Inocentado após passar 12 anos na prisão

George Hunter e Edward L. Cardenas, do Detroit News
em Mount Clemens, Michigan

Três dias atrás, Nathaniel Hatchett tinha medo de ter esperança.

Embora houvesse uma chance de ele ser inocentado após passar 12 anos na prisão por um estupro que não cometeu, ele disse, em uma sala de visita na penitenciária: "Estou tirando a esperança da minha cabeça".

Mas na segunda-feira (14), os promotores do condado de Macomb decidiram inesperadamente retirar as acusações contra Hatchett devido a provas baseadas em DNA que demonstram que não foi ele o estuprador - e Hatchett tornou-se um homem livre pela primeira vez desde que tinha 17 anos de idade.

Hatchett deixou a sala do tribunal às 12h37, com roupas normais e abraçado a familiares. Usando camisa e calça marrons, ele abraçou a mãe e a avó enquanto os mais de 20 parentes aplaudiam, saudavam-no e cantavam a música "Celebration" da banda Kool and the Gang.

"Estou feliz por estar livre", declarou Hatchett ao deixar o prédio do tribunal do condado de Macomb. Ele acrescentou que achava que a sua chance de ser solto era de "uma em um milhão".

Porém, para a família da vítima a decisão de retirar as acusações contra Hatchett reabriu velhas feridas - e também fez surgir a possibilidade de que o verdadeiro estuprador ainda esteja solto.

"Se Hatchett realmente é inocente, sinto muito por ele ter passado tanto tempo na prisão por algo que não fez", afirmou o irmão mais velho da vítima, Mark Matuszczyk. "Mas isso significa que a minha irmã terá que passar por toda essa história novamente. Ou este cara (Hatchett) cometeu o crime e conseguiu se safar, ou a pessoa que estuprou a minha irmã ainda está andando pelas ruas; isso se não estiver morto".

Hatchett, 29, foi condenado em 1996, por roubo de carro com uso de violência, e pelo seqüestro e o estupro de uma moça de 22 anos do condado de Macomb. Hatchett foi solto na segunda-feira depois que o promotor Robert Merrelli retirou todas as acusações contra ele.

O promotor que participou do caso original, Eric Kaiser, não mora mais no condado de Macomb. Na segunda-feira, Kaiser não foi localizado para comentar o fato, mas há duas semanas ele declarou ao "The Detroit News" que acha que lidou com o caso da maneira apropriada.

Os advogados do Projeto Inocência da Faculdade de Direito Cooley, em Lansing, buscavam um novo julgamento para Hatchett, que cumpria uma pena de 25 a 40 anos de prisão na Penitenciária Saint Louis, no condado de Gratiot, devido ao estupro que foi cometido em 11 de novembro de 1996.

Durante uma visita feita por um repórter do "The Detroit News" à prisão, no último sábado, Hatchett afirmou que temia ter esperança de que pudesse ser inocentado.

"Estou tentando não pensar sobre isso", disse ele na sala de visita da prisão, falando com um tom de voz suave e cauteloso. "Não quero ficar desapontado, de forma que estou tirando essa idéia da minha cabeça".

O estupro ocorreu quando a vítima deixava o trabalho em uma loja Super Kmart em Sterling Heights. Um homem encapuzado aproximou-se por trás, no pátio de estacionamento da loja, quando ela estava entrando no carro. Ele disse que estava armado, e ordenou que ela entrasse no seu Dodge Spirit 1990.

O suspeito assumiu a direção do carro e dirigiu até uma rua escura, onde, segundo os relatórios da polícia, estuprou a mulher. A vítima disse aos investigadores que depois disso o estuprador a deixou no acostamento de uma estrada próxima à Interstate 696. Ela correu até uma lanchonete de donuts e telefonou para a polícia.

Hatchett, que cresceu na zona leste de Detroit, foi preso pela Força Tarefa de Combate a Roubos de Carro da Polícia de Detroit quatro dias depois, quando dirigia o carro da vítima. Quatro passageiros estavam com ele no automóvel.

"Eu roubei o carro. Admito isto", disse Hatchett ao "The Detroit News" durante a entrevista na prisão. "Foi uma coisa estúpida que fiz. O carro estava estacionado perto da minha casa havia dois dias, e achei que seria legal roubar um automóvel". Antes de ser preso, Hatchett não tinha antecedentes criminais.

