Rússia é o mercado de automóveis mais quente do mundo

Christine Tierney
Do The Detroit News
Em Shushary, Rússia

A nova fábrica ainda não concluída da General Motors Corp. nos arredores lamacentos de São Petersburgo não produzirá seu primeiro veículo até novembro, mas os novos contratados russos já estão trabalhando duro.

Num depósito próximo à entrada da fábrica, homens e mulheres jovens fazem furos em contêineres de madeira do tamanho de carros, pintam as peças com spray e soldam folhas de metal dentro do tempo esperado para realizar cada tarefa. Quando a produção começar, espera-se que eles sejam rápidos o suficiente.

Do outro lado da rua, a Toyota Motor Corp. Já está produzindo Camrys em uma nova fábrica para suprir a demanda por carros na Rússia, enquanto a Ford Motor Co. considera construir sua segunda fábrica no país.

"O mercado cresceu numa velocidade muito mais rápida do que imaginamos", disse o presidente da GM, Frederick Henderson. "Estamos vendo todos os nossos competidores internacionais dando duro na Rússia."

Em todo o arredor de São Petersburgo, os maiores fabricantes de veículos do mundo estão construindo suas fábricas. Hyundai Motor Co. começará a construir uma no mês que vem, a Nissan Motor Co. espera abrir uma fábrica de US$ 200 milhões no ano que vem, e a Ford está expandindo sua fábrica de US$ 230 milhões pela terceira vez em seis anos.

Impulsionada por uma alta nos preços do petróleo, a Rússia se transformou no mais quente entre os mais quentes mercados emergentes do mundo - países em que os fabricantes de automóveis capazes de fornecer os modelos apropriados ganham muito dinheiro, principalmente nos estágios iniciais do boom quando a demanda supera em muito a oferta.

Durante os últimos cinco anos, as vendas de carros triplicaram. Em 2010, muitos prevêem que a Rússia irá ultrapassar a Alemanha e se tornar o maior mercado de automóveis da Europa, com vendas superiores a 4 milhões de veículos.

"Não há sinais de que isso vá desacelerar", diz Carlos Ghosn, CEO da Renault SA e Nissan. A demanda por petróleo e outros materiais brutos dos quais a Rússia tem vastas reservas não deve diminuir, diz ele.

Conforme os preços do petróleo subiam a níveis recordes, a economia da Rússia decolou. Seu produto interno bruto quadruplicou desde 2000. O país que antes apoiava a igualdade econômica, agora conta com o segundo maior número de bilionários, liderados pelo magnata da indústria metalúrgica e automobilística Oleg Deripaska. Nas largas avenidas de Moscou e São Petersburgo, lojas cintilantes de Yves Saint Laurent e Gucci substituíram as cinzentas lojas soviéticas com suas prateleiras vazias.

Enquanto a China e outras economias emergentes estão evoluindo rápido, a velocidade da transformação russa pegou as pessoas de surpresa. "Sabíamos que o poder aquisitivo havia aumentado e que o desejo dos consumidores era começar a comprar os produtos que o resto do mundo estava comprando", diz Lewis Booth, presidente da Ford da Europa.

"O que é único na Rússia é que com o boom das commodities, a economia se fortaleceu muito rápido. Isso foi algo que não previmos quando começamos a investir na Rússia."

Para fabricantes como Ford, GM, Toyota e Nissan, que estão lutando para aumentar as vendas em seus saturados mercados domésticos, as economias emergentes representam grandes oportunidades numa época de desafios.

Na Rússia, muitos novos compradores passeiam pelas concessionárias. Enquanto nos Estados Unidos há cerca de 800 veículos para cada mil habitantes, na Rússia a proporção é de 190 veículos para cada mil pessoas.

Diferente dos compradores de outras Brics - sigla para os mercados emergentes de Brasil, Rússia, Índia e China - os russos preferem os carros grandes que geram lucros maiores para os fabricantes.

"É um país grande com muitas estradas boas e as pessoas são grandes, então o mercado tem preferências muito parecidas com o mercado americano", diz Shinichi Sasaki, diretor administrativo sênior da Toyota que já trabalhou na Europa.

"Vender carros (estrangeiros) era ilegal"
Os fabricantes de automóveis internacionais têm sido os principais beneficiados com o aumento da demanda que começou há cinco anos e acelerou com o crescimento nos salários e com a disponibilidade de crédito bancário. As marcas estrangeiras somam 64% dos 2,6 milhões de carros e veículos leves vendidos na Rússia no ano passado, muito acima dos 22% em 2003.

