Depois de blitz, imigrantes alimentam denúncias trabalhistas

Julia Preston
Em Postville, Iowa (EUA)

Quando os agentes federais de imigração realizaram uma blitz na fábrica de empacotamento de carne kosher aqui em maio e contaram 389 imigrantes ilegais, encontraram mais de 20 trabalhadores menores de idade, alguns com até 13 anos. Agora, esses jovens imigrantes começaram a contar aos investigadores sobre seu trabalho. Alguns disseram que trabalhavam turnos de 12 horas ou mais, manuseando facas afiadas e serrotes para cortar a carne bovina depois do abate. Outros trabalhavam durante noite, às vezes seis noites por semana.

Um deles, um guatemalteco chamado Elmer L., disse que tinha 16 anos uando começou a trabalhar no matadouro, e que chegou a cumprir turnos
de 17 horas, seis dias por semana. Em um depoimento,contou que estava sempre cansado e não tinha tempo para fazer nada além de trabalhar e dormir. "Eu estava muito triste", disse, "sentia-me um escravo."

A princípio, fiscais trabalhistas disseram que a blitz haviaatrapalhado as investigações federais e estaduais que estavam em andamento na Agriprocessors Inc., a maior fábrica de comida kosher do país. A blitz foi criticada por muitos que a viam como uma tática dura contra os imigrantes, ao passo que pouco foi feito contra os empregadores.

Mas depois das prisões, os investigadores trabalhistas colheram uma série de novas evidências a partir dos depoimentos dos imigrantes ilegais, adolescentes e adultos, que foram pegos na operação. Em declarações formais, os imigrantes descreveram as diversas violações trabalhistas da fábrica, testemunhos que podem resultar em acusações criminais contra os executivos da Agriprocessors, dizem especialistas em justiça do trabalho.

Sem trabalho e enfrentando processos de deportação, muitos dos imigrantes dizem que agora não têm nada a perder ao denunciar as condições de trabalho na fábrica. Eles contaram que normalmente eram colocados no serviço sem nenhum treinamento de segurança e eram forçados a trabalhar longos turnos sem horas extras ou intervalos de descanso. Trabalhadores menores de idade disseram que seus chefes sabiam que eles eram muito novos. Por causa dos riscos do trabalho, é ilegal contratar menores de 18 anos para trabalhar em matadouros no Estado de Iowa.

Em uma declaração, a Agriprocessors afirmou que não emprega menores de 18 e que iria demitir qualquer trabalhador menor de idade que tivesse
apresentado documentos falsos para conseguir trabalho.

Para investigar as acusações de trabalho infantil, o Ministério do Trabalho federal juntou-se com a Divisão de Trabalho de Iowa, em cooperação com a promotoria do Estado, afirmaram oficiais das três
agências.

Sonia Parras Konrad, uma advogada particular de imigração de Des Moines, está representando muitos dos trabalhadores menores. Ela diz que até agora já identificou 27 menores de 18 anos que foram empregados nas áreas de empacotamento da fábrica, a maioria deles imigrantes ilegais da Guatemala, incluindo alguns que não foram presos na blitz. "Alguns dos garotos nem tem barba para fazer", disse Parras Konrad. "Eles são desajeitados. São adolescentes".

Numa reunião no sábado (19), três membros do Caucus Hispânico da Assembléia - incluindo seu presidente, Luis V. Gutierrez (democrata de Illinois) - ouviram sete imigrantes menores descreverem o trabalho na fábrica da Agriprocessors. Os oficiais trabalhistas de Iowa disseram que raramente encontram casos de trabalho infantil mesmo apesar de o Estado ter vários abatedouros.

"Normalmente, não vemos muitos menores trabalhando em nosso Estado", disse Gail Sheridan-Lucht, advogada da secretaria de trabalho do Estado, que disse não poder comentar os detalhes da investigação sobre a Agriprocessors.

Outra investigação também está em andamento. A Comissão para Oportunidades Igualitárias de Emprego está examinando acusações de
assédio sexual cometido contra mulheres na fábrica. Advogados dos Imigrantes estão preparando uma ação baseada no Ato de Direitos
Trabalhistas Justos por causa das violações de salário e horas de trabalho.

Oficiais federais da justiça e imigração, que depuseram frente ao subcomitê de imigração do Comissão de Justiça da Câmara dos Deputados em Washington, garantem que as investigações continuam. Um júri federal em Cedar Rapids está apurando as evidências contra a Agriprocessors.

Enquanto os promotores federais estão focados principalmente nas acusações de imigração, eles também podem estar procurando por violações trabalhistas. Documentos de mandato de busca preenchidos em tribunal antes da blitz, que aconteceu em 12 de maio, citaram um relatório feito por um imigrante anônimo que foi enviado pelas autoridades de imigração para trabalhar na fábrica como informante disfarçado. O imigrante viu "um rabino que chamava os trabalhadores de nomes pejorativos e jogava carne nos empregados." Os administradores judeus fiscalizam o abatimento e processamento da carne na Agriprocessors para assegurar os padrões kosher.

Em outro episódio, o informante disse que um supervisor havia vendado um imigrante com fita adesiva. "Ele pegou então um dos
ganchos de carne e bateu no guatemalteco", completou o informante,
acrescentando que o golpe não causou "ferimentos sérios."

Até agora, 297 imigrantes ilegais detidos na blitz de maio foram condenados por fraude de documentos e outras acusações criminais, e a
maior parte deles foi condenada a cinco meses de prisão, depois dos
quais será deportada.

Um porta-voz da Agriprocessors, Menachem Lubinsky, disse que a
companhia não poderia comentar nada a respeito de uma investigação em
andamento.

"A companhia tem apenas dois objetivos em mente: retomar sua produção para atender à demanda do mercado de comida kosher e cumprir totalmente todas as leis locais, estaduais e federais", disse Lubinsky. Os relatos de violações trabalhistas na fábrica "continuam sendo apenas alegações, e nenhuma autoridade acusou formalmente a companhia por causa delas".

Aaron Rubashkin e sua família são os donos e gerentes da fábrica kosher Agriprocessors desde 1987. Seu filho Sholom era o gerente geral da fábrica até ser retirado do cargo pelo pai em maio, depois da blitz. Os produtos da fábrica são distribuídos por todo o país sob marcas como Aaron's Best e Aaron's Choice.

A maioria dos imigrantes jovens foi contratada pela Agriprocessors
depois de apresentarem documentos falsos dizendo que eram mais velhos.
No entanto, em uma entrevista, Elmer L. disse ter contado aos supervisores que era menor de 18 anos. Ele pediu para que seu sobrenome não fosse publicado de acordo com o conselho de sua advogada, Parras Konrad, porque ele é um menor em processo de deportação.

"Eles me perguntaram quantos anos eu tinha", disse Elmer L. "Perceberam que às vezes eu não conseguia dar conta do trabalho." Elmer L. explicou que trabalhava regularmente 17 horas por dia na fábrica e recebia US$ 7,25 por hora. Ele disse que nunca recebia horas extras.

"Meu trabalho era muito pesado, porque eles não davam intervalos e eu
não dormia muito", disse. "Eles ameaçaram chamar a imigração
se nós reclamássemos."

Elmer L. disse que estava limpando vísceras do chão no último dia 16 de agosto quando um supervisor, que ele descreveu como sendo um rabino, começou a gritar com ele, e depois o chutou por trás. O golpe fez com que uma faca afiada voasse e cortasse seu cotovelo.

Foi mandado para um hospital próximo onde os médicos fecharam o corte com oito pontos. Porém, o garoto conta que quando voltou para a fábrica
com o cotovelo ainda dolorido para pedir uma folga, o supervisor ordenou
que ele voltasse ao trabalho.

No dia seguinte, estava levantando uma língua de vaca quando os pontos romperam, disse Elmer L., e o ferimento começou a sangrar de novo. Ele disse que foi enfaixado na fábrica e mandado de volta ao trabalho. O incidente é confirmado por um relatório de acidentes de trabalho preenchido em 31 de agosto de 2007 pela Agriprocessors, no departamento trabalhista de Iowa.

Gilda O., uma guatemalteca que disse ter 16 anos, contou que trabalhava no turno da noite depenando galinhas. Ela declarou que trabalhava para ajudar a pagar as dívidas dos pais.

Outro guatemalteca, Joel R., que disse ter 15 anos, contou que saiu da
escola em Potsville depois da oitava série americana e começou a trabalhar na Agriprocessors porque sua mãe ficou doente. Trabalhava das 17h30 às 6h30 em uma sessão chamada de "controle de qualidade", trabalho descrito com relativamente fácil, que ele conseguiu porque falava inglês.

Mesmo assim, ele explica que, da mesma forma que os outros trabalhadores, estava sob pressão constante dos supervisores. "Eles gritavam conosco quando não fazíamos as coisas depressa, quando não trabalhávamos rápido o suficiente para eles", disse Joel R. Ele e Gilda O. não quiseram que seus sobrenomes fossem publicados porque são imigrantes ilegais e não foram presos durante a blitz.

A maioria dos jovens imigrantes saiu da prisão, mas continua enfrentando o processo de deportação. Parras Konrad disse que pedirá às autoridades de imigração para conceder a eles vistos especiais temporários de quatro anos, conhecidos como vistos-U, que são oferecidos a imigrantes que auxiliam investigações legais. Oficiais trabalhistas de Iowa estão considerando apoiar alguns desses pedidos de visto, disse Sheridan-Lucht.

Executivos da Agriprocessors declararam ter dado início a uma reforma nas práticas de contratação e de trabalho da companhia, começando pela contratação de um funcionário para adequar a empresa, James G. Martin,
ex-advogado do governo em Missouri. Em entrevista, Martin disse
que a companhia contratou uma firma terceirizada, a Jacobson Staffing Co., para cuidar se suas contratações, e novos funcionários de segurança, incluindo um antigo inspetor de segurança do trabalho federal.

Mark Lauritsen, vice-presidente do Sindicato Internacional dos Trabalhadores do Comércio e Alimentos, que tentou organizar a fábrica,
disse que continua cético. "Eles são o maior exemplo de como uma empresa desonesta pode explorar o falho sistema de imigração", disse Lauritsen. Eloise De Vylder

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