Aeroporto gigante é apenas um dos projetos de tamanho olímpico de Pequim

De David Barboza
Em Pequim

O novo Terminal 3 do aeroporto de Pequim -com o dobro do tamanho do
Pentágono- é o maior prédio do mundo. Adornado com as cores da China imperial e com um teto que evoca as escamas de um dragão, a imensa estrutura de vidro e aço, projetado pelo renomado arquiteto britânico Norman Foster, custou US$ 3,8 bilhões e pode lidar com mais de 50 milhões de passageiros por ano. Os construtores o chamam de "o prédio de aeroporto mais avançado do mundo" e dizem que foi concluído em menos de quatro anos, um prazo que alguns acreditavam ser impossível.

AFP 
Avião pousa no novo terminal 3 do aeroporto de Pequim


Ele foi inaugurado no final de fevereiro sem muito estardalhaço, mas também sem o tipo de problemas que atormentam o novo terminal de US$ 8,7 bilhões de Heathrow, em Londres, um projeto que levou seis anos para ser concluído.

Esta é a imagem que a China gostaria de projetar como anfitriã dos Jogos
Olímpicos neste ano -um potência ascendente confiante, construindo
monumentos deslumbrantes que exemplificassem seu rápido progresso e sua ambição audaciosa.

Apesar de grande parte do mundo se concentrar nos protestos que seguem a tocha olímpica, no pobre retrospecto de direitos humanos na China, em sua poluição, na segurança dos produtos e em escândalos de trabalho infantil, os trabalhadores daqui estão dando os retoques finais em um dos maiores programas de construção que o mundo já viu.

Pequim espera superar estes pontos negativos, os lados sombrios de sua forte economia, enfatizando sua capacidade de se atualizar e modernizar -pelo menos no que se refere a projetos de construção e infra-estrutura. O principal estádio Olímpico, apelidado de "Ninho de Pássaro", já é amplamente admirado por seu aspecto notável e seu uso incomum de uma malha de aço no exterior. O vizinho Centro Aquático Nacional, conhecido como "Cubo de Água", é uma bolha azul transparente que brilha no escuro.

E ao leste das principais arenas olímpicas, a construção está desacelerando na nova sede da principal rede de televisão estatal do país, a Televisão Central da China, ou CCTV. O prédio de US$ 700 milhões, projetado por Rem Koolhaas, consiste de duas torres em forma de "L" inclinadas, que se erguem 234 metros e pode ser o maior e mais caro quartel-general de mídia do mundo.

Nova York tem o Chrysler Building, o Grand Central e o Museu Guggenheim;
Paris tem o Louvre e o Centro Pompidou; agora Pequim está determinada a
construir seus próprios ícones arquitetônicos.

"Pequim é um imenso sítio experimental no momento", disse Zhu Wenyi, reitor da escola de arquitetura da Universidade Tsinghua. "Esta arquitetura moderna é a identidade da China moderna."

Mas às vezes a simples escala dos prédios supera tudo mais. Trinta anos após o início das reformas econômicas, este país construiu uma série de super-estruturas que quase parecem destinados mais ao Livro Guinness dos Recordes do que às paisagens urbanas.

A China é o lar, por exemplo, do maior shopping center do mundo (o South
China Mall de 640 mil metros quadrados); a ponte mais longa de travessia de mar (ela se estende por 36 quilômetros sobre parte do Mar do Leste da
China, ligando Xangai, importante centro financeiro e comercial, à cidade portuária de Ningbo); a maior represa hidrelétrica (o projeto Três Gargantas); e a mais alta ferrovia (uma maravilha de engenharia que cruza o permafrost -o gelo permanente- tibetano a mais de 4.870 metros acima do nível do mar, o chamado teto do mundo).

No final do ano passado, Pequim abriu aquela que pode ser a maior sala de
apresentação do mundo, o Centro Nacional para as Artes Interpretativas, uma sala de concerto, casa de ópera e centro de teatro de US$ 400 milhões, com o dobro do tamanho do Kennedy Center em Washington. Apelidado de "O Ovo", o domo de titânio do centro chinês se ergue acima de um amplo espelho d'água.

Por décadas, o Partido Comunista usou imensos programas de construção para atrair investimento estrangeiro e para criar milhões de empregos. Mas esta nova onda é diferente.

"Isto é apenas o começo", disse Ma Yansong, um arquiteto de 32 anos que
estudou nos Estados Unidos e trabalha aqui. "Nos últimos 10 anos nós tivemos a construção de grandes marcos em Pequim e Xangai. Mas agora, construtoras privadas estão ingressando e cidades secundárias estão querendo se desenvolver."

Nas últimas semanas, muitos chineses se queixaram do que consideram
distorções da mídia ocidental sobre a China e seu papel no Tibete, onde
protestos ocorreram no mês passado.

De fato, por trás dos contraprotestos, cada vez mais nacionalistas, está o medo de que o momento olímpico da China seja ofuscado pelos críticos e que os feitos notáveis do país sejam ignorados.

Muitos chineses dizem que isso mudará em 8 de agosto de 2008 -uma data
auspiciosa segundo a cultura tradicional, porque 8 é um número de sorte-
quando o mundo se concentrar nos Jogos Olímpicos e nas realizações inegáveis da China.

