No roteiro, museus que conversam com as crianças

De Lisa Foderaro
The New York Times News Service

O Museu de Arte Contemporânea de Massachusetts (conhecido como Mass MoCA), em North Adams é um templo cavernoso da arte moderna, dotado de trabalhos excepcionalmente grandes e provocativos em diversos gêneros. Já o Museu Norman Rockwell, em Stockbridge, também Massachusetts, oferece uma estética totalmente diferente, com bebedouros de refrigerantes, jantares de família e cenas docemente nostálgicas da vida nas pequenas cidades.

Os dois museus ocupam posições opostas no universo da arte. Mas juntos eles só têm a acrescentar a um passeio de fim de semana revelador e repleto de arte. Ambos ficam na região de Berkshires, o que torna fácil a locomoção entre eles. E os dois conversam com as crianças -o Mass MoCA pela sua extrema excentricidade, e o Rockwell pelo seu humor suave. E, para os adultos, há o prazer de observar o contraste entre os dois espaços de arte.

Stewart Cairns/The New York Times 
Garoto observa releitura da obra de Renoir feita com centenas de carretéis, no Mass MoCA


Convencer uma criança a visitar um museu de arte pode ser uma tarefa difícil. Perambular por galerias silenciosas cheias de quadros sérios é algo que pode rapidamente fazer com que os pequenos sintam estar sendo submetidos a uma marcha forçada.

Assim, embora o meu marido e eu adoremos observar pinturas e esculturas, nós tentamos incutir uma paixão pela arte nos nossos filhos levando-os a museus de todos os tipos, mas em pequenas doses. Embora tenham apenas seis e nove anos de idade, eles já foram ao Metropolitan Museum of Art (Museu de Arte Metropolitana, em Nova York) mas de dez vezes, assim como a locais mais esotéricos, do Centro de Arte Contemporânea PS 1, no Queens, ao Museu Picasso, em Paris.

Portanto, parecia apropriado planejar toda uma viagem de final de semana baseada em visitas a museus, com duas experiências que não são facilmente duplicadas em grandes cidades. No início da primavera, nós nos instalamos no Porches Inn, bem em frente ao Mass MoCA. Consistindo de oito casas ao estilo vitoriano, que no passado foram ocupadas por operários de fábricas, o hotel possui 47 belos quartos, cuja decoração é chamada pelos proprietários de "retrô-industrial-velha-chique". Em outras palavras, uma síntese dos dois museus que fomos visitar.

E, o melhor de tudo, pelo menos sob a ótica dos nossos filhos (um menino e uma menina), foi a piscina aquecida ao ar livre -aberta o ano inteiro e o dia todo. Após um dia vendo obras de arte, nada rejuvenesce mais do que o yin e o yang da água quente e o ar gelado, com nuvens de vapor subindo em direção ao céu escuro.

Quando foi inaugurado em uma unidade industrial abandonada quase uma década atrás, o Mass MoCA tornou-se um sucesso instantâneo, proporcionando um local para a exibição de esculturas que eram muito grandes para a maioria dos museus. O centro também injetou vida em North Adams, uma cidade industrial moribunda, cujo maior empregador, a companhia Sprague Electric, saiu de lá em 1985, deixando quase 2.000 trabalhadores desempregados.

Tendo ao fundo colinas arredondadas da Nova Inglaterra cheias de campanários, a fábrica da Sprague, com 27 prédios em uma área de 52,6 mil metros quadrados, exibia um charme inegável. Com uma orgulhosa torre de relógio, fachada de tijolos gasta e janelas de várias vidraças, o complexo do século 19 suplicava para ser reinventado.

O Mass MoCA é um lugar de uma extravagância séria, onde idéias artísticas incomuns têm permissão para florescer. Em frente à entrada há uma mostra de árvores da espécie bordo-doce viradas de cabeça para baixo, sustentadas no ar por uma grande estrutura de aço e madeira. Criada por Natalie Jeremijenko, a escultura é chamada "Tree Logic". De alguma forma as seis árvores conseguiram crescer, embora alguns ramos estejam retorcidos para cima em uma tentativa vã de crescerem em direção ao sol.

