Deixando o lar para fugir de um pesadelo

Por Neil MacFarquhar
Em São José, Califórnia

Murtaja Kamal Aldeen, refugiado iraquiano de 26 anos de idade, não recita mais os versos de abertura do Corão, o Fatiha, ao sair de seu modesto apartamento com quintal.

Em sua família, todos recitavam o Fatiha toda vez que saíam de casa em Bagdá, diz ele, assegurando-se de que, se morressem em meio à violência da cidade, a prece tradicional pelo seu corpo morto já teria sido feita.

Mas agora, Aldeen, um homem magro, sério, de estatura mediana, diz que não precisa mais do verso reconfortante.

heo Rigby/The New York Times/02.2008
Como outros muitos refugiados, Aldeen fugiu da violência sectária de Bagdá
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Ele está se adaptando à sua nova terra natal, os Estados Unidos. Tem um número de previdência social e uma carteira de motorista; assiste bastante a "Oprah" e "Seinfeld"; acabou de descobrir como navegar nos anúncios de emprego online e conseguiu um trabalho de salário mínimo em uma cadeia de eletrônicos local.

Morando num quarto desocupado na casa de um tio idoso, Aldeen, como muitos refugiados, vive numa montanha russa emocional. Alguns dias ele vive a euforia de ter escapado do pesadelo; em outros, mergulha na tristeza de ter deixado sua família, e tudo o que é familiar, para trás.

"Sinto-me sozinho", disse ele numa lanchonete recentemente. "Preciso de amigos; preciso de amigos americanos. Talvez daqui a dez anos, ou mesmo daqui a cinco anos, terei a vida que sempre sonhei - vivendo bem, em segurança, com toda minha família em um ambiente saudável."

Aldeen é apenas um entre os 4.742 refugiados iraquianos que o governo Bush acolheu nos Estados Unidos desde outubro de 2007 - escolhido porque ele trabalhava para uma organização americana e porque considerava-se que sua vida corria perigo. Muitos dos empregados da companhia foram seqüestrados. O governo reservou 12 mil vagas para refugiados iraquianos esse ano. Mas tem se demorado a preenchê-las. Os críticos consideram o programa mísero, principalmente porque foram os Estados Unidos que deram início ao caos que fez com que cerca de 1,5 milhão de iraquianos fugissem do país, sobretudo para a Síria e a Jordânia, onde eles freqüentemente enfrentam dificuldades para sobreviver

O governo norte-americano tem reputação de ser avarento com os refugiados em comparação com a Suécia, por exemplo, que garante benefícios vitalícios aos recém-chegados. Aldeen, por contraste, tem direito a cerca de US$ 400 por mês durante quatro meses, além de US$ 100 em selos postais. Ele paga US$ 375 por mês para seus tios pelo quarto e comida. Não tem dinheiro para se mudar dali, diz. Na verdade, não tem dinheiro para quase nada. Um dentista ofereceu a Aldeen a oportunidade de um estágio em sua clínica em São Francisco, mas depois de gastar US$ 15 em passagens de trem para sair de São José por dois dias seguidos, ele percebeu que o gasto iria acabar com sua pouca renda.

Aldeen desembarcou em São José pouco antes da meia-noite de 25 de fevereiro, vindo de Amã, na Jordânia, onde ele havia vivido por dois anos. Todas as suas roupas cabiam em duas malas grandes, marcadas com fita adesiva cor-de-laranja que diziam "pesado". Entre elas havia quatro ternos, dois casacos e muitas blusas de lã. Ele dá risada disso agora, já que não usou quase nada no clima ameno de São José. Mas o iraquiano havia formado uma imagem mental dos Estados Unidos coberto de neve no inverno, alimentada por um documentário que ele viu uma vez na televisão árabe via satélite que dizia que uma névoa gelada cobria os arredores de São Francisco durante o ano inteiro.

