Coreanos lembram uma era de batalha de propaganda

De Choe Sang-Hun, do Chongson Journal
Em Chongson, Coréia do Sul

No início de abril, quando a Coréia do Norte chamou o presidente da Coréia do Sul, Lee Myung-bak, de um "impostor" e "servil aos americano", as farpas verbais soavam familiares demais para Jin Yong-seon. Ele tem um museu cheio delas.

Seokyong Lee/The New York Times 
Jin Yong-seon e seu Museu da lembrança: 'bombas de papel' e escombros da Guerra Fria


Em seu Museu da Lembrança nesta ex-cidade mineradora a cerca de 145 quilômetros ao leste de Seul, Jin está exibindo 700 exemplos do que chama de "bombas de papel", os panfletos que a Coréia do Norte e do Sul disparavam uma contra a outra da Guerra da Coréia até 2000, quando os esforços de reconciliação levaram a um cessar-fogo na batalha de propaganda.

Em um panfleto exibido no museu de Jin, uma montagem fotográfica reunia o ex-presidente sul-coreano na cama com uma atriz sedutora com a legenda: "Kim Young-sam, o libertino". Outro panfleto exibe uma charge do antecessor de Kim, Roh Tae-woo, se ajoelhando para receber ordens de James R. Lilley, o embaixador americano de 1986 a 1989.

"Quando era garoto, nós encontrávamos estes panfletos caindo como garoa nas colinas ao redor daqui", disse Jin, 44 anos. "Se os encontrássemos, nós devíamos entregá-los na delegacia de polícia. Nós recebíamos revistas em quadrinhos, lápis ou guloseimas como recompensa."

Em uma era em que não havia Internet e ambos os lados interferiam nos sinais de rádio um do outro, os panfletos jogados por avião ou balão para o outro lado da fronteira eram a forma mais certa de lançar bombas de pensamento no território inimigo. Os panfletos da Coréia do Sul divulgavam sua crescente riqueza, enquanto o Norte alfinetava o Sul como buscando proteção das forças armadas americanas "imperialistas".

Ambos os lados prometiam aos desertores dinheiro, casas, medalhas e mulheres.

Jin, um ex-professor de inglês, abriu seu museu de 200 metros quadrados em uma escola abandonada em 2005 para ajudar a atrair turistas para sua cidade, Chongson, antes um importante centro de mineração, mas agora praticamente esquecida. Dentro do espírito do declínio da cidade, Jin coleciona e exibe diariamente itens do passado recente que agora está desaparecendo da memória das pessoas: brinquedos à moda antiga, baralhos, discos -e panfletos de propaganda.

Ele comprou os panfletos de ex-policiais -entre as poucas pessoas autorizadas a mantê-los durante a Guerra Fria- assim como de coletores de ervas que às vezes ainda encontram velhos panfletos enterrados sob as folhas e de outros colecionadores que os anunciam na Internet.

Jin chamou a exposição de panfletos, que foi aberta em abril, de "Memórias da Propaganda". Ela também inclui alguns panfletos lançados pelos Estados Unidos durante a guerra. Historiadores estimam que aviões americanos espalharam 2,5 bilhões de panfletos.

ALFINETADAS DE PAPEL
Seokyong Lee/The New York Times
Panfleto norte-coreano de 1991 mostra, acima, o então embaixador dos EUA Donald P. Gregg em posição dominante ao então presidente sul-coerano Roh Tae-woo; abaixo, Kim Young-sam, que viria a se tornar presidente em 1993
A Coréia do Norte acabou fornecendo um exemplo oportuno do que a exposição se trata. No momento em que Jim abria sua exposição de três meses, a Coréia do Norte encerrou uma suspensão de oito anos de seus ataques verbais, disparando contra o recém empossado presidente Lee, que prometeu assumir uma posição mais dura contra a Coréia do Norte.

"Até mesmo a cabeça cozida de uma vaca morta cairia na gargalhada contra ele -riria tanto que seu focinho quebraria", disse o jornal estatal do Norte, "Rodong Sinmun", desdenhando a promessa do presidente Lee de não fornecer ajuda econômica ao Norte até que o país abandone suas armas nucleares. "Ele precisa assoar seu próprio nariz sujo antes de se preocupar com os problemas dos outros.

Os propagandistas norte-coreanos freqüentemente usam provérbios coreanos ou personagens folclóricos quando zombam do inimigo; o comentário da vaca é baseado em um antigo ditado coreano. Há poucos anos, quando Washington criticou seu programa de armas nucleares, a Coréia do Norte desdenhou a queixa como sem conseqüências com outro velho ditado: "Os cães latem, mas a caravana prossegue".

Quando os líderes das duas Coréias realizaram seu primeiro encontro de cúpula em 2000, eles concordaram em suspender os ataques. O Norte continuou criticando o Sul, mas em termos relativamente brandos. Ainda não se sabe se os recentes ataques estridentes contra o presidente Lee representam uma acesso de fúria isolado ou a retomada da guerra de palavras.

Durante uma recente visita ao museu, Jim disse que os panfletos mostravam como a Coréia do Norte usava a linguagem como "instrumento de violência", acrescentando: "Eles capturam a Guerra Fria muito bem".

Assim como os panfletos sul-coreanos, que apresentam termos claros. Uma mostra soldados comunistas sendo baleados ao tentarem invadir o Sul. Outros se gabam dos milagres do capitalismo, mostrando sul-coreanos passando férias nas praias e anunciando o número de carros produzidos no Sul.

Mas os panfletos nem sempre produziram o efeito desejado.

"No meu caso, a linguagem violenta dos panfletos norte-coreanos me tornou um verdadeiro anticomunista", disse Jin.

Lee Min-bok, um cientista norte-coreano que desertou para o Sul em 1995, disse que ficou chocado com a imagem de uma mulher nua em um panfleto sul-coreano que ele viu enquanto estava no Norte.

"Eu fiquei corado", disse Lee. "Você nunca veria uma coisa dessas na Coréia do Norte. Mas também reforçava nossa doutrinação de que os sul-coreanos eram capitalistas depravados." Ainda assim, o choque não foi suficiente para impedi-lo de seguir para o sul com milhares de outros norte-coreanos que fugiam da fome e da repressão política.

Quando os dois governos concordaram em parar com a propaganda por rádio e manter seus balões em terra em 2000, a Coréia do Sul tinha mudado significativamente; então autoconfiante, ela já tinha desistido de outras práticas da Guerra Fria. Enquanto a Coréia do Norte ainda mexe em todos os rádios para que as pessoas só recebam as transmissões do governo, o Sul suspendeu sua proibição de escutar as transmissões comunistas no final dos anos 90.

Os lançamentos de panfletos do Sul continuam, mas agora são obras de indivíduos. Jin disse que os panfletos de propaganda dos velhos tempos se tornaram itens de colecionador, sendo negociados por até US$ 200 cada. Como era ilegal possuí-los, eles são escassos.

"Eles estão para os coreanos como pedaços do demolido Muro de Berlim estão para os alemães", ele disse. "São escombros da Guerra Fria." UOL

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