Iraquiano que começa vida nova na Califórnia está "sem palavras"

John Koopman, do San Francisco Chronicle
Em San Jose, Califórnia

Em um bairro tranqüilo, um iraquiano de 34 anos abre a porta do seu novo apartamento para que a mulher e as duas filhas entrem. Faz apenas alguns dias que eles deixaram para trás a sua casa em Bagdá para começar uma vida nova nos Estados Unidos.

Foi a primeira vez que eles saíram de Bagdá.

No interior do apartamento, John e Veronica Jacobs - dois ex-oficiais do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos - mostram a nova casa aos recém-chegados. Há um televisor, um conjunto de sofá e poltrona e roupas no armário embutido. Um ventilador de teto movimenta o ar quente.

Haitham, o iraquiano, só faz um gesto de aprovação com a cabeça.

"Estou sem palavras", diz ele.

A chegada de Haitham na última quinta-feira marcou a conclusão bem-sucedida da "Operação Falcon", um esforço no sentido de ajudar a trazer a família iraquiana para os Estados Unidos. A Operação Falcon foi elaborada para expor o sofrimento dos iraquianos que trabalharam para as tropas norte-americanas e arriscaram as suas vidas, mas que muitas vezes encontram grandes obstáculos quando tentam imigrar para cá.

Os Jacobs criaram um website a fim de coletar doações para ajudar Haitham e a sua família. Eles arrecadaram fundos e móveis, e passaram a manter contato com outros soldados norte-americanos que têm a mesma meta.

Jornalistas que fazem cobertura no Iraque abraçaram a causa, incluindo George Packer, da revista "New Yorker", que escreveu um artigo sobre o tópico. O deputado Steve Israel, democrata pelo Estado de Nova York, criou uma legislação no sentido de acelerar o processo de solicitação de vistos pelos iraquianos que ajudaram as tropas norte-americanas.

Haitham, que fala inglês bem, trabalhou como intérprete para as tropas dos Estados Unidos no Iraque. Ele usava o codinome "Falcon" para ocultar a sua identidade da resistência. É também por este motivo que ele só fornece o seu primeiro nome. Ninguém sabe a quantidade exata, mas muitos intérpretes foram assassinados nos últimos anos por trabalharem para os norte-americanos.

John Jacobs, 34, um oficial de infantaria do Corpo de Fuzileiros Navais, que atualmente é capitão da reserva, conheceu Haitham na sua segunda missão no Iraque, em 2005 e 2006. O homem que Jacobs conhecia como Falcon era indispensável para que ele se comunicasse com os moradores locais, especialmente autoridades municipais e xeques.

"Quando Falcon estava por perto, tudo transcorria sem problemas", recorda Jacobs. "Ele entendia o seu povo, e era mais do que um simples intérprete. Falcon era um facilitador".

E, segundo Jacobs, o mais importante é que Haitham preocupava-se. Ele preocupava-se com o seu povo e com os fuzileiros, e desejava fazer do Iraque um lugar melhor.

"Acima de tudo, ele é um patriota", afirma Jacobs. "Ele acredita em um novo Iraque".

Quando trabalhavam juntos, formou-se um laço os dois. O tipo de laço formado entre indivíduos que portam armas e que vivem sob a ameaça constante de morte violenta.

O vínculo ficou mais forte quando Jacobs mencionou que a sua mulher, Veronica, estava grávida. Pouco depois, Haitham apareceu com vários objetos para bebês: chocalhos, roupinhas e coisas do gênero.

Jacobs respondeu dando a Haitham presentes para as suas filhas.

Jacobs acabou voltando para os Estados Unidos e deixou o Corpo de Fuzileiros Navais. Atualmente ele é diretor de uma escola particular de primeiro grau em San Jose. Ele ainda está na reserva, e é o oficial executivo da Companhia Eco, do Segundo Batalhão, 23ª Divisão de Fuzileiros, que fica em San Bruno.

Durante algum tempo Jacobs perdeu o contato com Haitham. Mas, há cerca de um ano, ele viu o endereço eletrônico de Haitham e enviou-lhe um e-mail, só para saber como andavam as coisas para o colega iraquiano.

Haitham respondeu dizendo que apreciaria uma ajuda para tirar a sua família do Iraque.

"Tudo o que preciso é de uma ajuda para levar a minha família a qualquer lugar que possa ser mais seguro do que o local em que moramos neste momento", escreveu Haitham.

Veronica Jacobs, que também serviu como oficial do corpo de fuzileiros no Iraque, conta que o marido levou o caso de Haitham muito a sério.

"Ele não é um sujeito muito emotivo", diz ela. "Só o vi chorar duas vezes. Uma foi quando conheceu os pais de um colega que foi morto no Iraque. A outra foi quando recebeu o e-mail de Haitham pedindo ajuda".

John Jacobs considerava o iraquiano um irmão de armas. Os dois não usavam o mesmo uniforme, mas compartilhavam os mesmos ideais, e vivenciaram as mesmas dificuldades, o calor e a ameaça de uma morte violenta.

"Isso faz parte do credo; você não deixa um camarada para trás", diz Jacobs.

Os intérpretes geralmente trabalham em bases dos Estados Unidos afastadas de suas casas, às vezes muito longe. Eles participam de patrulhas com os soldados dos Estados Unidos, comem e vivem perto deles. E também usam panos sobre a face para ocultar a identidade. Com bastante freqüência, quando uma bomba de beira de estrada ou um homem-bomba tem como alvo os soldados norte-americanos, os intérpretes morrem ao lado deles. O caso mais recente desse tipo foi em 26 de junho último, quando dois intérpretes morreram ao lado de três fuzileiros quando uma bomba foi detonada na cidade de Karma, próxima a Fallujah.

O pai de Haitham também trabalhou para os norte-americanos. Ele foi seqüestrado em 2005 e nunca mais apareceu.

Quando todos os documentos de Haitham pareciam estar prontos e ele recebeu passagens da Jordânia para San Jose, os Jacobs preparam-se rapidamente para a chegada do iraquiano e sua família. Eles encontraram um apartamento em Sunnyvale e começaram a mobiliá-lo e equipá-lo com utensílios domésticos.

Mas o futuro ainda é incerto para Haitham e a sua família. Haitham é formado em engenharia elétrica, mas não há garantias de que encontrará trabalho nesta área nos Estados Unidos. A sua mulher, Jamila, trabalhava como advogada de direitos humanos em Bagdá, mas não se sabe que trabalho ela poderá encontrar aqui.

Na sexta-feira (4), Haitham e a sua família pareciam estar tremendamente satisfeitos com a nova casa. As crianças olhavam os brinquedos e as novas camas.

Jamila examinava a geladeira, diversas carnes e enlatados comprados em um mercado árabe local. Ela colocou a mão sobre a boca em sinal de surpresa.

Uma lágrima desceu pela sua face.

"No Iraque, a minha mulher me perguntava, 'O que vamos fazer lá?'", diz Haitham. "Eu respondia, "Vamos ficar atrás da estaca zero, mas será um bom começo'. Agora que vejo tudo isso, afirmo, 'Estamos adiante da estaca zero'".

John e Veronica Jacobs também ficaram um pouco perplexos. Os dois trabalharam arduamente durante muito tempo por este instante, e tudo saiu melhor do que eles poderiam ter imaginado.

"Foi um bom desfecho", diz John Jacobs. "Suponho que para eles é apenas o começo, mas pelo menos conseguimos algo. Nós os tiramos do Iraque".

O esforço dos Jacobs foi o tema de um documentário de 16 minutos feito por Tim O'Hara, aluno de pós-graduação da Universidade Stanford. O filme, que foi a tese de O'Hara para o seu mestrado em produção de documentários, acompanha a jornada de Jacobs e da família de Haitham à medida que esta passa pelo processo de imigração. O'Hara mandou uma videocâmera para Haitham a fim de que ele registrasse o dia-a-dia da sua família no Iraque.

No documentário, Haitham pergunta à filha mais nova por que ela deseja ir para os Estados Unidos. Ela ri e diz em árabe, "Segurança". UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos