Havana: pode uma panela de arroz elétrica ser revolucionária?

De Marc Lacey

Lá estavam elas, empilhadas umas sobre as outras: panelas de arroz elétricas feitas na China vendidas por US$ 70 cada. Ao lado delas, DVD players novinhos. Por toda a loja de eletrônicos havia computadores, televisões e outras utilidades domésticas que o presidente Raúl Castro recentemente decretou que deveriam estar disponíveis para todos os cubanos, ou pelo menos para aqueles que conseguirem comprá-los.

Desde que finalmente sucedeu seu irmão doente de 81 anos Fidel em fevereiro, Raúl Castro, 76, que apareceu diante de centenas de milhares de cubanos durante um comício de 1º de maio na quinta-feira na capital do país, tem estado ocupado com uma série de mudanças. Nas últimas oito semanas, ele também permitiu o acesso dos cubanos a telefones celulares, retirou os impedimentos para que os cubanos usassem hotéis turísticos, e garantiu aos fazendeiros o direito de administrar terras improdutivas para obter lucro.

Jose Goitia - 30.abr.2008/The New York Times 
Pessoas aguardam para entrar em loja de celulares, em Havana, no fim de abril


Há mais novidades no horizonte, dizem autoridades do governo, como tornar mais flexíveis as restrições para viajar ao exterior e a possibilidade de permitir aos cubanos comprar e vender seus próprios carros, e talvez até suas casas.

Cada uma dessas mudanças pode parecer microscópica em comparação com os enormes problemas que Cuba enfrenta. Mas somadas, estão chacoalhando esse lugar estóico, parado no tempo.

O quanto Raúl está disposto a mexer no país que seu irmão deixou para ele e o que ele está usando como manual de instruções, se é que há algum, ninguém sabe ao certo. As tentativas de Mikhail Gorbachev de revigorar o sistema soviético doente levaram ao seu colapso e ao abandono de Cuba. Mais inspiradoras são a mistura de consumismo e política autoritária pragmática que incitaram o crescimento e deram nova força aos governos dos Partidos Comunistas da China e do Vietnã.

A China é hoje o segundo maior parceiro comercial de Cuba, e o Vietnã é um dos primeiros países que Raúl disse que quer visitar, apesar de ainda não haver uma data marcada.

Os líderes dos dois países visitaram Cuba no ano passado e tiveram reuniões exclusivas com os dois irmãos Castro. Os analistas de Cuba dizem que Raúl Castro, como ministro da defesa durante um longo tempo, manteve laços estreitos com os militares dos dois países e tem auxiliares próximos que os conhecem bem.

"Esse é o modelo asiático", definiu Robert Pastro, professor de relações internacionais na Universidade Americana. "Ainda assim, os sinais que ele está mostrando são tão tênues e tão hesitantes que não está claro onde ele quer levar Cuba ou em que direção Cuba irá."

Marifeli Perez-Stable, vice-presidente do departamento de governança democrática no grupo de análises políticas Diálogo Inter-Americano diz: "Ele nunca irá dizer. Talvez ele mesmo nem saiba. Mas está seguindo a China, e mais ainda o Vietnã", indicando que Raúl está aderindo a uma abordagem mais lenta.

Assim como nos outros dois países, a liberdade econômica é uma coisa, e a liberdade política é outra. Em relação a esta última, o governo de Cuba já deu todos os sinais de que sua intenção é manter as coisas como estão.

As primeiras mudanças de Raúl já revelaram uma realidade desconfortável, e potencialmente desestabilizadora, num país que foi governado durante 50 anos por um dos sistemas socialistas mais rígidos do mundo: de que alguns cubanos estão numa situação bem melhor do que outros, seja por causa da remessa de dinheiro de parentes que vivem no exterior, ligações com a classe governante ou negócios paralelos ilegais.

Por enquanto, seu governo parece disposto a aceitar essas disparidades, tolerando a noção de diferentes classes enquanto continua apegado à visão cubana de socialismo que inclui subsídios para alimentos, educação gratuita e assistência médica para todos, dizem os aliados de Raúl no governo.

Se essa abordagem será satisfatória para os cubanos, que rapidamente estão ficando mais conscientes de sua relativa privação de consumo, é outra questão. Uma panela de arroz elétrica custa mais de três vezes o salário médio mensal do país. As conversas nas ruas, longe das filas de pessoas comprando coisas que até então não eram disponíveis, revelam descontentamento.

Javier, programador de computadores de 25 anos de idade, decidiu mudar de Cuba para a Califórnia assim que puder. "Convenhamos, essas mudanças são apenas a favor de uma parcela muito pequena da população", disse, sentado sobre um muro à beira-mar no litoral de Havana, olhando o oceano.

"Nós, que acordamos cedo de manhã para pegar o ônibus, que nos sacrificamos, não podemos comprar essas coisas", acrescentou. "Eu adoraria ir para um hotel de luxo com minha namorada por uma noite ou duas. Mas, veja, simplesmente não posso. Não tenho dinheiro para isso. Nem em sonho."

Mesmo para aqueles que podem, é uma viagem a um outro mundo que era tudo menos sem-limites há algumas semanas atrás.

O RITMO DAS MUDANÇAS
Jose Goitia/The New York Times
Raúl Castro acena durante comemorações do 1º de maio em Cuba, que também teve mudanças: o evento, que duraria horas com o tradicional discurso de Fidel, terminou em menos de duas horas
Há alguns dias, uma jovem levou 20 minutos para entrar num quarto de hotel em Havana, forçando sua chave eletrônica sem cuidado e empurrando a porta com toda a força. Mas ela pode ser desculpada, já que era a primeira vez que usava esses sistema. No caso, foi o seu namorado estrangeiro que havia pago a conta de US$ 175 por noite.

"Sempre existiram classes diferentes, mas agora elas estão mais visíveis", explicou María Ileana Faguaga, antropóloga de Havana que estuda a população negra e suas dificuldades em Cuba. "Agora basta olhar para quem tem um telefone celular."

Um motorista de táxi dirigindo pelo Malecon -o pitoresco muro ao longo do mar da Baía de Havana- que como a maior parte dos cubanos é pago pelo Estado, tirou um Nokia do bolso essa semana. "Esse aqui tem câmera e bluetooth", disse, vangloriando-se por ter sido um dos primeiros na fila quando Raúl pôs fim às restrições de consumo recentemente.

"O que você acha do Sony Ericsson?", perguntou o motorista, explicando que ele estava pensando em trocar por um mais novo em algum momento. Ele tinha muitas perguntas. É verdade que a Motorola está passando por dificuldades? Será que o iPhone funciona em Cuba?

O modelo de Raúl, que o jornal comandado pelo governo chamou de "socialismo mais perfeito", parece ser uma Cuba com uma correlação maior entre o trabalho que alguém faz e a recompensa resultante.

Um dos movimentos mais amplos de Raúl Castro talvez seja seu anúncio de dar aos fazendeiros o direito de administrar terras improdutivas para obterem lucro. Cuba gastou US$ 1,4 bilhão na importação de alimentos no ano passado e, como resultado do aumento dos preços dos alimentos, gastará US$ 1,9 bilhão este ano para comprar 20% a menos, o que as autoridades consideram uma situação insustentável.

Descartanto a prática há muito estabelecida de ditar as decisões sobre plantio desde Havana, o governo permitirá um controle local maior, dizem as autoridades, e provavelmente o cultivo doméstico de alimentos.

Mas e quanto aos que não são fazendeiros? Será que Raúl está disposto a expandir os experimentos de seu irmão mais velho permitindo que alguns restaurantes privados e casas com quartos para alugar voltem a funcionar? E quanto a permitir mecânicos de automóveis privados, cabeleireiros e tutores, que existem hoje em Cuba na ilegalidade?

Washington desconsiderou as medidas como insuficientes para o tipo de mudanças estruturais que Cuba necessita. "Acho triste que depois de 29 anos de sofrimento, repressão e falta de produtos, o goveno permita apenas que as pessoas comprem uma panela de arroz", disse Carlos Gutierrez, secretário de comércio, cuja família fugiu de Havana em 1960 quando ele tinha 6 anos. "Nossa leitura é de que esses movimentos são uma tática para ganhar mais tempo."

No que diz respeito a soltar verdadeiramente o poder da mão da elite, de fato, Raúl Castro não cedeu muito terreno. Ele encorajou os cubanos a apresentarem suas críticas sobre a forma como as coisas funcionam, apesar de insistir que a forma mais adequada para isso é através dos canais do Partido Comunista.

Quando um grupo de mulheres cujos parentes foram presos fez uma manifestação recente do lado de fora do escritório de Raúl, uma equipe de policiais femininas de cara fechada apareceu imediatamente para impedir as "damas".

"Quando os problemas são maiores, é necessário mais ordem e disciplina", disse Raúl aos líderes do partido recentemente, anunciando que ele iria convocar o primeiro congresso do partido em 12 anos na segunda metade de 2009. "Para isso, é vital fortalecer as instituições."

Raúl Castro comutou as sentenças de morte de um número indeterminado de prisioneiros esta semana, apesar de o movimento ter sido considerado uma medida paliativa pelos ativistas que querem o fim da perseguição às pessoas que falam contra o governo.

"As coisas estão mudando mas tudo continua igual", diz Elizardo Sanchez, ativista da Comissão de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional em Cuba, que vê pouca diferença substancial entre os governos linha-dura dos dois irmãos Castro.

Mesmo que Raúl tenha como objetivo imitar as reformas no estilo chinês, não há garantias de que vai ter sucesso. No início da abertura chinesa, Deng Xiaoping desmantelou o culto à personalidade de Mao, permitindo uma medida de relaxamento político que assinalou uma transição nas atitudes oficiais.

"Será possível para Raúl Castro transpor o culto à personalidade de seu irmão Fidel, que está na mesma linha de Mao?" pergunta Michael Green, ex-especialista em Ásia do governo Bush que trabalha no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington.

Cuba pode acabar se transformando numa Coréia do Norte, que fez reformas orientadas para o mercado em 2002 que trouxeram poucas mudanças nas rígidas condições do país, disse Grin.

Também há muita ansiedade em Cuba. Uma mulher que identificou-se apenas como Íris, comprou um telefone celular Nokia com a ajuda de seu namorado italiano mas agora não tem dinheiro para comprar créditos para o telefone. Quando compra os créditos, sente-se culpada porque o dinheiro poderia ser usado para alimentar seu filho. O que ela mais quer, em vez de qualquer item de consumo, é um emprego bem pago que a permitisse comprar esses produtos, disse. Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos