Sapos hermafroditas são encontrados em lagos no subúrbio de Connecticut, EUA

De Felicity Barringer
Do Science Times

Juntamente com a chegada da temporada de acasalamento dos sapos, um estudo feito por um professor de Yale levanta uma questão preocupante. Quantos sapos cumprirão seus papéis de forma clara no ritual anual de primavera?

Sapos comuns que fazem suas casas em áreas suburbanas têm maior tendência que seus correspondentes rurais a desenvolver as anormalidades reprodutivas já encontradas nos rios Potomac e Mississipi, de acordo com o estudo feito por David Skelly, um professor de ecologia na Yale School of Forestry and Environmental Studies.

A pesquisa de Skelly descobriu que 21% dos sapos verdes (Rana clamitans) machos retirados dos lagos suburbanos de Connecticut são hermafroditas, com ovos imaturos crescendo em seus testículos.

O estudo é o mais novo de uma década de pesquisas que descobriram características dos dois sexos em espécies residentes na água, como o peixe-gato de dente afiado na África do Sul, o peixe boca-pequena no Potomac e o esturjão shovelnose no Mississipi. Estudos anteriores, particularmente aqueles realizados por cientistas da Universidade da Califórnia, Berkeley e no escritório de West Virginia do U.S. Geological Survey, sugeriram uma forte ligação entre as anormalidades e a agricultura, assim como uma possível relação com o atrazine, um herbicida comum. Mas o estudo de Yale descobriu que sapos hermafroditas estavam mais concentrados em áreas urbanas e de subúrbios.

O estudo de Skelly, apresentado em um seminário na Universidade de Connecticut, está sendo enviado para publicação. Ele olhou para o sapo verde -que ele chamava de "Olhe, Mamãe, eu achei um sapo". Ele analisou as paisagens no Vale do rio Connecticut, onde as anormalidades eram mais prováveis de ser encontradas. Em 2006, um estudo do peixe boca-pequena realizado pela Geological Survey no Upper Potomac Basin descobriu que peixes machos provenientes de locais cultivados e habitados de forma mais densa apresentavam maior tendência em ter ovos imaturos nos testículos. Neste ano, cientistas da agência identificaram produtos químicos presentes nos afluentes que desembocam nas áreas onde as anormalidades foram encontradas.

"Olhando as plantas de tratamento de esgoto rio acima e rio abaixo, notamos um claro impacto de alguns dos produtos químicos descarregados no esgoto" disse Vicki S. Blazer, uma das autoras do estudo Geological Survey. "Coisas como pesticidas, herbicidas, entre outros."

Ela acrescentou que, embora o estudo no Potomac Basin não tenha medido níveis altos de estrogênio no esgoto, seja de lixo farmacêutico ou de outras fontes, "essa certamente é uma preocupação."

A pesquisa foi, em parte, traçada para identificar fatores endócrinos de interrupção ou compostos que possam interferir com hormônios reprodutivos.

Ela focou em produtos químicos específicos, incluindo o atrazine, um herbicida utilizado em agricultura e em gramados e jardins, além de produtos químicos usados para dar fragrância a cosméticos.

Apesar de ter sugerido possíveis ligações, o último estudo da Geological Survey não correlacionou diretamente a prevalência de peixes hermafroditas e a presença desses produtos químicos no esgoto, segundo Blazer. Os efeitos desses produtos químicos permanecem obscuros.

Um estudo de 2002, conduzido em Berkeley por Tyrone B. Hayes, descobriu que sapos leopardo expostos a atrazine no laboratório tinham retardo no desenvolvimento testicular e, em alguns casos, ovos imaturos nos testículos.

O atrazine, fabricado pela Syngenta de Basel, Suíça, conseguiu que a Agência de Proteção Ambiental renovasse sua aprovação em 2003. Por pedido da agência, a Syngenta estava estudando os níveis de atrazine em algumas bacias hidrográficas. A União Européia o baniu.

A agência ambiental e a companhia foram criticadas por grupos ambientais que sustentam que o atrazine causa danos a peixes e anfíbios e poder trazer conseqüências a outras espécies. A companhia diz que o produto é seguro.

Questionado sobre o que pode haver causado as mudanças reprodutivas encontradas no novo estudo de Yale, Skelly respondeu: "Eu não sei."

Ele apontou que muitas áreas de subúrbios em sua pesquisa utilizaram sistemas sépticos e que houve escassas investigações sobre os produtos químicos ou resíduos farmacêuticos neles ou sobre a possibilidade de vazarem para córregos ou lagos. Áreas de subúrbios também são associadas com o uso de herbicidas e pesticidas.

Em contraste com o estudo da Geological Survey, que envolvia correntes agrícolas, o estudo dos sapos descobriu que quanto mais agrícola uma área for, menor é a taxa de anormalidades.

Em uma entrevista, Skelly deu sua opinião sobre o fenômeno hermafrodita: "Esta é a primeira evidência de que a agricultura está fazendo tudo menos colaborar para o aumento dessas taxas. Eu não diria de forma alguma que é definitiva, mas certamente não é parte do coro."

"Eu não gostaria de sair dizendo ao mundo que converter paisagens em áreas de agricultura vai impedir que enfrentemos riscos de contaminação agrícola. O que encontramos na maioria dos lagos agrícolas que estudamos foi pouca ou nenhuma evidência de deformidade reprodutiva."

Skelly dividiu sua pesquisa em áreas não-desenvolvidas, agrícolas, subúrbios e rurais, com base nos sapos coletados em 23 lagos. Isso envolvia 6.000 lagos pesquisados, sendo que 136 estão no Vale do Rio Connecticut.

Dos 233 sapos que tiveram os órgãos reprodutivos analisados, 13% tinham anormalidades.

Em áreas urbanas, 18% dos sapos coletados eram hermafroditas; nos subúrbios 21%. Nas áreas agrícolas, apenas 7%.

Quanto mais suburbana fosse a área, disse Skelly, maior a probabilidade de encontrar anormalidades. Sapos de áreas não-desenvolvidas e florestadas não mostraram quaisquer traços hermafrodita.

A questão da saúde reprodutiva nos peixes hermafroditas é uma que Blazer disse ter retomado em um follow-up de seu estudo de 2006.

"Nós sabemos que os machos hermafroditas produzem esperma", disse ela. "A questão é se o esperma é bom o suficiente quanto o esperma dos machos normais".

Até agora, segundo ela, o esperma dos machos hermafroditas tem mostrado alguma diminuição na habilidade de autopropulsão, mas os machos permanecem aptos à reprodução. Regina Marzagão / NYT

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