Trabalhadores estrangeiros nos EUA voltam para casa diante do enfraquecimento da economia

Bruce Finley
The Denver Post

Uma economia mais apertada e a hostilidade social estão levando imigrantes antes esperançosos a deixarem os EUA.

Sete anos após cruzar ilegalmente a fronteira para entrar nos EUA e encontrar muito trabalho como cozinheiro e servente, Absalom Lopez - com a mulher e o filho de 6 anos nascido em Denver- planejam realizar o sonho de abrir uma fábrica de "tortillas" no México.

Seu salário combinado de US$ 1.000 por semana (em torno de R$ 2.000) mergulhou nos últimos meses para cerca de US$ 300 (R$ 600). Eles estão se mudando de uma casa alugada por US$ 700 por mês em um subúrbio de Denver para um apartamento mais barato de dois quartos, até partirem para Veracruz, no ano que vem, disse Lopez.

Os comentários negativos e os salários mais baixos para trabalhadores latinos "magoam", disse ele, citando o ambiente social como fator para a decisão da família.

"O México é um lugar melhor para criar um filho. Se ficarmos mais tempo, vamos perder dinheiro, porque não vai haver trabalho suficiente."

Um número crescente de famílias imigrantes está tendo que desatar os laços com o país por causa da dificuldade econômica e estão calculando se devem ir ou ficar. Qualquer êxodo virá somar-se a uma migração fortemente reduzida para os EUA, segundo mostram as pesquisas recentes, tanto nos EUA quanto no México.

"Essa crise nos EUA está afetando muitos mexicanos. Eles vieram para cá em busca de oportunidades. Agora, alguns estão pensando em voltar para o México. Alguns estão se mudando para outros Estados. Essas pessoas estão acostumadas a lidar com dificuldades", disse Eduardo Arnal, cônsul-geral do México em Denver.

Os latinos, metade deles imigrantes, compõem 14% da força de trabalho da nação, segundo estimativas recentes.

Os sinais do êxodo gradual são encontrados em muitas partes.

  • O governo mexicano observou que, a partir de setembro, mais trabalhadores fazem fila em seu consulado em Denver para pedir isenção de impostos para a importação dos bens comprados nos EUA, garantida aos que estão voltando para casa. No ano passado, recebiam dois pedidos por semana. Atualmente, são três pedidos por dia, além de dezenas de pessoas tirando passaportes e outros documentos, disseram as autoridades.

  • Os negócios estão em alta para os revendedores de automóveis que trabalham com os imigrantes e aceitam apenas dinheiro em Denver. Os trabalhadores mexicanos estão comprando caminhonetes baratas para transportar seus pertences -1998 ou mais novas, para cumprir as leis ambientais mexicanas. Maria Casillas, da Sierra Auto Sales, disse que ela e seu marido venderam 21 veículos nos últimos três meses, o triplo do número vendido durante o mesmo período em 2007.

    "Eles dizem que vão para casa porque não há trabalho e não podem pagar o aluguel. As crianças de uma família não queriam ir porque não conheciam ninguém lá."

  • Dados bancários mostram que a quantidade de dinheiro que os trabalhadores mexicanos enviam para casa está caindo pela primeira vez em uma década. O México passou a depender dessas remessas, que totalizaram US$ 24 bilhões (cerca de R$ 48 bilhões) no ano passado.

  • As empresas de ônibus dizem que os ônibus para o México estão enchendo mais rapidamente do que o normal. Desde outubro, quatro ônibus de 55 assentos partem por dia da central de Autobuses Americanos de Denver. O gerente José Hernandez disse que isso só acontecia nas férias de dezembro. "Alguns estão comprando apenas passagem de ida", disse ele. "Você entende que eles não vão voltar".

    Imigrantes da América Central e do México freqüentemente têm que fazer uma dura escolha pois as oportunidades econômicas em suas comunidades freqüentemente são piores. O desemprego aflige as áreas rurais do México. As montadoras estrangeiras pagam apenas US$ 50 (em torno de R$ 100) por semana.

    Recentemente, uma senhora chorava abraçada ao seu marido, na porta do consulado mexicano em Denver. Ela criou três filhos nos EUA e, durante 15 anos, o trabalho do marido em construção, dirigindo caminhão e soldando dava o suficiente para pagar as parcelas da hipoteca de US$ 1.200 por mês de uma casa no subúrbio de Aurora - apesar de estarem no país ilegalmente.

