubarak.

Fallon conversou comigo durante uma pausa matinal para um café. "Eu estou em águas turbulentas de novo", ele disse.

"A Casa Branca?"

O almirante concordou com a cabeça.

"Eles dizem: 'Por que você está se encontrando com Mubarak?'" Isto pareceu confundir Fallon.

"Por quê?", ele disse, encolhendo os ombros e estendendo a palma das mãos para fora. "Porque é meu trabalho lidar com esta região e é o único assunto que todos desejam conversar no momento. As pessoas aqui escutam o que estou dizendo e entendem. Eu não quero que fiquem muito agitadas. Washington interpreta isto como algo voltado contra ela. Em vez disso, é voltado para os governos e mídia nesta região. Eu não estou falando sobre a Casa Branca." Ele apontou para o chão. "Este é o meu centro de gravidade. Este é o meu trabalho."

Fallon foi discretamente contrário a um aumento a longo prazo no número de soldados no Iraque, porque mais ativos militares comprometidos no Iraque dificultam o desenvolvimento de uma estratégia abrangente para o Oriente Médio, e ele sabia como isto pareceria aos superiores. Ele também sabia que às vezes suas declarações sobre o Irã pareciam às mesmas pessoas como "contrariando a política declarada".

O almirante explicou sua abordagem em relação ao Irã da mesma forma que explicou o motivo de não tornar a Al Qaeda o foco de sua estratégia regional como comandante do Centcom: "Qual é a melhor forma e a mais eficaz de combater a Al Qaeda? Nós tendemos a fazer muito disto ou muito pouco disto. Eu quero algo mais equilibrado. Eu venho da escola do 'caminhe suavemente e carregue um grande porrete'".

Fallon é o americano no centro de todo círculo nesta parte do mundo. E é um testemunho de sua habilidade e do fracasso da diplomacia americana o fato de tanta coisa ficar a cargo deste militar para que faça por conta própria. Ele passa muito pouco tempo na sede do Centcom em Tampa, se movimentando constantemente entre o Iraque, Afeganistão, Paquistão e todos os "istãos" da Ásia Central.

"Eu não sou o chefe da diplomacia deste país e certamente não sou o secretário de Estado", disse Fallon em outro encontro na Zona Verde de Cabul, no ano passado. "Mas estou próximo dos problemas."

Fallon mantém sua pólvora seca quando lida com o Irã. Ele não reage como um cão de Pavlov à retórica inflamada de homenzinhos exaltados. Ele entende a regra básica da diplomacia internacional: todo mundo tem sua vez.

"Teerã está todo convencido no momento por ter conseguido nos causar dor no Iraque e no Afeganistão." Então o truque, no entender de Fallon, é "tentar imaginar o que realmente querem e então, talvez -não que iremos brincar de Papai Noel aqui ou de Comediante- mas o fato é que todos precisam de algo neste mundo, e a maioria dos países que são funcionais e contribuem para o mundo encontrou uma forma de negociar seus pontos fortes pelos pontos fortes de outros para ajudá-los. Estas pessoas estão tentando se virar sozinhas neste sentido, e é uma base genética ruim no momento. Não é uma com grande longevidade. E eles empregam a mesma carta regularmente, e a certa altura você fica sem jogo, ao que me parece. É preciso jogar algo real".

E quando as cartas de verdade forem usadas, é quando Fallon dobrará sua aposta.

3.
Quando o almirante assumiu o Comando do Pacífico em 2005, ele imediatamente estabeleceu um contato entre militares americanos e chineses, algo que fez muita gente se irritar no Pentágono e no Capitólio. Os chineses, afinal, deveriam ser nossa próxima guerra. O que Fallon estava fazendo?

Diferente de alguns relatos, Fallon disse que inicialmente não teve problemas com o então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, sobre o assunto. "Desde o início, eu conversei com ele. Eu disse, isto é o que eu penso. E também falei com o presidente."

Foi apenas depois que o Pentágono e o Congresso começaram a perceber que seus programas favoritos (sistemas de armas e grandes veículos plataforma) estavam ameaçados por essas conversas é que as coisas realmente complicaram.

Mas Fallon enfrentou os falcões em relação à China, porque por mais que os líderes militares tenham que planejar para guerra, Fallon parece entender melhor do que a maioria que também precisa lidar com tudo mais além da guerra. E como um policial bom, Fallon não deseja disparar sua arma a menos que seja absolutamente necessário. "Eu não teria feito o que fiz se não considerasse a coisa certa a ser feita, o que ainda acho. A China é nosso relacionamento mais importante para o futuro, dadas as realidades da população, economia e localização. Nós temos que nos esforçar e assegurar que faremos nosso melhor para acertar."

Para o almirante, isto significa uma ênfase na abertura de novas linhas de comunicação e a redução da capacidade de mal-entendidos durante momentos de crise. Mas além disso, isto significava dizer aos chineses: "Se vocês quiserem ser tratados como gente grande e um jogador de peso, é preciso agir à altura".