Este é exatamente o tipo de projeto que o nosso filho de seis anos, Sawyer, poderia ter planejado e executado, caso tivesse um financiador. Ele sorriu ao ver a obra, e olhou para nós com uma expressão travessa de prazer. A nossa filha, Amelia, também estava começando a apreciar as fronteiras elásticas das belas artes. Dentro do museu ela apontou para um pequeno nicho na parede, abaixo da placa que descrevia uma escultura próxima. "Aquilo também é uma peça de arte?", perguntou Amelia. "O buraco na parede?".

A confusão dela era compreensível. Afinal, em uma outra galeria via-se uma escultura de 42 toneladas do renomado artista alemão Anselm Kiefer -uma massa ondulada de concreto de 24 metros de comprimento repleta de vergalhões enferrujados protuberantes. Até recentemente a escultura adornava o jardim de um casal em Fairfield, em Connecticut, onde ela confundiu e acabou por irritar os vizinhos. Estes achavam que a coisa parecia mais um resto de demolição do que uma obra de arte, e a Comissão do Distrito Histórico de Fairfield insistiu na sua remoção.

A escultura de 2002, chamada "Etroits Sont les Vaisseaux", ou "Estreitos São os Barcos", está emprestada por um longo período ao museu, onde ela fica mais elegante, no centro de uma galeria artisticamente iluminada. Os nossos filhos gostaram da história da peça, e apreciaram a ironia nela contida.

Mas o verdadeiro show para as crianças foi a instalação de Jenny Holzer chamada "Projections", que ocupa uma galeria do tamanho de um campo de futebol. A galeria é ampla e escura, com a exceção de dois poderosos fachos de luz em cada extremidade que projetam a poesia da escritora e Prêmio Nobel polonesa Wislawa Szymborska. As grandes linhas de texto -"Embora os corações das orcas possam pesar uma tonelada, sob todos os outros aspectos eles são leves", por exemplo- alonga-se e distorce-se à medida que se estende em direções opostas ao longo do piso e do teto.

Como se isso não fosse suficiente, o artista espalhou cadeiras bean bag pelo piso para facilitar a observação, e os guardas pareciam desencorajar apenas os abusos mais escandalosos da etiqueta de uso de cadeiras bean bag.

Embora muita coisa no Mass MoCA agrade às crianças, o museu assim mesmo criou uma sala especial para os pequenos, chamada Kidspace. Nela há mesas com material artístico, bem como as suas próprias exposições de arte rotativas. Nós vimos a "It's Rude to Stare" (algo como, "Encarar os Outros é Falta de Educação"), uma exposição recente de Richard Criddle, mostrando um grupo de criaturas assustadoras feitas de madeira, metal e objetos velhos. As esculturas foram inspiradas nos medos e estórias da infância de Criddle.

Animados com a exibição, Will Fairbrother, de Barrington, no Estado de Rhode Island, e o seu filho Lucian, de seis anos, colaboravam para a confecção de um monstro verde. "Acho que a arte contemporânea -a escala dela- é de fato boa para as crianças", disse Fairbrother, que é professor de biologia da Universidade Brown. "É uma arte mais acessível, e as crianças realmente sentem-se atraídas por ela".

Até o final do verão estão sendo exibidas interpretações pontilhísticas de retratos famosos, como a "Mona Lisa, de Leonardo da Vinci. A exposição é da artista Devorah Sperber. Carretéis de linha funcionam como pequenos traços de tinta, e as imagens, que estão de cabeça para baixo, só são vistas na posição certa quando observadas através de lentes específicas.

