Uma mudança para elogiar a era Clinton

Scott Helman

Boston Globe

Abington, Pensilvânia - Barack Obama gosta de se inspirar em Abraham Lincoln e Martin Luther King Jr., mas aparentemente seu último modelo é alguém um pouco mais contemporâneo: Bill Clinton.

Com a economia em crise e a proximidade das eleições, Obama não se cansa de falar sobre a era Clinton - o crescimento dos empregos, os superávits no orçamento, a prosperidade ampla - e normalmente elogia o gerenciamento econômico do ex-presidente como um modelo.

"Precisamos fazer o que fizemos nos anos 90 e criar milhões de novos empregos, e não perdê-los", disse a 6 mil pessoas em Abington, nos arredores de Filadélfia, na semana passada. "Precisamos fazer o que fizemos nos anos 90 e nos certificarmos de que os rendimentos das pessoas cresçam e não diminuam. Precisamos fazer o que um homem chamado Bill Clinton fez nos anos 90 e colocar as pessoas em primeiro lugar novamente."

A multidão respondeu com entusiasmo.

A caracterização que Obama faz da presidência de Clinton é bem diferente daquela que ele ofereceu durante as primárias democratas, quando concorria com a mulher do ex-presidente, a senadora Hillary Clinton.

Obama argumentou que, apesar do sucesso, Bill Clinton deixou que alguns dos maiores problemas do país inflamassem enquanto estava na Casa Branca. A afirmação - de que seus dois mandatos não foram totalmente positivos para as famílias americanas - causou um profundo ressentimento no ex-presidente.

Apesar de ser um argumento embaraçoso, Obama sentiu que deveria fazê-lo, já quem em parte Hillary Clinton estava concorrendo para reviver o legado econômico de seu marido, de quem muitos democratas se lembram com afeto. Se Obama abraçasse totalmente os anos 90, seria o mesmo que abraçar sua oponente.

Agora, Obama oferece a restauração da era Clinton para criar uma oposição ao que ele chama de filosofias econômicas falidas do presidente Bush e de seu rival na corrida presidencial, John McCain.
"Os Estados Unidos não podem suportar mais quatro anos de políticas de George Bush por parte de John McCain", disse ele na quinta-feira em Dayton, Ohio.

As partes politicamente mais problemáticas do legado de Clinton - o escândalo Monica Lewinsky e a adoção da desregulação financeira, relevante para o colapso econômico atual - não são mencionados, é claro.

A mudança na retórica de Obama é outro capítulo da relação tensa entre os Obama e os Clinton, que se confrontaram com freqüência na disputa acirrada das primárias. Alguns defensores de Obama questionam se Bill Clinton está apoiando o ex-rival de sua mulher com convicção, mas o ex-presidente ofereceu seu suporte, que foi bem recebido, na Convenção Nacional Democrata, e na semana passada começou a discursar a favor de Obama.

Os Clinton devem fazer campanha juntos por Obama pela primeira vez no domingo, ao lado do candidato democrata à vice-presidência, senador Joe Biden, em Scranton, Pensilvânia, domínio de classe operária onde Biden nasceu e de onde vem a família do pai de Hillary Clinton.

Durante as primárias, Obama elogiou os Clinton algumas vezes pelo trabalho que fizeram. Mas no calor da batalha política, dificilmente passava uma semana sem que ele criticasse os anos 90 - tanto as estratégias e as políticas promovidas pelos Clinton.

Obama disse que eles haviam abordado o assunto da saúde pública de forma equivocada. Disse que eles haviam feito pouco para avançar as estratégias energéticas do país. Sua mulher, Michelle, ampliou a crítica frente aos aliados num comício na Califórnia antes da Super-Terça, dizendo: "Nada melhorou para o cidadão comum durante os governos democrata e republicano".

