Falência da indústria automotiva será um desastre, diz representante

David Stout
Washington (EUA)

Os diretores-executivos das Big Three [três maiores fabricantes de automóveis dos EUA] voltaram ao Capitólio na sexta-feira, na esperança de finalmente convencer os membros da Câmara dos deputados, já alarmados com os últimos números de desemprego que eles apresentaram, a fazerem as mudanças necessárias para que as companhias sobrevivam.

"Espero que façamos alguma coisa", disse o representante Barney Frank, democrata de Massachusetts que lidera o Comitê de Serviços Financeiros, logo após a divulgação do relatório de desemprego de novembro, que mostrava as maiores perdas de postos de trabalho em mais de três décadas.

Não fazer nada, com os números de novembro mostrando uma perda de mais de meio milhão de empregos em todo o país, seria um "desastre", alertou Frank, expressando as preocupações que dominaram a maior parte da sessão.

Conforme a audiência prosseguia, parecia haver um sentimento crescente de que algo deveria ser feito para salvar as companhias de Detroit, mas havia também divergências persistentes em relação à origem do dinheiro, e quanto à estrita supervisão que deveria ser feita caso algum dinheiro federal fosse aprovado. Havia também uma inclinação para mexer nos US$ 700 bilhões do chamado Tarp (Troubled Asset Relief Program), programa destinados a salvar os bancos, aprovado pelo Congresso em setembro num esforço para atacar a crescente crise financeira.

Mas o presidente Bush é contra usar o dinheiro do Tarp para ajudar os fabricantes de automóveis. Ele pediu, em vez disso, para redirecionar os US$ 25 bilhões que já haviam sido destinados às companhias para fazer veículos mais econômicos. Mas as montadoras dizem que a quantia não será suficiente, e o presidente não indicou nenhuma mudança de posicionamento na sexta-feira.

"Estou preocupado com a viabilidade das companhias automotivas", disse Bush. "E da mesma forma, estou preocupado em dar o dinheiro dos contribuintes para companhias que podem não sobreviver".

Os executivos da indústria automobilística, que enfrentaram ceticismo e até mesmo hostilidade em suas aparições no Capitólio, podem ter ouvido um vislumbre de esperança nas palavras do líder republicano, o representante Spencer Bachus do Alabama, que disse que ele poderia concordar com uma "assistência limitada de transição" para a General Motors, Ford e Chrysler.

"O que nós precisamos é de uma solução, não de uma primeira parcela", disse Bachus, enfatizando que ele ainda precisava ser convencido de que as companhias tinham uma chance considerável de sobreviver.

A posição de Bachus parecia menos firme do que de seu colega republicano do Alabana, senador Richard C. Shelby, que reiterou na audiência de quinta-feira no Comitê Bancário do Senado sua oposição a qualquer plano de ajuda para os fabricantes de automóveis, que foram, segundo ele, são responsáveis por seus próprios problemas

Os diretores das companhias ouviram sermões durante toda a manhã, ainda que tenham herdado os problemas atuais dos executivos de outra época, quando Detroit comandava o mundo dos automóveis, os consumidores pareciam querer carros grandes e a gasolina era barata.

Rick Wagoner, presidente da General Motors, disse que a GM estava celebrando seu centenário este ano e relembrando seus "muitos sucessos".

"Nós também aprendemos com os erros que cometemos", disse Wagoner.

Ele afirmou que se sua companhia tomar emprestado algum dinheiro dos contribuintes, a quantia poderá ser devolvida no final de 2012.

E se uma das Big Three falir, perguntou um dos membros do comitê.
Poderia haver uma reação em cadeia que também derrubaria as outras duas, repercutindo em toda a economia à medida que as companhias de fornecedores de Detroit também entrassem em colapso?

A resposta coletiva dos executivos da indústria e dos líderes sindicais do setor foi sim. Além de Wagoner, estavam testemunhando:
Robert L. Nardelli e Alan R. Mulally, chefes da Chrysler e Ford, respectivamente, e Ron Gettelfinger, chefe da União dos Trabalhadores da Indústria Automobilística, que agora está preparado para sacrificar o que há até pouco tempo era impensável para a associação.

Mesmo os integrantes do comitê da Câmara, que deram a entender na sexta-feira que poderiam considerar algum tipo de ajuda para as companhias automobilísticas tiveram palavras duras para os executivos.

"Foram vocês mesmos que deixaram a indústria nessas condições", disse o representante Gary Ackerman, democrata de Nova York. Ele disse que ficou impressionado com fato de que o primeiro encontro com os executivos concluiu que eles precisavam de cerca de US$ 25 bilhões de ajuda para continuar funcionando. Mas agora, disse, eles afirmam que precisam de US$ 34 bilhões.

O representante Peter King, republicano de Nova York, disse que pode apoiar algum tipo de ajuda ("Não estou dizendo que não vão apoiar"), desde que seja convencido de que ela "tenha uma chance razoável de funcionar".

Nardelli reconheceu que as companhias estavam buscando "uma quantia significativa de dinheiro público", mas disse que aos legisladores que disponibilizar o dinheiro seria "a alternativa menos onerosa".

Ele afirmou que sua companhia se tornou uma empresa voltada para o futuro e provavelmente terá centenas de milhares de carros elétricos nas ruas dentro de cinco anos.

O representante Paul E. Kanjorski, democrata da Pensilvânia, ecoou a angústia política que os legisladores estão sentindo, dada a hostilidade pública em relação ao empréstimo, como revelaram as pesquisas de opinião, e os novos e drásticos números do desemprego.

Se o Congresso oferecer assistência aos fabricantes de carros, disse Kanjorski, ele já é capaz de ouvir os constituintes, especialmente aqueles com dificuldades nos próprios negócios, dizendo: "Bem, vocês deram todo aquele dinheiro às companhias de carros, porque não podem me ajudar?"

A representante Carolyn McCarthy, democrata de Nova York, disse que os pedidos dos executivos estavam repletos de números e de uma linguagem complicada e bastante destituídos de um inglês claro. "Eles têm de aprender a falar para o povo americano", disse ela. "Há um problema político aqui".

Alguns legisladores pareciam estar despejando anos de ressentimento reprimido contra a indústria de carros baseado na percepção de que, quando as companhias iam bem, elas não hesitaram em usar seus músculos políticos para lutar contra as normas de eficiência de combustível e contra a poluição, por exemplo.

A representante Carolyn Maloney, democrata de Nova York, falou sobre a história de ressentimento. Se o Congresso chegar a ajudar as companhias, ela perguntou retoricamente aos executivos, "vocês irão usar esse dinheiro para nos processar?" Eloise De Vylder

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