Aldeen disse ter se sentido imediatamente em casa ao chegar ao Kennedy International Airport. Os oficiais da imigração sorriram para ele, diz maravilhado. O JFK fez com que ele se lembrasse de Bagdá - antes da guerra, certamente.

Há alguns anos, os sonhos de Aldeen não incluíam emigrar para os Estados Unidos. Ele tinha uma vida boa no Iraque e antecipava um futuro brilhante, graduando-se na escola de odontologia da Universidade de Bagdá em 2005. Mas isso nunca se realizou, uma vez que seus professores foram assassinados um após o outro e o próprio Aldeen enfrentou cada vez mais ameaças.

Ele era um muçulmano xiita morando numa área predominantemente sunita, e trabalhava meio período coordenando eventos para a Câmara de Comércio Iraque-Estados Unidos. Para a quadrilha sunita que dominava o seu bairro, ele primeiro foi considerado infiel; depois, um traidor. Uma carta de ameaça foi deixada na porta da casa de sua família, e depois seu pai levou uma surra feia que o deixou com uma perna quebrada. Mais tarde, uma bala foi deixada em sua entrada.

"Perdemos tudo; não podemos nem mesmo voltar para o Iraque", diz ele, culpando seus compatriotas iraquianos pela magnitude das mudanças em sua vida. "Os cidadãos seculares não têm nada para o quê retornar."

O Comitê de Resgate Internacional (CRI), uma das dez organizações não-governamentais que ajuda na assimilação de refugiados em todo o país, concordou em supervisionar sua vinda para São José porque ele tinha parentes distantes aqui.

Ele mora com o Dr. Hameed Tajeldin e sua mulher, Leyla, que deixaram o Iraque em 1982. O casal está feliz em ajudar, embora Aldeen morar no quarto sobressalente signifique que seus próprios filhos o visitam com menos freqüência. A maior parte dos visitantes são outros iraquianos. Uma delas ficou surpresa com a chegada de um repórter e virou-se para Leyla Tajeldin, perguntando em árabe: "O que traz um americano aqui?"

Aldeen sente muita falta de sua família, e em todas as visitas que fez ao CRI pressionou o funcionário para acelerar a vinda de seus parentes. Na semana passada, ele ficou extasiado quando soube que sua família havia recebido permissão para vir, muito provavelmente antes do final do verão. Ele também tem uma namorada em Amã, uma estudante de literatura de origem jordaniana e britânica chamada Rana, e tenta falar com eles todos a cada dois dias de graça pela Internet. "Preciso ouvir as vozes deles", disse, com um raro olhar de dor encobrindo sua face. "Quando ouço suas vozes, sinto que tudo vai ficar bem."

As conversas vão desde falar sobre a vida de vários primos que estão em Bagdá até a que tipo de casa eles poderão bancar se chegarem a São José. O único momento em que ele estende um tapete no chão e se ajoelha na direção de Meca é depois destas trocas. Ele teme que seus pais não tenham muitos anos de vida pela frente, e sente que perde a cada dia que um tempo precioso no qual eles deveriam estar juntos.

Aldeen acha o ritmo da vida aqui muito rápido, mas atribui isso ao fato de o tempo se mover muito lentamente em Bagdá. Às vezes, ele deseja que o tempo passe ainda mais rápido, na verdade, para que sua família chegue e ele possa trabalhar como dentista novamente.

Restaram cerca de US$ 100 dos US$ 500 que ele trouxe consigo. Gastou US$ 61 em um bilhete de ônibus mensal e US$ 50 em um telefone celular que custa outros US$ 40 adicionais por mês. Comprou três camisas brancas para trabalhar como vendedor, por US$ 39, e tênis com solado de gel, por US$ 45, porque fica em pé o dia todo vendendo acessórios de computador. Viajar de ônibus leva uma hora e várias baldeações para percorrer um trajeto que pode ser feito em 10 minutos de carro. Aldeen sonha em comprar seu próprio carro, mas não tem esperanças de conseguir guardar o dinheiro necessário.