Depois que investigadores de Detroit prenderam Hatchett, eles ligaram para a polícia de Sterling Heights, que recolheu o suspeito, levou-o para o condado de Macomb e interrogou-o. Após sete horas de interrogatório, Hatchett confessou o estupro - mas, de acordo com a co-diretora do Projeto Inocência, Donna McKneelen, havia inconsistências entre a história dele e aquilo que a vítima contou à polícia.

"Hatchett forneceu à polícia a data errada do crime, e disse ainda que houve uma luta, embora a vítima tivesse afirmado que não houve luta alguma". Houve também discrepâncias entre os atos sexuais descritos pela vítima e por Hatchett, segundo McKneelen.

Hatchett afirmou ter sido enganado pela polícia no sentido de confessar. "Foi pura artimanha", disse ele. "Eles não paravam de me dizer o que eu deveria declarar, e fiquei confuso. Eu lhes disse que não estuprei ninguém, mas eles não me escutaram. Eu tinha 17 anos de idade, estava assustado, e não sabia o que pensar. Comecei a ficar cansado, e acabei dizendo-lhes o que eles queriam ouvir".

Mas a polícia de Sterling Heights se defende. "Fizemos uma investigação sólida", disse o porta-voz do departamento, o tenente Michael Reese. "Apresentamos o caso aos promotores. O caso era suficientemente embasado para que eles o levassem adiante. Depois disso, a questão saiu da nossa alçada".

A polícia encontrou fluidos corporais no carro e na roupa da vítima. O exame de DNA feito com um kit para identificação de estupradores à época do julgamento demonstrou que os fluidos não pertenciam a Hatchett. Mas os promotores mantiveram o caso, alegando que o fato de Hatchett ter sido excluído pelo exame era insignificante, já que o material biológico encontrado poderia ter vindo do marido da vítima.

No entanto, um exame avançado de DNA realizado durante o julgamento pelo Laboratório Judicial da Polícia do Estado de Michigan, em Lansing, confirmou que o DNA também não pertencia ao marido da vítima. Mas, segundo McKneelen, essa informação não foi revelada durante o julgamento.

Antes do julgamento, Hatchett não foi colocado em um grupo para identificação, e não foi identificado pela vítima até o julgamento, disse McKneelen.

"A minha advogada não fez o trabalho dela", criticou Hatchett, referindo-se à advogada Jacqueline Theisz, que não foi localizada na segunda-feira para tecer comentários. Uma secretária do escritório de advocacia de Theisz disse que ela nunca trabalhou no caso de Hatchett.

Na segunda-feira, o advogado civil de Hatchett, Chris Kokkinakos, estava na sala de tribunal do condado de Macomb. Ele disse que entrará com uma ação na justiça federal em nome de Hatchett dentro de uma semana.

"A acusação sonegou provas de DNA", disse Kokkinakos. "Isso custou a Hatchett 12 anos da sua vida. Quanto vale 12 anos de vida?".

Hatchett disse ter ouvido falar sobre o Projeto Inocência quando a organização foi mencionada durante um programa na TV judicial quando ele estava na prisão, e que fez contato com a instituição a respeito do seu caso.

"Eles são os melhores naquilo que fazem", afirmou ele. "Eu sou-lhes grato; é bom saber que alguém luta por você".

O Projeto Inocência realizou cerca de 3.700 investigações e inocentou Kenneth Wyniemko e Eddie Joe Lloyd depois que exames de DNA feitos após a condenação provaram que eles não cometeram os crimes pelos quais foram condenados.

"É duro ficar trancafiado por algo que você sabe que não fez", disse Hatchett durante a visita que recebeu na prisão no sábado. "Aqui a gente simplesmente tenta sobreviver. Se a pessoa cuida da sua vida, não há problemas".

Quando perguntaram a Hatchett se ele tinha raiva de alguém devido àquilo pelo qual passou, ele respondeu rapidamente.

"Tenho raiva de mim", disse ele. "É verdade que fui injustiçado, mas também fiz besteira quando roubei aquele carro". As acusações referentes a um caso de estupro ocorrido em 1996 foram retiradas devido a novos resultados de exames de DNA. UOL

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