O desafio mais imediato de Obama: conquistar o eleitorado feminino

Carla Marinucci
Do San Francisco Chronicle

A despedida final da senadora Hillary Rodham Clinton da fase das eleições primárias democratas de 2008, no próximo sábado, conferirá oficialmente ao seu rival por tantos meses, o senador Barack Obama, o papel de astro incontestável do Partido Democrata no drama da eleição presidencial.

Mas ela ainda detém a chave para a superação do maior desafio de Obama - a conquista dos leais apoiadores de Hillary Clinton, incluindo milhões de eleitoras que continuam resistindo, ou até mesmo demonstrando hostilidade, à candidatura do senador.

"Não sei se o processo será fácil e simples", diz Simon Rosenberg, diretor do New Democrat Network, um poderoso grupo partidário democrata com sede em Washington. "Ele terá que trabalhar arduamente, e é necessário abordar com entusiasmo a base eleitoral de Hillary Clinton.
Não é um processo automático".

O prefeito de San Francisco, Gavin Newsom, que apoiou abertamente a senadora de Nova York em Iowa e nas pequenas cidades de Indiana, falou na quinta-feira (05/06) sobre a prudência que será necessária nos próximos dias, quando os seguidores de Hillary Clinton - alguns dos quais dedicaram mais de um ano à causa dela - assimilarem a realidade. "Todos passarão por uma fase de luto. Vai levar algum tempo para que se recuperem", afirma Newsom.

Newsom diz que que aceitou e endossou Obama como candidato democrata na noite da última terça-feira, quando o senador obteve o número de candidatos necessário para ser o indicado pelo partido. Newsom prometeu fazer campanha para o senador de Illinois quando e onde este precisar.

Mas Newsom adverte que muitos democratas terão dificuldade em abandonar a crença forte e ardente de que Hillary Clinton, a primeira pessoa do sexo feminino a disputar com chances a vaga de candidata à presidência, "poderia modificar o paradigma da política norte-americana".

"Para os eleitores de Hillary Clinton é muito difícil aceitar que desta vez chegamos muito perto, mas não conseguimos", diz ele. "Sendo assim, para fazer com que eles embarquem na candidatura democrata, será preciso muita sensibilidade e comunicação por parte de Barack Obama".

Ao ser entrevistado por Candy Crowley, da CNN, na quinta-feira, Obama deu a impressão de estar preparando a sua estratégia para a campanha da eleição geral - tendo como alvo nítido o eleitorado feminino de Hillary Clinton.

"Para aquela mulher de 45 anos que tenta encontrar uma forma de mandar os filhos para a faculdade, eu tenho um plano para tornar o ensino superior mais acessível", disse ele a Crowley. "Mas John McCain não tem".

"Para aquela mulher de 45 anos que busca uma maneira de pagar as contas do seguro saúde, eu tenho um plano para oferecer-lhe este seguro, se ela ainda não é segurada, e para reduzir as mensalidades, se ela já conta com cobertura", declarou Obama. "Já John McCain basicamente apresentará reduções tributárias, o que poderá fazer com que o patrão dessa mulher deixe-a sem nenhum tipo de seguro saúde".

"E eu direi àquela mulher de 45 anos que teremos nomeações para a Suprema Corte. Eu e John McCain temos filosofias muito diferentes quando se trata de quem deve ocupar tais cargos, e questões críticas como o direito da mulher à escolha estarão em jogo".

Além disso, Obama expressou confiança em que as divisões serão superadas. "Todos precisam apenas esfriar a cabeça", disse ele.

O professor James Taylor, que leciona política e história afro-americana na Universidade de São Francisco, afirma: "Conquistar o eleitorado feminino é um desafio concreto. Para muita gente o dia em que Hillary Clinton anunciar a sua desistência será muito triste, já que uma geração inteira de mulheres achava que seria possível, durante as suas vidas, ver uma mulher comandar os Estados Unidos".

"Muitas feministas acreditam que Hillary Clinton foi alvo de um sexismo implacável durante a campanha - como, por exemplo, quando ela foi acusada de ser "estridente" e de se concentrar excessivamente nas suas roupas e emoções -, e eles estão propensos a culpar Obama por isto", explica Taylor. "As mulheres terão que perdoar. Elas precisarão perguntar a si mesmas: estamos mais furiosas agora do que estávamos quando George Bush foi reeleito em 2004? Ainda que Barack Obama não seja responsável pelo sexismo enfrentado por Hillary Clinton, muita gente que o apóia sem dúvida utilizou este tipo de tática. Portanto, trata-se de um momento de reflexão para os norte-americanos em geral".

O estrategista democrata Garry South argumenta que as eleitoras de Hillary Clinton acabarão percebendo que não podem usar ninguém como bode expiatório pelos fracassos da candidata.

"Sugerir, de alguma forma, que ela perdeu por ser mulher, ou porque entrou em cena um punhado de fatores nefastos, é algo de ridículo", diz ele. "Ela teve a indicação ao seu alcance, e cometeu erros sérios de ordem estratégica que fizeram com que perdesse a vaga".

Embora neste momento não haja planos para que Obama e Hillary apareçam juntos, muitos democratas acreditam que, para superar a divisão, será necessário um trabalho das duas equipes.

"Obama deveria fazer contato pessoal com vários doadores e apoiadores leais de Hillary Clinton, porque ele precisa dizer que admira o trabalho e o fervor da senadora, e que compartilha os mesmos valores", diz Newsom.

O prefeito de São Francisco diz esperar que haja uma "rodada de reconciliação" dos dois candidatos, que poderiam enviar uma mensagem unificada ao abordarem as bases eleitorais, injetar entusiasmo e ajudar a fornir os cofres do partido viajando a meia dúzia de Estados democratas fundamentais.

Rosenberg, do grupo New Democrat Network, diz que muita gente estará observando se Hillary demonstrará a vontade de fazer tal investimento no sucesso de Obama.

"A próxima pergunta é: Hillary Clinton ajudará a segurar o timão da campanha democrata?", diz Rosenberg. "O apoio agressivo da senadora fará a diferença. E ela reconhece que, se não apoiar Obama, será responsabilizada por uma derrota do partido".

Rosenberg afirma que as viagens de Hillary Clinton a Estados-chave como Flórida, Ohio, Texas, Califórnia e Indiana, nos quais ela venceu, poderá enviar a seguinte mensagem ao eleitorado: "O que está em jogo é algo muito grande. John McCain é inaceitável para os democratas".

Amigos de longa data de Hillary Clinton dizem ter certeza de que a ex-primeira-dama trabalhará - como faz com freqüência - em favor do partido.

"Ela é uma pessoa compassiva. Não é vingativa - e quem a conhece sabe que ela apoiará a candidatura democrata. Não há dúvida quanto a isso", diz a amiga de longa data de Hillary Clinton, Martha Whetstone. "Ela sabe que precisa embarcar nesta campanha". UOL

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