Carros são um assunto doloroso para ele. Sua família vendeu o Volkswagen 1998 que tinha por US$ 3 mil - metade do valor - assim como um Peugeot que foi deixado em Bagdá para pagar os custos de despesas médicas pesadas em Amã.

Aldeen tenta não gastar nada. Ele conta cada dólar pensando no dia em que espera ajudar sua família a se instalar por aqui. A família inclui seu pai, 67; sua mãe, 63; um irmão mais novo que ainda está no colegial; e dois irmãos mais velhos com suas próprias famílias.

Cerca de um mês depois que ele chegou, o CRI o inscreveu em sessões de treinamento semanais para prepará-lo para entrevistas de emprego. Seu inglês é tão bom que ele escapou das primeiras exaustivas lições de língua, apesar de ocasionalmente descobrir uma palavra que não conhece assistindo ao noticiário. "O que é uma hipoteca?", perguntou.

Boa parte do treinamento era cultural. Você deve cumprimentar as mulheres com aperto de mão. Não deve usar correntes de ouro, muita colônia ou meias brancas. Deve apresentar-se barbeado. Ele se preocupa em relação a esse último ponto - barbear-se três vezes por semana era o suficiente em Bagdá, e barbear-se todo dia faz com que sua pele fique irritada.

Mas as lições do comitê de resgate se mostraram úteis, forçando-o a pensar sobre questões estranhas como "qual é o seu principal defeito". Ele foi treinado para transformar isso em uma resposta positiva, replicando que trabalhava demais quando gerenciava seu próprio negócio de computadores em Bagdá.

Aldeen disse que suas primeiras semanas aqui foram como andar no meio da névoa. "Quando cheguei e não sabia o que fazer, fiquei um pouco deprimido", disse, "mas isso passou e eu fiquei mais confiante."

A globalização e a tecnologia fazem com que a vida não seja tão completamente estrangeira como era para os primeiros imigrantes. Amã tinha um Safeway parecido com o daqui; depois do trabalho, Aldeen assiste à uma série de TV egípcia via satélite. Ainda assim, algumas diferenças se mostraram desorientadoras, como a falta de pessoas andando nas ruas.

Rachel Lau, a coordenadora de integração do comitê de resgate, acredita que Aldeen provavelmente vai se sair bem porque ele tem expectativas realistas - ou, conforme ele diz "não sou um sonhador". Ele aceita um emprego simples enquanto estuda a odontologia americana. Alguns refugiados acreditam que podem se reinventar completamente a partir do primeiro dia, diz Lau.

A maioria dos imigrantes passa os seis primeiros meses de felicidade - flutuando por terem conseguido chegar à terra de seus novos sonhos, diz ela. Depois disso, os gastos e outras dificuldades da vida cotidiana normalmente trazem desespero.

Aldeen está ciente disso. "Sei que vou ter tempos difíceis, que eles virão", diz ele. Seu primeiro choque foi ver a dedução de US$ 50 de impostos de seu holerite semanal de US$ 250. Mas a idéia de Previdência Social o convenceu de que tudo bem.

Ele gostaria de ter encontrado emprego como técnico dentário, ou mesmo como recepcionista em um consultório, durante os dois ou três anos necessários para conseguir o certificado para praticar odontologia aqui. Mas a maioria dos dentistas querem alguém que fale espanhol.

"Ninguém está procurando um falante de árabe!", lamenta, e então ri.

Poucas pessoas perguntam a ele sobre o Iraque. De repente ele começou a pronunciar o nome do país do jeito americano "ai-réc", em vez de "i-rac", e deu risada quando a mudança foi percebida.

Acima de tudo, ele sente que se preocupar com uma forma de ganhar a vida é uma melhora muito grande em relação a se preocupar com permanecer vivo. "Essa é uma sociedade aberta", diz ele. "Não me sinto diferente de ninguém. Se você seguir as regras, estará bem. Ninguém vai bater à sua porta no meio da noite, tirá-lo de casa e matá-lo." Eloise De Vylder

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