"Há vinte anos, vender carros era ilegal", diz Chris Lacey, diretor executivo de vendas da GM no leste e centro da Europa. "Havia apenas companhias de automóveis estatais."

Muitas dessas companhias foram privatizadas nos anos 90 depois do colapso do sistema comunista. Deripaska hoje é dono da segundo maior fábrica de automóveis russa, a GAZ. Mas as fábricas russas são inferiores em qualidade e tecnologia, e estão perdendo consumidores para as marcas internacionais.

Num dia ameno de março, o empreiteiro Sergey Erofeev estava inclinado a comprar um Hummer H3 que custava a partir de US$ 50 mil na concessionária Laura Ozerki em São Petersburgo.

"É confortável, silencioso e, por causa da taxa de câmbio baixa, não será caro de mantê-lo", disse Erofeev, 40. Ele fez test-drive de vários SUVs e também gostou do Toyota Prado, mas disse que o seguro é mais caro porque é um carro que tem mais possibilidades de ser roubado.

A GM oferece uma variedade de modelos na Rússia, das marcas Hummer, Cadillac, Opel, Saab e Chevrolet. No ano passado, a Chevrolet tornou-se a marca estrangeira mais vendida na Rússia, passando a Ford, que foi atingida por uma greve em sua fábrica no outono passado.

Os executivos da GM esperam expandir sua fatia de mercado com os modelos montados pela fábrica de Shushary. Ela inicialmente vai produzir as SUVs Chevrolet Captiva, e no ano que vem lançará um novo carro baseado na arquitetura de carros compactos da GM.

"O mercado russo é atraente para nós, não somente em termos do crescimento dos ganhos, mas também em termos de potencial de lucro", diz Henderson.

Além disso, a Rússia serve como um mercado de teste para os fabricantes de veículos consagrados que pela primeira vez estão competindo de frente contra os fabricantes chineses como a Chery Automobile em um mercado grande fora da China.

Por enquanto, os chineses não representam uma grande ameaça. Os negociantes russos e executivos da indústria automobilística criticam a qualidade e a segurança dos veículos chineses, ressaltando a performance desastrosa de alguns modelos chineses nos testes de acidentes europeus.

No que diz respeito às características de segurança, se os clientes não perguntam, "nós não nos dispusemos a explicar nada", diz o revendedor da Chery Evgeny Voytenkov.

Mas, diz ele, os chineses estão melhorando rapidamente. A Chery agora compete com os Lada, com alguns veículos Chevrolet de design coreano e com os modelos Logan de baixo custo da Renault. "Mas no ano que vem ou no próximo eles já estarão abocanhando marcas melhores", diz Voytenkov.

"Hoje temos um Chery Tiggo adaptado de tração nas quatro rodas que parece um RAV4" fabricado pela Toyota.

Nesse mercado extremamente competitivo, as marcas mais vulneráveis são as russas, Lada da Avto VAZ, Volga da GAZ e uma série de fabricantes menores.

"As marcas russas não se beneficiaram com a evolução tecnológica dos últimos 15-20 anos na indústria automobilística", diz Stanley Root, sócio da PricewaterhouseCoopers Rússia em Moscou. "Seus carros não são tecnologicamente avançados. Esse é um dos problemas."

Acuados entre os grandes e endinheirados fabricantes internacionais e os agressivos fabricantes chineses, a AvtoVAZ e a GAZ estão buscando parcerias para ajudá-las a sobreviver.

Para os russos, orgulhosos de suas façanhas no campo da pesquisa espacial e das armas no passado, a confiança na fabricação automotiva estrangeira parece desestimulante.

No ano passado, quando repórteres canadenses perguntaram ao dono da GAZ Deripaska, 40, sobre seu investimento no fornecedor Magna International Inc., de Toronto, ele lembrou as repórteres sobre a habilidade russa.

"Ele disse: 'Por favor, não se esqueçam que a Rússia foi o primeiro país a lançar um homem ao espaço, não o segundo'", disse Leonid Dolgov, líder da divisão de carros da GAZ. "Esse é o espírito de nossa companhia."

Rivalidade global ataca localmente
A concorrência vai se intensificar na Rússia conforme novas fábricas produzem mais veículos localmente para evitar as tarifas de importação.

A Suzuki Motor Corp. planeja construir uma fábrica próxima as da GM e Toyota nos arredores de São Petersburgo.

Esta semana, a japonesa Mitsubishi Motors Corp. E a PSA Peugeot Citroën da França disseram que irão produzir veículos em parceria na Rússia. A Chrystler LLC está explorando possibilidades de produção local para aumentar suas vendas até agora pouco consideráveis na Rússia.

