Bio-intolerância: águias nobres, pombos imundos, humanos preconceituosos

De Natalie Angier
Do Science Times

Outro dia olhei pela janela e senti uma náusea delicadamente temperada com indignação. Bicando no meu alimentador de pássaros estavam dois cucos de cabeça marrom, um macho e uma fêmea, e eu sabia o que aquilo significava. Muito em breve a gorducha e fertilizada fêmea iria colocar seus ovos no ninho de algum outro pássaro, com a expectativa de que seus ingênuos hospedeiros fossem chocar, alimentar e educar seu barulhento e esfomeado jovem em negligência e até mesmo para a morte de seus próprios.

"Ei, seus parasitas, tirem seus bicos de minhas sementes", pensei raivosamente. Aquele alimentador é para os bons pássaros, os pássaros dos quais eu gosto -cardeais, trepadeiras, chapins, abelharucos com crista, pica-paus, tentilhões dourados. É para os pássaros trabalhadores, com fibra moral suficiente para criarem suas próprias famílias e ainda parecerem fotogênicos. Não é para parasitas sorrateiros como vocês.

Eu bati na janela mas os pássaros não se moveram, e enquanto eu fiquei ali pensando se deveria correr para fora e assustá-los, seus bicos pareceram engrossar, seus olhos tornaram-se mais negros, e eu poderia jurar que eles estavam tagarelando, "Tippi Hedren, vá embora."

Em suma, eu estava sofrendo de um severo caso de bio-intolerância: o persistente desejo irracional de estar rodeado apenas por aquelas espécies que todos aprovam, excluindo quaisquer animais, plantas e outras formas de vida consideradas ofensivas.

Não era o meu primeiro episódio da doença, e evidentemente eu não sofro sozinho. "Através da história, houve animais difamados e animais admirados," disse John Fraser, um psicólogo de conservação do Wildlife Conservation Society. "Existem os animais dos quais você não gosta e descarta como pequenos vermes marrons, e os animais cujos atributos você quer possuir": ser um tigre, um urso, o lobo líder da matilha.

A bio-intolerância é diferente do impulso de evitar organismos que podem nos machucar ou transmitir doenças, como mosquitos e hera venenosa, ou defender-se de pestes domésticas tradicionais como camundongos e baratas. Particularmente, é a antipatia que direcionamos a criaturas que vivem ao ar livre e geralmente cuidam de suas próprias vidas, mas isso acontece de uma maneira que consideramos rude, irritante, egoísta ou desprezível.

Os esquilos são glutões, os corvos são como os valentões do colégio, os pardais caseiros são tediosos e se parecem com camundongos quando se sacodem pelo chão. Como amamos aqueles nobres falcões e águias que nos abençoaram fazendo seus ninhos em nossos arranha-céus e pontes. Como lhes imploramos que se banqueteiem livremente com os pombos que nos amaldiçoam ao fazerem seus ninhos em nossos arranha-céus e pontes.

Algumas vezes nossa bio-intolerância é meramente situacional. Durante uma entrevista sobre hienas pintadas, por exemplo, um pesquisador da Universidade da Califórnia, Berkeley, referiu-se desdenhosamente aos gnus, frequentemente caçados pelas hienas, como "gnus-burguers". Por quê? Porque assim que um gnu é capturado, disse o cientista, ele fica parado com uma passividade de vaca e aguarda seu próprio despedaçamento. Compare isso com a zebra, disse o pesquisador, que reage lutando e chutando e, se puder, quebrando a mandíbula do predador.

"Todos nós temos uma tendência a interpretar excessivamente as coisas que vemos," disse Marc D. Hauser, professor de psicologia e biologia evolutiva da Universidade de Harvard e autor de "Moral Minds". "Eu me recordo claramente, quando fui pela primeira vez ao Amboseli National Park para estudar macacos vervet, da rapidez com que desenvolvi fortes sentimentos contra a personalidade dos macacos -aqui estavam os grandes e bravos, lá estavam os fracos que se escondem nos arbustos e agem de forma patética."

