Irmão mantém viva história de freira assassinada

Colleen O'Connor, do The Denver Post
Em Palmer Lake, Colorado (EUA)

David Stang sabia das ameaças de morte contra sua irmã, uma freira católica de 73 anos de idade que lutava para salvar a floresta Amazônica no Brasil.

A maior parte do tempo, ele se manteve calmo. Mas na manhã anterior ao assassinato, quando ela telefonou para ele às 4 da manhã, ele sabia que havia algo de errado.

Ele ainda se lembra dessa última conversa.

Em seu quarto, totalmente escuro naquela manhã fria de fevereiro de 2005, David ouviu com atenção à sua irmã.

Ela disse que dez vilarejos haviam sido queimados numa tentativa de assustar os trabalhadores rurais, e que ela havia avisado o Ministério do Meio Ambiente brasileiro e a polícia, mas ninguém havia feito nada.

Então ela estava se colocando em marcha - armada com uma Bíblia e a escritura das terras - para ajudar os trabalhadores rurais na reconstrução.

"Eu sabia que ela já havia feito isso antes", disse ele. "Mesmo assim ela estava preocupada, e disse isso de uma forma que me deixou apreensivo."

No dia seguinte, David atendeu o telefone para receber a notícia de que sua irmã havia recebido seis tiros, de dois atiradores, numa estrada isolada.

"Eu simplesmente desmoronei", disse. "Chorei o dia todo. Eu havia subestimado totalmente o poder desse lado escuro."

O assassinato foi manchete desde a Romênia até o Iraque. Do dia para a noite, lançou David - que vivia uma aposentadoria tranqüila cuidando de suas coleções de selos e moedas - direto para o meio de um drama internacional de luta por terra e listas de morte.

O futuro da floresta Amazônica está em risco. Madeireiros cortam as árvores para explorar a madeira, e os grandes fazendeiros estão transformando as terras em pasto para o gado. Eles estão em pé de guerra contra os trabalhadores rurais pobres, que foram encorajados a se mudar para uma área mais remota, em troca de 250 acres de terra para cultivar.

As escrituras das terras são normalmente obscuras, e os proprietários rurais contratam atiradores para retirar os trabalhadores rurais da terra.

Quatro dos cinco homens acusados do assassinato da irmã Doroty Stang foram condenados, e um ainda aguarda por julgamento.

Mas no mês passado, Vitalmiro Moura, um fazendeiro que recebeu uma sentença de 30 anos de prisão por atuar como mandante do crime, foi absolvido durante um segundo julgamento concedido a réus primários com longas sentenças.

Os advogados apelaram contra a absolvição. Portanto, se um terceiro julgamento for concedido, Stang estará lá novamente, mesmo apesar de estar em recuperação por causa de uma cirurgia para retirar um câncer da próstata.

Stang, que está estudando português, já viajou para o Brasil nove vezes, comparecendo a todos os julgamentos. Ele já se embrenhou no meio da floresta para visitar o túmulo de Dorothy e para dormir na mesma cama em que ela passou sua última noite. Até suas roupas refletem o rigor de sua nova vida. No conforto de sua casa, ele usava um par de sandálias Keen à prova d'água, presente de sua filha.

"Não dá para usar sapatos no Brasil - é muito quente e chuvoso", disse ele, "e se você for andar na lama, essas sandálias aqui agüentam bem."

Durante os últimos três anos, ele se encontrou com políticos brasileiros e abraçou inúmeros trabalhadores rurais que lamentam a perda de Dorothy.

Ele também trabalhou com jornalistas da CNN e de jornais internacionais para manter a história viva. Uma semana depois do assassinato, ele viajou ao Brasil com o cineasta independente Daniel Junge, de Denver, para participar do documentário "Eles Mataram a Irmã Dorothy", que ganhou o prêmio principal no Festival de Cinema South by Southwest.

"Nesta etapa da vida em que ele está, acho extremamente corajoso alguém se dedicar e se expor dessa maneira", disse Junge. "Acho que ele não planejava viver a aposentadoria dessa forma."

O investimento de tempo, todavia, ajudou a promotoria, disse Brent Rushforth, advogado de Washington D.C. que representou a família Stang nos julgamentos.

"Sua presença como representante da família, e seu esforço para manter a atenção sobre a história, é uma das razões pela qual o pessoal no Brasil fez o seu trabalho", disse. "Há um histórico de impunidade no Estado do Pará."