Obama, num golpe claro contra os Clinton, atacava com freqüência a política partidária "testada nas urnas" e a "triangulação", estratégia de Clinton ao adotar posições republicanas para obter vantagem política. "George Bush e Dick Cheney podem ter transformado a política da discórdia e de interesses especiais numa forma de arte, mas eles não a inventaram", disse Obama em New Hampshire no ano passado. "Ela já estava lá antes de eles chegarem a Washington."

Hillary Clinton respondeu prontamente à crítica.

"Sabe, às vezes, durante a campanha, meu oponente critica os anos 90, critica o que meu marido fez", disse ela na Filadélfia em abril, de acordo com o jornal The Chicago Tribune. "Mas quando ouço ele criticar os 90, sempre me pergunto qual parte da década ele não gostou - da paz ou da prosperidade? Porque eu gosto de ambas."

No mesmo mês, Bill Clinton causou agitação ao afirmar que os eleitores mais velhos gravitavam em torno de sua mulher porque eles estavam muito bem informados para cair na retórica da Obama.

"Depois de uma certa idade, você simplesmente não fica sentado ouvindo alguém dizer que não há diferença entre o que aconteceu na era Bush e na era Clinton; que não há muita diferença entre como as cidades pequenas da Pensilvânia estavam quando eu era presidente, e como estão nessa década", disse ele, comparando suas estatísticas de emprego e renda familiar com as do presidente Bush.

Hoje, Obama usa as mesmas estatísticas para atacar Bush - e por conseqüência McCain - como os vilões da classe média. Nas últimas semanas, Obama tem elogiado Clinton por criar milhões de novos empregos a mais que Bush, ajudando a aumentar a renda familiar, e por promover superávits no orçamento, ao contrário dos déficits que cresceram sob o governo Bush.

"Quando Bill Clinton estava no poder, a renda média familiar cresceu US$ 7.500", disse Obama em Green Bay, Wisconsin, no mês passado. "22 milhões de empregos foram criados. Então precisamos apenas ser claros em relação à história". Na semana passada em La Crosse, Wisconsin, Obama disse: "É o momento de voltar à responsabilidade fiscal e ao orçamento comedido, o tipo de orçamento que tínhamos nos anos 90.
Vocês lembram que Bill Clinton deixou um superávit para George W.
Bush?"

Obama e Clinton tiveram até mesmo algumas conversas privadas durante as últimas semanas sobre a crise financeira, e o ex-presidente esteve "bastante impressionado com a forma com que o senador Obama tem lidado com a crise econômica", de acordo com um pessoa próxima a Clinton que pediu para permanecer anônima para poder falar sem reservas.

Bill Carrick, um estrategista democrata que trabalhou para as campanhas presidenciais de Bill Clinton em 1992 e 1996, disse que o legado de Clinton apresentou uma dinâmica diferente tanto para Hillary Clinton quando para Obama nas primárias, porque ela não queria celebrar todos os aspectos do governo do marido, e Obama não podia, em sã consciência, "criticar indiscriminadamente" suas políticas econômicas.

Hoje, diz Carrick, "o senador Obama provavelmente está muito mais confortável ao dizer: "Veja, nós estávamos arrebentando nos anos 90, e agora, o que aconteceu?"

O histórico de Clinton, entretanto, nem sempre coincide com o programa de Obama, particularmente durante as últimas quatro semanas quando Obama atribuiu a crise financeira em grande parte à desregulação do mercado financeiro. Foi Clinton que, em 1999, aprovou uma medida de desregulação bancária, transformando-a em lei. (Para complicar mais, dois dos principais ex-conselheiros econômicos de Clinton, Lawrence Summers e Robert Rubin, que incentivaram a desregulação, hoje fazem parte da equipe econômica de Obama.)

Por enquanto, Obama - e Bill Clinton, à medida que faz campanha para o senador de Illinois - estão contentes em enfatizar suas boas memórias.

"Veja a bagunça que temos no nosso sistema financeiro", disse Clinton durante uma parada de campanha em Orlando, Flórida, na semana passada.
"Compare isso ao que aconteceu antes. Não era assim. Isso não é acidental, gente."

(Tradução: Eloise De Vylder)

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