Em outros tempos, nós agimos para favorecer nossos heróis locais ou arruinar nossos bodes-expiatórios escolhidos, cujo maior pecado, na maior parte das vezes, é serem excepcionalmente bons em seus esportes. Tentamos proteger dos esquilos nossos alimentadores de pássaros, arrancamos ervas-daninhas de nossas floreiras, chamamos o Controle de Animais, e quando tudo isso falha, pegamos nossa espingarda.

Stephen C. Sautner, do Wildlife Conservation Society, citou o caso de um amigo e ávido admirador de pássaros que tem uma colônia de Martins púrpura em sua propriedade. "Ele passa muito de seu tempo fazendo armadilhas e atirando em estorninhos e pardais ingleses", disse Sautner, "dois pássaros que descreve como 'diabólicos'".

Nós sempre temos uma história para justificar nossas ações mais agressivas contra animais não desejados. O animal é uma espécie invasora como o estorninho, e não pertence a este lugar. Ou é uma espécie nativa como o cuco, mas sua abrangência foi estendida de forma não natural através do desmatamento. Ou ele gosta de nosso lixo e de nossos parques descuidados e por isso tem uma injusta vantagem sobre criaturas mais exigentes.

Não importando o que as auto-justificativas apontem, disse Marc Bekoff, autor de "The Emotional Lives of Animals" e professor emérito de biologia na Universidade do Colorado, "eu vejo isso como um engano no qual criamos uma situação onde os cucos se disseminam, as raposas-vermelhas comem pássaros em extinção, e então decidimos, bem, agora temos que sair e matar os cucos e as raposas".

Nossa tendência à bio-intolerância, segundo especialistas, surge de várias características humanas salientes. Por exemplo, estamos equipados com uma teoria de mente frequentemente hiper-ativa -a convicção de que os que estão à nossa volta têm suas próprias mentes, objetivos e desejos, e que nossa obrigação seria antecipar o que eles farão em seguida. Criamos narrativas elaboradas partindo das mais frágeis linhas de raciocínio: veja, o corvo azul está tentando desalojar o cuco do alimentador. Poderia o corvo saber que o cuco é um parasita de ninho e por isso tentar expulsá-lo da cidade? "Nós interpretamos o comportamento animal através de lentes e moralidade humanas", diz Fraser, o psicólogo de conservação.

Relacionado ao impulso humano de vermos a nós mesmos ao natural está a insistente idéia de que a natureza nos pertence, e que temos o direito e os meios de controlá-la. "No passado, quando falamos sobre explorar a natureza, isso era visto como uma coisa boa," disse Fraser. "Agora percebemos que essa postura é contra-producente para o sucesso da raça humana."

Em lugar algum nosso senso de "droit du roi" (direito divino) sobre a natureza está mais evidente do que em nossa postura paradoxal em relação aos animais de fazenda. De um lado, eles são as amadas figuras de nossa infância. Do outro, muitas de nossas comparações mais pejorativas nasceram no curral: seu porco nojento, sua vaca preguiçosa, seu frangote, que bando de ovelhas.

Grupos de conservação, que acompanham os posicionamentos públicos relativos a animais, reconhecem estar sempre em busca do próximo Ídolo Animal -uma criatura ecologicamente importante e que invariavelmente acaba se tornando grande, esplendorosa, carismática e amável.

Se você tem dois pássaros importantes da mesma região da América Latina, disse Fraser, um sendo uma arara vermelha similar a uma jóia voadora que consegue vocalizar como um humano, e o outro um petrel marrom, barulhento e que pinta o litoral com excremento, adivinhe qual delas estará no próximo calendário de arrecadação de fundos?

Não que posturas públicas não possam ser alteradas. Morcegos, por exemplo, foram por muito tempo considerados daninhos, mas hoje em dia, no despertar do altamente popular livro infantil "Stella Luna", eles enfrentaram um ar mágico, como o comedor de mosquitos Tinkerbells que, se você tiver sorte, em breve montará residência no seu terreno. Ate lá, afaste-se daquela casa de morcegos, pardal! Não me faça apertar o gatilho.

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