Voluntários prontos para enfrentar os mosquitos em pesquisa de malária

Tom Paulson, do Seattle Post-Intelligencer

Em pouco mais de cinco anos, Seattle se tornou um centro internacional para pesquisa da vacina contra malária e, aparentemente, não terá problemas para encontrar voluntários dispostos a serem picados por mosquitos infectados com a doença, criados em um laboratório na Avenida Westlake.

"Eu tive que parar de atender meu telefone", disse o dr. Patrick Duffy, chefe do programa de malária do Instituto de Pesquisa Biomédica de Seattle. "Este é um ótimo lugar para se fazer pesquisa."

Duffy e seus colegas, que trabalham com apoio financeiro da Fundação Bill & Melinda Gates e em colaboração com Iniciativa para Vacina contra Malária do PATH (Programa para Tecnologia Apropriada na Saúde), estão criando um dos poucos laboratórios no mundo para condução de testes experimentais em seres humanos de vacinas contra malária.

Atualmente existem apenas três laboratórios como esse, no Instituto Walter Reed do Exército, em Maryland; na Universidade de Oxford, na Inglaterra; e na Universidade de Nijmegen, na Holanda.

Quando foram anunciados recentemente os planos para início dos testes em seres humanos da vacina contra malária, aqui na metade do ano, o Instituto de Pesquisa Biomédica de Seattle recebeu milhares de e-mails e inúmeros telefonemas de pessoas se oferecendo como voluntárias para serem picadas pelo mosquito infectado, em prol da ciência.

"Foi uma resposta impressionante", disse o dr. Christian Loucq, diretor da Iniciativa para Vacina contra Malária. "Nós temos oito vacinas candidatas no momento e uma longa lista de novas que surgirão."

A iniciativa, com sede em Bethesda, Maryland, mas conduzida pelo PATH, com sede em Seattle, ajuda a coordenar muitos testes de vacinas experimentais contra malária em todo mundo. Ela foi lançada em 1999, com uma verba de US$ 50 milhões da Fundação Gates e até o momento administrou quase US$ 300 milhões em subsídios da Gates para auxiliar na busca por uma vacina contra malária.

Os voluntários para os testes clínicos da vacina em Seattle receberão vários milhares de dólares. Há uma boa chance de alguns deles adoecerem com malária (nestes casos, eles serão tratados com medicamentos para cura) e talvez ajudem os cientistas a identificarem uma vacina eficaz para combater um dos males que mais matam no planeta.

"Todas as vacinas testadas até o momento fracassaram em proteger plenamente contra a doença", disse o dr. Stefan Kappe, um cientista do Instituto de Pesquisa Biomédica de Seattle que espera testar sua própria vacina experimental em voluntários, assim que o "Human Challenge Center" do instituto estiver funcionando em 2009.

Kappe adotou uma abordagem inovadora para criar uma vacina. Ele e sua equipe estão manipulando os genes do parasita e criando parasitas alterados em mosquitos de laboratório, para ver se conseguem criar um parasita fraco demais para causar a doença, mas suficiente como o parasita normal, silvestre, para estimular uma resposta imunológica eficaz.

"Nós descobrimos os genes responsáveis pelo estágio de infecção do sangue e os removemos", disse Kappe. O estágio sangüíneo da infecção da malária, ele notou, é o que causa a doença mais severa. Em camundongos, Kappe e sua equipe mostraram que quando estes genes são removidos do parasita, ele não consegue passar do fígado para o sangue para completar seu ciclo de vida.

"Nós acreditamos que é uma abordagem bastante promissora", ele disse. Kappe disse que outra organização, a Sanaria, de Bethesda, Maryland, está trabalhando em uma abordagem semelhante usando todo o parasita, mas enfraquecendo sua infectividade ao irradiar os parasitas dentro dos mosquitos.

Ninguém ainda conseguiu produzir uma "vacina" que seja basicamente fabricada dentro dos mosquitos, mas a Sanaria também está tentando converter esta metodologia de laboratório, dependente do parasita, em algo mais cômodo para os métodos típicos de produção farmacêutica e distribuição.

Apesar da irradiação dos micróbios para criação de versões enfraquecidas, ou "atenuadas" do parasita ser uma abordagem bem estabelecida para produção de uma vacina, Kappe disse não estar certo de que a abordagem da Sanaria funcionará tão bem para a malária.

"Este é um organismo muito complexo", ele disse. Diferente de um vírus típico ou bactéria com talvez uma dúzia ou até mesmo centenas de genes, a malária conta com cerca de 5 mil genes.

"Nós sabemos que as pessoas podem se tornar imunes", disse Duffy, que antes de vir para lançar o programa de pesquisa da malária do instituto trabalhou em Walter Reed, em gravidez e malária. Mas os cientistas ainda não sabem exatamente como o corpo aprende a rechaçar o parasita, ele disse, e quase certamente levará muitos anos para identificar, testar e comprovar uma vacina.

A dra. Regina Rabinovitch, chefe do programa de desenvolvimento para doenças infecciosas da Fundação Gates, disse que a filantropia está comprometida em erradicar a malária assim como foi feito com a varíola.

Mas para o futuro próximo, disse Rabinovitch, isto exigirá uma combinação de abordagens, incluindo mais esforços agressivos de prevenção, usando ferramentas atuais como mosquiteiros ou medicamentos antimalária, tratamentos com drogas melhoradas e uma busca científica sustentada pela vacina.

Ao ser perguntada sobre as recentes críticas de outros especialistas internacionais em saúde de que a filantropia de Seattle exerce influência demais sobre a direção dos esforços mundiais de combate à malária, Rabinovitch disse que as pessoas estão interpretando mal o entusiasmo da Fundação Gates por certos projetos - como a pesquisa de vacinas - como um desinteresse implícito ou oposição a outras idéias.

"Estes esforços exigem colaboração, já que não podemos financiar tudo", ela disse. Segundo ela, a Fundação Gates empregou muito de sua credibilidade, e dinheiro, para promoção de um maior interesse e investimento no combate à malária.

"Isto não significa que estamos tentando estabelecer prioridades para os outros", disse Rabinovitch.

Seattle se tornou um centro para pesquisa de vacina contra malária e para muitos outros empreendimentos globais de saúde, em grande parte devido à Fundação Gates, ela reconheceu. A fundação já doou mais de US$ 1,5 bilhão para os esforços de combate à malária.

Mas isto também se deve em grande parte ao talento biomédico já se encontrar aqui, ela disse, apesar de enfrentando dificuldades para conseguir financiamento e apoio para trabalhar nestas doenças de países pobres. George El Khouri Andolfato

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