Um abrigo acolhedor no qual os doentes terminais sentem-se em casa

Nancy Lofholm, em Grand Junction, Colorado (EUA)
The Denver Post

Christy Whitney arruma mesas de café, recompõe travesseiros e realinha antiguidades de cerâmica enquanto movimenta-se pelo interior de um prédio em estilo bangalô nas cores creme e dourado.

Com as suas cumeeiras, janelas guilhotinas, colunas trabalhadas, vitrais artísticos e estruturas de carvalho escurecido, esta parece mais uma mansão da década de 1920. Mas não é. Trata-se do mais novo centro para pacientes terminais - uma estrutura hospitalar de US$ 9 milhões e 3.344 metros quadrados. Ela foi engenhosamente disfarçada de habitação inspirada em Frank Lloyd Wright na qual os moribundos podem passar os seus últimos dias com as suas famílias abrigados confortavelmente em um ambiente tranqüilo. "Nós tentamos romper as barreiras em relação a esta instalação - para ajudar a comunidade a aceitar a morte como parte da vida", explica Whitney ao referir-se ao conceito caseiro da instalação, que começou a aceitar pacientes em meados de outubro.

Whitney, diretora-executiva do Hospice & Palliative Care of Western Colorado, influiu em todas as fases da construção e do design. Ela adora colecionar antiguidades de cerâmica, comparece com freqüência às feiras de artesanato, é uma talentosa designer amadora e enfermeira com experiência de quase 30 anos em tratamento em centros para pacientes terminais.

Whitney imaginou como seria a nova instalação, e a seguir contratou a The Blythe Group, uma firma de design e arquitetura de Grand Junction, para construí-la.

O resultado está longe daquela sensação formal e anti-séptica típica dos centros de saúde tradicionais. A porta frontal composta de vitrais abre-se para aquilo que parece ser uma bem arrumada sala de estar. Estantes em carvalho branco exibem trabalhos de cerâmica. A lareira verde-musgo convida as pessoas a descansar no sofá ou a tocar o piano próximo.

Uma capela em um dos lados é a atração do lugar. Os caibros expostos e clarabóias dão ao pequeno aposento uma atmosfera leve. Folhas estilizadas em tons cobre, vermelho e dourado parecem descer flutuando pelos vitrais das janelas. Elas também trazem temas de videiras, com toques sutis de borboletas monarca, que estão em todas as partes da casa, como o carpete, os papéis de parede, os tecidos e as portas.

A designer Pamela Blythe disse que o desafio foi fazer uma decoração bonita e, ao mesmo tempo, atender aos padrões hospitalares - os tecidos precisam ser resistentes ao fogo. A madeira só pode compor a 10% do material das paredes. O assoalho dos quartos dos pacientes precisa ser de vinil.

A parte externa é ainda mais surpreendente. Whitney não queria que o centro se parecesse com um consultório médico. Ela também quis que ele se harmonizasse à uma estrutura vitoriana próxima, que funciona como café administrado pelo centro.

Blythe e o marido dela, o arquiteto Roy Blythe, tornaram isso possível ao ocultar parte da instalação em uma colina, de forma que ela parecesse ter um único andar quando vista de frente. Eles minimizaram o tamanho da construção com colunas, as janelas guilhotinas, cumeeiras altas e baixas e um telhado em vários níveis.

Whitney desejava que cada metro quadrado transmitisse a sensação de um lar - até mesmo nos quartos dos pacientes, que em várias instalações do gênero são tristes e de aparência hospitalar se comparadas às áreas públicas.

Assim, as paredes dos quartos dos pacientes foram pintadas com cores suaves que fazem pensar em chá ou mel, dependendo da direção de onde a luz incide.

E há bastante luz. Cada quarto de paciente tem portas de vidro duplo que abrem-se para pátios, de forma que os pacientes possam ser transportados para fora em cadeiras de roda. Os corredores têm clarabóias e são interrompidos por "nichos de arte" suavemente iluminados - pequenas alcovas com cadeiras e pinturas.

Cada quarto é um pouco diferente. Todos eles têm piso com imitação de madeira com formas geométricas. A roupa de cama tem cor limão pálido, e os quartos contam com comforters macios e fronhas de cor chocolate. Cada um deles conta com trabalhos de arte notáveis de artistas locais ou livros de gravuras antigos que Whitney encontrou no eBay.
E cada quarto traz também tecidos diferentes nas cabeceiras, móveis e travesseiros.

A mobília e os toques de decoração foram cuidadosamente planejados para proporcionar confortos aos pacientes e às suas famílias. Cadeiras e sofás abrem-se, transformando-se em camas. As mesas podem ser ampliadas para permitir que os familiares se distraiam com jogos. Há prateleiras para flores e mesinhas de cabeceira com lâmpadas de leitura. Um armário esconde uma geladeira, uma cafeteira e uma tábua de passar roupa.
Os ventiladores de teto em estilo art deco são bonitos, mas também ajudam com aquilo que os enfermeiros chamam de a "fome de ar" dos moribundos.

Os pacientes e as suas famílias têm banheiros privados. Mas há também um "spa" para pacientes com um mosaico em estilo toscano em uma das paredes e desenhos intricados no teto, feitos com pastilhas de azulejo, que proporcionam um pouco de beleza para quem estiver em uma das banheiras de hidromassagem.

Muitos desses detalhes foram frutos de sugestões que funcionários de casas para pacientes terminais escreveram em um quadro a pedido de Whitney. Tais detalhes também foram descobertos nas viagens de Whitney pelo país para ver outras casas do gênero, ou baseiam-se na sua experiência pessoal.

Ela passou uma semana em ao lado do leito da filha doente, e logo descobriu que os hospitais não foram projetados para acolher os familiares dos pacientes. Não havia lugar para que ela tomasse banho ou um abrigo contra a luz ofuscante durante as visitas das enfermeiras no meio da noite. Nenhum lugar para colocar uma Coca-Cola ou um livro, a menos que ela equilibrasse uma bandeja do refeitório em uma cesta de lixo. Ela decidiu que a família deveria ser uma prioridade no design.

É por isso que há uma cozinha e uma sala de jantar onde as famílias podem sentar-se juntas e até preparar as suas próprias refeições. A biblioteca é um lugar tranqüilo para que as pessoas sentem-se em uma cadeira super macia. Um restaurante aconchegante no andar térreo é aberto para o público e para as famílias dos pacientes.

Para Whitney, Blythe e outros que participaram da construção, trabalhar com design para a morte não é de forma alguma uma atividade macabra. O projeto teve como foco a dignidade, o conforto e a sensação de estar em casa.

"Queremos que tudo transmita a sensação do lar", diz Whitney enquanto continua a sua inspeção, enfiando um dedo em um vaso de plantas para se certificar de que a terra está úmida, movendo uma cesta de lixo para um lugar melhor e esticando as colchas das camas. UOL

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