Em 2010, os fabricantes estrangeiros terão capacidade de produzir 1 milhão de veículos na Rússia, de acordo com a consultoria Roland Berger Strategy Consultants.

Bancos de investimento já estão lançando alertas de saturação, mas os riscos parecem distantes para os executivos que correm para deixar as novas fábricas em pé e funcionando.

Além de São Petersburgo, há três outros grandes centros automotivos na Rússia: nos arredores de Moscou, onde a Volkswagen AG recentemente abriu uma fábrica e a Renault produz os veículos Logan, e mais ao leste em Tatarstan e em Toglitatti. Uma cidade industrial à margem do rio Volga, Togliatti é a terra natal da maior fabricante de automóveis russa, a Avto VAZ.

Mas muitos fabricantes estrangeiros são atraídos por São Petersburgo, uma cidade grande construída no século 18 pelo czar Pedro, o Grande. Seus principais atrativos são as rotas de transporte - um porto no mar Báltico e ferrovias - além da política favorável aos negócios de Valentina Matviyenko, governadora de São Petersburgo escolhida pelo ex-presidente e hoje primeiro-ministro Vladimir Putin.

"Se você tem problemas que precisa resolver, há uma organização no governo de São Petersburgo que o ajuda com esses problemas, sejam eles relativos às estradas, logística ou serviços", diz Rick Swando, diretor da fábrica da GM em Shushary.

A cidade tem um setor aeroespacial grande, institutos técnicos de ponta e uma mão-de-obra bem qualificada.

"Vejo muitos talentos aqui", diz Swando, veterano da GM que já trabalhou na China e outros mercados em desenvolvimento. "As pessoas estão prontas para crescer, e os problemas são resolvidos muito rapidamente. Você não ouve muitas queixas e reclamações."

Se em sua terra natal a GM e a Ford são vistas como dois gigantes em batalha forçados a recuar, os russos vêem as duas companhias como fortes líderes mundiais.

Em um centro de recrutamento de trabalhadores na Ilha de Vasilievsky em São Petersburgo, Victor Smirnov, 30, está se candidatando para trabalhar na GM de Shushary. Casado e com dois filhos, ele quer um apartamento maior e um emprego estável. "Entre os empregadores, a GM parece ser o mais atrativo", disse, traduzido por um intérprete.

Os salários são bons, e, além disso, "companhias instáveis não abrem fábricas em lugares tão remotos quanto a Rússia", diz Smirnov. "Quero um emprego estável."

Depois de um século de dificuldades e privação, muitos russos são gratos pela estabilidade e o crescimento que aconteceram durante o governo de Putin, com a ajuda do aumento nos preços do petróleo.

Mas a Rússia também se tornou mais autoritária, com um governo disposto a empregar táticas rudes para intimidar seus críticos e dissidentes.

Alguns economistas se preocupam com a dependência russa dos produtos primários, a velocidade da diversificação econômica e a distância cada vez maior entre pobres e ricos. Mas essas preocupações não impediram o fluxo de investimento na Rússia.

"Sempre existe a preocupação em relação à estabilidade do crescimento econômico. Sempre nos preocupamos com isso", diz Booth. "Todos os paísses têm seus desafios."

A natureza conflituosa do capitalismo russo se reflete no comércio vibrante de limusines super luxuosas - e veículos blindados, como o modelo de sedã ultra-seguro série 7 da BMW.

"Quem dirige esse carro", disse em março o ex-chefe de vendas da BMW Stefan Krause, "está protegido até de um míssil."

Em Shushary, os gerentes da GM estão lutando com um tipo de ameaça diferente: o terreno da fábrica, que é vizinho de uma floresta de bétulas, está infestado de cobras venenosas. Agora eles têm um estoque de soro na fábrica, mas não há muito mais que se possa fazer, diz Swando. "É a casa delas também."

A fábrica está aos poucos tomando forma: os engenheiros estão instalando equipamentos de montagem e oficinas, enquanto a área de pintura está quase completa.

A fábrica vai inicialmente produzir 70 mil veículos por ano, mas a GM deixou espaços grandes para fazer mais linhas de montagem. Quando seus altos executivos viram o projeto da fábrica, diz Swando, "disseram: vamos planejar para a curva de crescimento". Agora, ela está quase na vertical. Fabricantes de automóveis estrangeiros lucram com a explosão da demanda de carros novos na Rússia Eloise De Vylder

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