Em Pequim, as autoridades usaram as Olimpíadas para justificar a demolição de bairros antigos e o deslocamento de dezenas de milhares de moradores pobres, com a esperança de refazer a cidade em uma capital moderna de novas avenidas, linhas de metrô e arranha-céus reluzentes.

De forma semelhante, as autoridades municipais de Xangai transferiram
fábricas imensas e milhares de moradores ao longo do Rio Huangpu para
preparar uma área de mais de 5 quilômetros quadrados para a Feira Mundial de 2010, o debute de Xangai.

Com a rápida urbanização da China, agora há dezenas de outras cidades
grandes desenvolvendo planos e encomendando novos arranha-céus, vias
expressas e distritos comerciais inteiros.

Em Macau, uma das zonas administrativas especiais da China, a Sands Corp., com sede em Las Vegas, construiu um cassino, hotel e centro de convenções de 965 mil metros quadrados, que foi inaugurado no ano passado com multidões imensas.

Mas nem todos estão satisfeitos com o desenvolvimento que transforma as
cidades chinesas. Antigos bairros e importantes prédios históricos estão
sendo demolidos. Vias expressas e arranha-céus apagaram marcos culturais.

Até mesmo alguns importantes arquitetos e planejadores urbanos chineses
estão se queixando. E todo este crescimento depende em grande parte de
energia derivada do carvão, que polui o ar, que distrai a atenção dos novos palácios reluzentes da China. Outros se queixam de que arquitetos
estrangeiros demais estão sendo badalados, em detrimento do talento nascido na China, a ponto de elementos chineses se perderem -como as antigas casas em estilo pátio de Pequim- e que o desenvolvimento exageradamente agressivo está poluindo a paisagem com monstruosidades modernas.

"Eu sou completamente contrário a esta grande arquitetura; é um desperdício total", disse Yin Zhi, presidente do instituto de planejamento urbano e design da Universidade Tsinghua, em Pequim. "O governo quer fazer uso da oportunidade olímpica para refazer Pequim, gastando tanto dinheiro nestes projetos estúpidos. Por que não usar o orçamento para melhor o sistema de tráfego de Pequim? Por que não melhorar a qualidade de vida das pessoas?"

Yin prosseguiu: "A China, como um país em desenvolvimento, não deveria
gastar tanto nestes projetos chamativos. Isto mostra que, de certa forma, a China carece de confiança".

Mas Pequim parece disposta a mostrar ao mundo que pode trazer arquitetos de renome mundial à China, e atraiu grandes nomes, incluindo Zaha Hadid, uma famosa arquiteta de Londres.

Os empreendedores locais estão correndo para explorar este momento de
extrema transformação. Uma crescente classe média e o surgimento da cultura do carro na China estão criando oportunidades para construção de novas cidades e subúrbios, e muitas cidades querem provar que estão se
desenvolvendo rapidamente, na esperança de atrair ainda mais investimento.

AFP 
Passageira aguarda no novo terminal 3; mais 97 aeroportos devem surgir até 2020


Com o crescimento econômico, a viagem aérea também cresceu enormemente, criando a demanda por novos aeroportos. De fato, mesmo após o boom de construção ao longo da década passada, o governo diz que planeja construir outros 97 novos aeroportos até 2020.

Aqui em Pequim, a construção do Terminal 3 foi acelerada para atender o
aumento da viagem aérea rumo à capital, e para criar um novo portal
impressionante para a cidade a tempo das Olimpíadas.

A Foster & Partners, a firma de arquitetura britânica, venceu a disputa pelo projeto há menos de cinco anos, no final de 2003. A firma estabeleceu rapidamente um escritório aqui e, em março de 2004, começou a trabalhar em um projeto de 1,3 milhão de metros quadrados que tornaria pequena a soma de todos os cinco terminais de Heathrow.

Os projetistas queriam incorporar características chinesas, então procuraram o conselho de um mestre em feng shui. Eles escolheram vermelho e dourado como as cores dominantes, para combinar com as de antigos palácios como a Cidade Proibida.

Então correram contra o relógio.

"Em novembro de 2003, nós vencemos a disputa pelo contrato", disse Mouzhan Majidi, o principal arquiteto do projeto para a Foster & Partners. "Em uma semana, nós tínhamos que ter um escritório da Foster em Pequim."

A Siemens, a empresa alemã, construiu um sofisticado sistema para lidar com a bagagem, capaz de separar e transportar 19.200 peças de bagagem por hora por um prédio de quase três quilômetros de extensão. Operários ergueram e colocaram um telhado gigante projetado para parecer as escamas de um dragão.

O prédio foi inaugurado antes do prazo, em grande parte porque Pequim
transformou a obra em uma operação 24 horas, com dezenas de milhares de operários vivendo no terreno do aeroporto. É o tipo de operação que só pode ser encontrada na China.

Pequim forneceu literalmente um exército de operários.

"Quando lembro de nossas visitas à obra com Norman, era uma cena incrível ver 50 mil pessoas trabalhando no prédio", disse Majidi, que trabalha
estreitamente com Foster, o arquiteto ganhador do Prêmio Pritzker. "Lembrava como pode ter sido a construção das pirâmides." - Veja mais sobre as construções e os locais de competição das Olimpíadas de Pequim em UOL Esporte George El Khouri Andolfato

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