Não há muita coisa em comum entre o Mass MoCA e o Museu Norman Rockwell. Na verdade foi a diferença entre os dois que fez com que eu quisesse combinar ambos em um único fim de semana. Porém, bem diante do Kidspace há um vínculo fascinante entre os museus que passa facilmente desapercebido: um mural de Jarvis Rockwell, filho de Norman Rockwell.

Stewart Cairns/The New York Times 
Visitantes, entre os quais algumas crianças, passam por galeria do Museu Norman Rockwell


Cobrindo quatro paredes do chão ao teto, o mural parece o trabalho de um pichador compulsivo: um desenho intricado e sem fim, a lápis, de esferas interconectadas. Jarvis Rockwell, que é mais bem conhecido pelos seus dioramas de personagens de brinquedo em ação, fez um desenho similar em um restaurante de Williamstown, uma cidade próxima.

A paisagem em volta do Museu Norman Rockwell é tão pastoral quanto aquela em torno do Mass MoCA é áspera. A área de 14.6 hectares -nas redondezas de Stockbridge, onde Rockwell passou os seus últimos 25 anos- inclui o seu estúdio, que foi transferido para o local (o estúdio fica aberto de maio a outubro). Próximo ao Rio Housatonic, o museu também tem esculturas de Peter Rockwell, um outro filho de Norman Rockwell.

Inaugurado em 1969 com trabalhos de Norman e Molly Rockwell, o museu abriga a maior coleção do mundo da arte de Rockwell. Ele também exibe trabalhos de outros ilustradores famosos. Até 26 de maio está sendo exibida a mostra "LitGraphic: O Mundo do Romance Gráfico".

À primeira vista as galerias suntuosas pareciam ordenar às crianças que fizessem silêncio, como se houvesse uma advertência velada de que elas encontravam-se na presença de arte séria. Mas, é claro, o humor permeia tantos os quadros de Rockwell e as capas da "Saturday Evening Post" -todas as 323 estão à mostra- que as nossas crianças foram quase tomadas pela surpresa.

O favorito de Amelia foi "The Gossips" ("Os Fofoqueiros"), uma pintura a óleo de 1948 para uma capa da "Post" na qual Rockwell mostra uma série de mulheres e homens passando adiante as fofocas referentes a alguma notícia escandalosa. A fofoca parece dizer respeito ao próprio Norman Rockwell, e no final da fila de pessoas que falam, vê-se um perfil de Rockwell, repreendendo uma mulher que é a primeira fofoqueira da seqüência.

SERVIÇO

- O Museu de Arte Contemporânea de Massachusetts (www.massmoca.org), informalmente conhecido como Mass MoCA, fica na Marshall Street, 87, em North Adams, a cerca de oito quilômetros da interseção das Rotas 2 e 7, em Williamstown. Está aberto todos os dias, exceto às terças-feiras, de 11h às 17h. Do início de julho ao início de setembro, ficará aberto diariamente das 10h às 18h (o Kidspace abre aos sábados e domingos do meio-dia às 16h). Entrada: adultos, US$ 12,50; crianças e estudantes têm descontos.

- O Museu Norman Rockwell (www.nrm.org) fica na Glendale Road, 9 (Rota 183), em Stockbridge, Massachusetts, cerca de 48 quilômetros a sudoeste de North Adams. O museu abre diariamente. Os horários são: de 10h às 16h nos dias de semana, de novembro a abril; nos fins de semana e feriados de 10h às 17h; de maio a outubro ele abre diariamente de 10h às 17.
Entrada: adultos, US$ 12,50; pessoas com menos de 19 anos não pagam.

- Hotel Porches Inn (River Street, 231, North Adams; www.porches.com). O preço de fim de semana até o final de maio, por um quarto com duas camas de casal (tamanho "Queen") é US$ 199 por noite. Inclui um generoso café-da-manhã "continental". Perto existem várias outras acomodações com preços acessíveis, como o Holiday Inn Berkshires, em North Adams, e o 1896 House, uma pousada "bed-and-breakfast" em Williamstown. UOL

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