Se alguém deseja o reconhecimento de seu poder, então é preciso aceitar a responsabilidade que vem com esse poder. Esta é a mensagem essencial que Fallon transmitiu aos chineses e se isto significasse que ele estava em desacordo com a posição do Pentágono em relação à ascensão da China, tudo bem. Se parecia que Fallon estava minimizando a ameaça dos mísseis da Coréia do Norte, era porque preferia promover uma resposta regional que sinalizasse uma frente unida, mas mantendo uma porta aberta para a Coréia do Norte sair do frio.

Fallon agora emprega a mesma abordagem em relação ao Irã no Comando Central: "Eu quero lidar com algo positivo em vez de negativo em relação ao Irã, que é um problema real". Para isso, e logo após os encontros do secretário de Defesa, Robert Gates, com os ministros de defesa do Oriente Médio, Fallon realizou um encontro semelhante de chefes de defesa do Golfo Pérsico em Tampa, no início deste ano, algo que o Centcom nunca tentou antes.

E o Irã poderia participar de algo semelhante mais à frente?

"Absolutamente, eventualmente. É como os chineses", ele disse. "Seria ótimo se o Irã se transformasse em uma equipe decidida a bater uma bola no final."

E como algo assim aconteceria?

Como transformar o Irã em um jogador regional responsável? Como os Estados Unidos poderiam abordar o Irã quando o regime parece tomado apenas por linhas-duras e ultraconservadores?

Você começa por baixo, disse um dos altos oficiais de inteligência de Fallon. Por exemplo, há o interesse compartilhado em conter o fluxo de narcóticos do Afeganistão para o Irã. "O Irã enfrenta um enorme problema com drogas", então esta é uma "área de cooperação potencial". Mais recentemente, os iranianos prometeram conter o fluxo de munição para o Iraque, o que poderia contribuir para uma grande redução no número de baixas americanas com bombas de estrada. Após três reuniões com os iranianos no ano passado que não deram em nada, outra rodada está sendo preparada. Para Fallon, este tipo de engajamento é crucial, dada a falta de experiência geral dos Estados Unidos em lidar com o Irã.

"Eu não sei tanto quanto gostaria sobre o Irã", ele disse. "É preciso procurar em outros lugares, pessoas em outros países. Não há muitos americanos com grande experiência em relação a estas pessoas. Então isto nos coloca em desvantagem. Além de serem sigilosos -intencionalmente- em relação a nós. Isto torna o desafio ainda maior."

4.
Enquanto Condoleezza Rice e o Departamento de Estado administram uma vaga fase final na solução de dois Estados na Palestina, Gates e Fallon iniciaram um diálogo de segurança regional que é realmente regional em sua dimensão.

O recuo da Al Qaeda parece ser tanto real como contínuo, exceto na região de fronteira do Paquistão. E para conquistar maior flexibilidade para planejar para a região, Fallon disse que está determinado a esgotar o Iraque. Um dos motivos para ele ter banido o termo "longa guerra" do vocabulário do Centcom é por acreditar que a vitória real nesta luta será definida primeiro por termos econômicos, de forma que a ênfase na guerra lhe parece "estreita demais". Mas o termo também sinaliza um longo prazo que Fallon simplesmente considera inaceitável.

Ele deseja uma redução das tropas no Iraque agora, e quer que o Exército Nacional Afegão comece a comandar o show em grande parte do Afeganistão até o final deste ano. Fallon disse que deseja mudar as coisas drasticamente no tempo que ainda lhe resta, independente de quanto tempo seja.

Libertar os Estados Unidos das amarras no Iraque significa um esforço mais forte no Afeganistão, mais foco no Paquistão, e mais tempo gasto criando redes de relacionamento na Ásia Central. Com a Síria e o Líbano acrescentados recentemente à área de responsabilidade do Centcom, espere ver Fallon aparecendo em Beirute e Damasco regularmente. E ele disse estar mais do que disposto a tratar de Israel e da Palestina, o que por ora permanece um enteado bastardo do Comando Europeu.

O Golfo Pérsico passa no momento por um boom econômico, e Fallon deseja explorar esse poder para conectar os Estados fracassados que pontilham a região com o mundo exterior.

"Eu gostaria de continuar fazendo coisas que sejam úteis para o mundo e seus habitantes", ele disse.

O tempo dirá se isto custará ao almirante William Fallon o seu comando.

*Thomas P.M. Barnett, um editor colaborador da "Esquire", é um escritor e consultor especializado em assuntos de segurança nacional americana. Ele é autor dos livros "The Pentagon's New Map: War and Peace in the 21st Century" e "Blueprint for Action: A Future Worth Creating", ambos publicados pela Putnam. A versão completa deste artigo está disponível na edição de abril da "Esquire" ou online em www.esquire.com/fox-fallon George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos