Um boato de US$ 126 milhões, voando de Nova Jersey para o Rio

Kirk Semple*
Do Newark Journal
Em Newark, Nova Jersey

Quando alguém escrever a história definitiva sobre o "Grande Boato da Brasileira que Ganhou na Loteria" pode ser difícil chegar muito mais perto de suas origens exatas do que o bloco de anotações de Leonardo Ferreira, repórter do jornal "Brazilian Voice", publicado em Newark.

Foi Ferreira quem, na edição de 26 de julho, primeiro publicou os rumores de que o bilhete vencedor da loteria Mega Milhões de Nova Jersey havia sido comprado por uma imigrante brasileira num supermercado no bairro de Ironbound, que tem uma grande população de brasileiros e portugueses. O prêmio acumulado era US$ 126 milhões.

A fonte de Ferreira era nebulosa: o funcionário de um supermercado, cujo nome ele não sabia. Mas rapidamente o mexerico foi ficando cada vez mais fértil e pitoresco.

Uma das versões sustentava que a imigrante era ilegal e tinha medo de apresentar-se, receando a perda do prêmio e a deportação. Em outra versão, a mulher havia confiado o bilhete a um amigo, um imigrante ilegal, que agora se recusava a devolvê-lo. Uma variante dizia que a mulher dera o bilhete ao namorado, e este fugira tanto com o bilhete quando com outra mulher.

Os boatos sobre a brasileira multi-multi-multi-milionária acabaram virando uma grande notícia no Brasil, no vai-e-vem entre os países via Internet, telefone, televisão e as correntes de aspirações que conectam os dois países. As estações brasileiras de televisão e jornais, acompanhando o artigo de Ferreira, cobriam a história.

"Brasileiros de todo o Brasil telefonaram para mim", disse Ferreira, que imigrou para os Estados Unidos do Rio de Janeiro, em 1995. "Estavam todos feito loucos."

O problema é que a história pode não ser verdadeira.

Antonio Seabra, proprietário da A&J Seabra Supermakets XII em Ironbound, onde foi vendido o bilhete premiado, disse em uma entrevista por telefone, na quinta-feira da semana passada, que sabia quem eram os ganhadores. E embora se recusasse a revelar os nomes, disse que era um casal de imigrantes portugueses que faz compras em sua cadeia de supermercados há 35 anos e que estava adiando a cobrança do prêmio até que conseguisse colocar seus assuntos legais em ordem.

"São maravilhosos, pessoas maravilhosas", disse Seabra. "São muito humildes, uma família muito trabalhadora. Um dos sonhos americanos". O marido, ele acrescentou, "na realidade foi trabalhar no dia seguinte".

Mas a história da brasileira que ganhou na loteria tornou-se grande exemplo de um mundo que se tornou pequeno, graças às modernas telecomunicações, à mídia, ao comércio e às viagens, onde os boatos surgidos na esquina entre imigrantes de uma cidade norte-americana reverberam rapidamente em casa, mesmo se a casa fica à distância de milhares de quilômetros e um hemisfério.

Para os brasileiros do bairro de Ironbound, seus parentes e amigos no Brasil, uma miraculosa sorte inesperada dessa magnitude representa o perfeito esquema de enriquecimento rápido, a expressão definitiva do sonho americano.

"As pessoas têm sonhado com o dinheiro, dizendo, 'Oh, Deus! Se eu ganhasse esse dinheiro, poderia comprar o que quisesse! Posso ter o sonho americano!" disse Ferreira.

Uma das versões do boato que circulou durante a semana foi que o comprador do bilhete era de Governador Valadares, uma cidade no Estado de Minas Gerais, de onde dezenas de milhares de pessoas emigraram para os Estados Unidos. As ligações de Governador Valadares com os Estados Unidos são tão fortes que ela acabou ficando conhecida como a cidade mais norte-americana do Brasil.

"As pessoas enlouqueceram aqui", disse Raimundo Santana, jornalista de Governador Valadares, sobre o boato. "Onde quer que se vá, tudo que se ouve são comentários sobre quem poderia ser o ganhador da loteria, e o que ele poderia fazer com o dinheiro". O prêmio acumulado de US$ 126 milhões é equivalente a quase metade do orçamento da cidade.

O boato chegou num momento em que a comunidade brasileira em Ironbound parece precisar de um incentivo. Depois de anos, nos quais a população brasileira local multiplicou-se e proliferaram empresas pertencentes a brasileiros, as dificuldades da economia americana levaram alguns dos moradores a regressarem para o Brasil, onde a economia está animada.

Os boatos serviram para distrair a atenção dos imigrantes dos problemas econômicos, e parecem ter sido inspirados em parte pela sensação de que a vitória de um brasileiro, aqui, seria de certa forma uma vitória para toda a comunidade.

Eles também provocaram fantasias das mais desvairadas. Uma tarde, na semana passada, funcionários e clientes da Casa Nova Grill, um restaurante brasileiro em Ironbound, deram asas aos seus sonhos.

"Eu viajaria pelo mundo todo, até as pessoas se esquecerem de mim e as coisas se acalmarem," disse Mariana Dias, que é de Belo Horizonte no Brasil e visitava o gerente do restaurante, Rogério Santos. "Depois eu voltaria para o Brasil".

"Eu me mudaria para Miami Beach, compraria um Lambo," disse Santos, que é do Rio de Janeiro, referindo-se a um Lamborghini. "Muito dinheiro"!

Mas Francisco Sampa, presidente da Brazilian American United Association de Nova Jersey e um líder na comunidade brasileira de lá, foi mais circunspecto quanto à situação. Ele não acreditou nos boatos.

"Sou uma pessoa desconfiada", comentou, enquanto bebia seu refrigerante, sentado no bar do restaurante. "Todo mundo diz que é uma brasileira. Mas talvez não seja. Já procurei. Dei um monte de telefonemas, visitei muitas casas. Onde ela está? Eu conheço todo mundo".

O boato de um imigrante ilegal ganhando na loteria levantou uma questão nos restaurantes de rodízio e nas choperias de Ironbound esta semana: O que deve fazer um imigrante ilegal se de repente descobrir que tem um bilhete premiado de US$ 126 milhões?

Dominick DeMarco, porta-voz da Loteria de Nova Jersey, disse que um estrangeiro não-residente, ilegal no país ou não, pode receber o prêmio, desde que mostre um documento oficial que comprove sua identidade e país de origem. Mas o estrangeiro não-residente pagaria um imposto federal de 30% em vez dos 25% que um morador legal pagaria. Ele comentou que, "ao que ele se lembre", nenhum estrangeiro não-residente venceu a acumulada da loteria.

Richard Rocha, porta-voz do serviço de controle de imigração e alfândega (Immigration and Customs Enforcement), disse que caso os investigadores da agência recebessem "informações confiáveis" de que a pessoa estava no país ilegalmente, começariam a investigar.

DeMarco disse que o tipo de teorias que circularam em Ironbound não são fatos isolados. "Surgem muitos rumores quando um ganhador não se apresenta logo", comentou. Mas ele parece se divertir com os detalhes cada vez mais pitorescos dos boatos em torno do sorteio de 22 de julho.

"Vou lhe dizer uma coisa", comentou, segurando o riso. "Provavelmente existem tantas histórias circulando, quanto existem combinações de números".

* colaborou Fernanda Santos Claudia Dall'Antonia

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