Durante as últimas três décadas, cerca de 800 pessoas foram assassinadas em conflitos de terra no Pará, mas poucos casos foram a julgamento, de acordo com a Pastoral da Terra da Igreja Católica.

Espera-se que as condenações pelo assassinato de Dorothy acabem com a impunidade numa cultura em que todos, desde os bispos católicos até líderes comunitários acabam com seus nomes nas listas de morte.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, disse que estava "indignado" com a absolvição de Moura.

E Stang, que se auto-denomina "o porta-voz vivo de Dorothy", considerou o fato "revoltante".

Ele espera manter o legado de Dorothy vivo, mesmo que isso signifique passar tempo com pessoas como Henri des Roziers, um padre francês que vive no Brasil e que, de acordo com os jornalistas locais, tem uma recompensa de 100 mil reais por sua cabeça - cerca duas vezes mais o que teria sido pago pelo assassinato de Dorothy.

Quando Roziers convidou Stang para comparecer à inauguração de uma nova escola com o nome de Dorothy em Xinguara, na região central do violento conflito fundiário, ele não hesitou. A viagem incluiu dois vôos de avião e quatro horas dentro de uma caminhonete atravessando estradas de terra no meio da floresta em direção à fronteira do conflito, onde ele foi saudado por centenas de pessoas.

"Os trabalhadores usavam capacetes e estavam em estado de alerta. As crianças saíram vestidas com uniformes. Todos cantaram. Houve abraços e lágrimas. Se eu sou um símbolo de orgulho para eles, então, sim, estarei lá."

Essa foi sua homenagem para a irmã com quem ele era muito ligado desde a infância difícil em Dayton, Ohio, durante os anos de Depressão econômica.

No verão, eles acordavam às seis da manhã e pegavam o caminhão para a Fazenda de Frutas Mumaw, onde colhiam morangos até as seis da tarde.

"Um punhado ia para a cesta", disse. "E o outro ia para a boca."

Em casa eles trabalhavam no jardim da família.

A família Stang era de católicos devotos. Quatro dos nove filhos entraram em conventos e seminários, mas somente David e Dorothy viajaram para o exterior como missionários.

Nos anos 60, David serviu como pastor em Maryknoll, na África, onde aprendeu três línguas tribais e deu início à formação de cooperativas rurais na Tanzânia e no Quênia.

Dorothy chegou ao Brasil em 1966, junto com outras freiras da ordem Irmãs de Notre Dame, que se dedicava ao trabalho missionário com os pobres.

Mas durante os anos 70 e 80, os dois missionários perderam o contato.
Dorothy não tinha telefone, então eles se viam somente durante as viagens esporádicas que ela fazia para os Estados Unidos.

David deixou a vida de padre em 1975, depois de freqüentar a universidade na Califórnia, onde se graduou em ciência do comportamento. Ele encontrou trabalho no Colorado como administrador de um asilo, casou-se em 1979 e teve quatro filhos.

Só nos anos 90, quando Dorothy se mudou para uma casa com água encanada e telefone, foi que David conseguiu reatar o contato com a irmã.

A amizade entre eles de fato deslanchou em dezembro de 2004, meses antes da morte de Dorothy, quando David começou a perceber a transformação de sua irmã, a moleca que cresceu com ele em Dayton, em uma líder do movimento pelo desenvolvimento sustentável.

Ela havia convidado David e sua irmã Maggie para uma cerimônia na Ordem dos Advogados do Brasil, onde ela recebeu o prêmio Chico Mendes pelos Direitos Humanos. Mais de mil pessoas compareceram: senadores, membros de gabinete, médicos e advogados.

"Foi quanto eu descobri que minha irmã era mais do que apenas minha irmã", disse ele, sentado em sua sala de estar, ao lado do escritório onde a proteção de tela do computador mostrava fotos de Dorothy, incluindo algumas em seu fusca branco surrado. "Ela era essa mulher fantástica, muito mais poderosa e respeitada do que eu jamais havia imaginado."

Devastado pelo assassinato da irmã, Stang está determinado a fazer com que a voz dela seja ouvida.

"Quando é que eles vão perceber que a terra pertence a todos os seres humanos?", disse. "Ou nós vivemos juntos ou morremos juntos. Dorothy entendia isso muito claramente. Ela tirava sua força de tudo o que existia a seu redor."

E fez uma pausa, trazendo de volta à mente as memórias preciosas da infância.

"Quando éramos crianças comíamos os frutos do jardim, ou os morangos da fazenda Mumaw, isso fez com que sentíssemos essa energia desde muito cedo. Nós nunca a perdemos." Eloise De Vylder

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