Nas selvas de Madagascar, uma alternativa para salvar a biodiversidade

David Perlman, do San Francisco Chronicle

Uma equipe de biólogos acaba de concluir um levantamento da vida em uma das maiores ilhas da Terra. O trabalho poderá servir como modelo para a proteção de todos os "hot spots" de biodiversidade do mundo.

O levantamento em Madagascar ocorre após mais de uma década de árdua pesquisa de campo e inovação em informática, resultando na criação de uma espécie de mapa das plantas e animais da ilha, que o governo local agora usará nos esforços para expandir sua pequena rede de reservas naturais.

Com líderes da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e da Academia de Ciências da Califórnia, em San Francisco, a equipe examinou e contou mais de 2.300 espécies vivas de plantas e animais encontradas apenas em Madagascar. Elas incluem formigas, borboletas, sapos, lagartixas e, é claro, os famosos lêmures de Madagascar, os primatas primitivos conhecidos como prossímios, que estão distantemente relacionados aos seres humanos na árvore genealógica da evolução.

Mais de 100 cientistas trabalharam no levantamento, e a República Democrática de Madagascar prometeu há cinco anos criar 6 milhões de hectares de reservas naturais -três vezes mais do que agora e 10% de seu território- para impedir que suas formas de vida mais vulneráveis desapareçam à medida que a população cresce e busca acesso a terra arável escassa.

O trabalho dos cientistas foi fornecer ao governo de Madagascar uma lista de prioridade de espécies exclusivas da ilha e seus territórios insubstituíveis que precisam mais urgentemente de proteção máxima.

O resultado do esforço deles está sendo publicado na revista "Science".

Localizada no Oceano Índico além da costa leste da África, a vida de Madagascar é altamente variada, e mais de 80% de tudo que vive lá não existe em nenhuma outra parte do mundo. Com mais de 587 mil quilômetros quadrados, a ilha é a quarta maior do planeta, com quase duas vezes o tamanho do Estado americano do Arizona.

Claire Kremen, uma bióloga de conservação de Berkeley, liderou o esforço para estabelecer prioridades para a criação das novas reservas na ilha, fornecendo detalhes sobre sua própria especialidade de pesquisa: as borboletas de Madagascar.

Por quase 10 anos, disse Kremen, ela caçou e capturou milhares de insetos. E das mais de 4.500 espécies de borboletas e mariposas por toda a ilha, ela e dois colegas -Alison Cameron, de Berkeley, e o biólogo britânico Davis Lees- descobriram pelo menos 100 espécies nunca antes identificadas.

Kremen encontrou muitas delas usando um estilingue para lançar armadilhas com frutas pobres como isca na copa das árvores, ligadas a metros de linha monofilamento de pesca para recuperação.

"Eu não sou muito hábil com um estilingue", disse Kremen, "e às vezes os lêmures tentavam pegar a fruta na armadilha e as borboletas escapavam, mas o sistema funcionou muito bem de modo geral".

"Madagascar ainda é uma fronteira geográfica para nosso conhecimento de biodiversidade", disse Less em um e-mail do Museu de História Natural de Londres.

E típico do trabalho de tantos outros especialistas no projeto, Brian Fisher, curador associado em entomologia da Academia de Ciências da Califórnia, apresentará um relatório na próxima edição da revista online "PLoS One" fornecendo detalhes sobre uma espécie de formiga recém-descoberta em Madagascar.

Ele as encontrou, segundo seu relato, após revirar cerca de 6 mil amostras de detritos de folhas, armar mais de 4 mil armadilhas para formigas e vasculhar a mata em 8 mil incursões para coletar espécimes manualmente.

"Nós somos a primeira geração a entender a morte iminente dos habitats", disse Fisher, "e somos a última geração que será capaz de fazer algo para impedir".

Os padrões de distribuição das plantas e animais mais críticos na ilha são extremamente complexos, de forma que as equipes de pesquisa tiveram que incluir informação sobre 50 anos de encolhimento dos habitats, mais 50 anos de registros sobre mudança climática e imagens por satélite dos melhores ambientes para cada espécie. Todos os detalhes então tiveram que ser incluídos em um imenso banco de dados informatizado desenvolvido por especialistas da Universidade de Helsinki, na Finlândia, e dos AT&T Labs, em Nova Jersey.

E as espécies de insetos que Fisher descobriu agora podem ser identificadas por seqüências de DNA únicas de seus genes, e registradas para sempre com um sistema de código de barras de alta tecnologia que pode ser usado para todo tipo de grupo de animais, grandes ou pequenos.

"Foi necessário um esforço imenso para reunir todos estes dados, e é impressionante que o governo de Madagascar realmente apóie a proteção de sua biodiversidade. Poderia muito bem se transformar em um modelo para a realização da mesma coisa em toda parte, incluindo os hot spots nos Estados Unidos", disse Kremen. George El Khouri Andolfato

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