    Agora, após um ano sem trabalho, estão ameaçados de despejo. Eles não conseguiram nem pagar a taxa de US$ 95 pela permissão de importação que as autoridades mexicanas ofereceram para transportar as posses para o México. Eles pediram que seus nomes não fossem revelados por causa de sua situação na imigração, mas estavam no processo de carregar sua camionete Ford e partir na direção Sul, em busca de uma vida mais barata em Juarez.

    Dentro do consulado, o construtor desempregado Antonio Manzo, 30, que está de partida para o México, disse que só voltaria ao Colorado legalmente. Há uma década, ele e outros imigrantes pagaram US$ 1.500 (aproximadamente R$ 3.000) cada para contrabandistas e quase morreram cruzando o deserto para entrar ilegalmente, disse Manzo.

    O presidente eleito Barack Obama teria que encontrar uma forma para os mexicanos qualificados trabalharem aqui legalmente, com dignidade, disse ele. Hoje ele está deixando com relutância amigos próximos em Colorado e tentando olhar pelo lado positivo. Ele e sua noiva, Olga Guzman, de Sonora, planejam se casar depois de visitarem seus pais em Michuacan. Durante anos, Manzo enviou à família US$ 200 (cerca de R$ 400) por mês -até este ano.

    "Eles compreendem", disse Manzo. "Eles dizem: 'Se não há muito para você fazer aí agora, melhor voltar para casa'".

    Defensores da redução da imigração argumentam que o reforço na fiscalização, tanto nos locais de trabalho quanto ao longo das fronteiras, também contribuiu para a partida dos moradores ilegais.

    "Apesar do desaquecimento na construção civil e em outras indústrias com certeza ter contribuído para o declínio, há várias razões para crer que a fiscalização foi um importante fator na decisão dos imigrantes ilegais de partirem. Primeiro de tudo, o declínio no número de imigrantes ilegais começou antes do seu índice de desemprego subir; no passado, vimos quedas bem menores na população ilegal, mas apenas após seu índice de desemprego subir", escreveu Mark Krikorian, diretor executivo do Centro de Estudos da Imigração, em recente coluna.

    O centro hispânico Pew estimou, com base em pesquisas, que a população de imigrantes sem documentos nos EUA caiu de 12,4 milhões em 2007 para 11,9 milhões em março. O centro também estima que, pela primeira vez em mais uma década, há mais imigrantes chegando legalmente nos EUA do que ilegalmente.

    Autoridades mexicanas têm números similares e estimaram na semana passada que o número de pessoas deixando a nação caíra 42% desde 2006.

    Entretanto, mesmo levando em conta essas estimativas e as indicações de um êxodo, milhares de imigrantes continuam no país, caçando empregos diários.

    Esperando em uma rua movimentada a Leste de Denver com outros homens desiludidos, Alejandro Cruz, 30, fez uma careta diante da perspectiva de trabalhar por US$ 50 por semana fazendo calças Dockers em uma fábrica perto de sua casa.

    Por outro lado, ele nunca conheceu sua filha de dois anos de idade, Barbara, e quer estar com seus três filhos que talvez o tenham esquecido, disse Cruz, que mendigou a passagem de volta para partir do final de novembro.

    "Aqui não há trabalho. Melhor morar com a minha família", disse ele.

    A mudança na dinâmica EUA-México espelha mudanças similares em outras partes. No Reino Unido, trabalhadores poloneses estão partindo em busca de melhores oportunidades na Polônia, disse Bela Hovy, chefe da seção de migração na divisão de população da Organização das Nações Unidas, em Nova York.

    Países como o Brasil, que antes eram pobres e agora têm economias crescentes, podem empregar cada vez mais trabalhadores, disse Hovy. Uma mistura fluida global está emergindo na qual "todo país está se tornando um país de origem, um país de destino e um país de trânsito", disse ele.

    Autoridades mexicanas estão olhando para o futuro, enquanto sua população envelhece e os imigrantes voltam sem habilidades de trabalho e pressionam por oportunidades em casa. O México iniciou programas para a promoção de pequenas empresas e de micro-crédito. O governo ajuda as famílias a transferirem o histórico escolar das crianças nascidas nos EUA disse Arnal, do consulado do México.

    "Somos um país rico. Nosso problema é que a riqueza está em poucas mãos", disse ele. "Estamos contentes com a parada na imigração porque vamos procurar pessoas para trabalhar no México... o problema é que elas não terão salários bons." Deborah Weinberg
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