Uma nova chance para Darfur

Nicholas D. Kristof

Se Barack Obama quiser ajudar a acabar com o genocídio em Darfur, não terá de procurar idéias muito longe. O presidente Bush e seus principais auxiliares receberam, e ignoraram, um menu de opções de ações duras para pressionar o Sudão - até mesmo destruindo sua Força Aérea - que em breve estará sobre a mesa do novo presidente.

A equipe de planejamento político do Departamento de Estado preparou o primeiro conjunto de respostas possíveis (que nunca foram adotadas) em 2004, e este ano o próprio embaixador Richard Williamson instigou a Casa Branca a pressionar o Sudão até que ele pare com a matança.

Williamson, que é o enviado especial do presidente Bush ao Sudão, escreveu um memorando duro para Bush no outono descrevendo três atitudes específicas que os Estados Unidos poderiam tomar para pressionar o líder do Sudão, o presidente Omar Hassan al-Bashir:

- Os Estados Unidos poderiam bloquear todas as comunicações na capital sudanesa de Cartum. Isso incluiria todas as ligações telefônicas, todos os serviços de telefonia celular, todo o acesso a Internet.
Depois de dois dias, tendo demonstrado a vulnerabilidade do Sudão, os Estados Unidos poderiam interromper o bloqueio.

- Os Estados Unidos poderiam exercer uma pressão progressiva em relação a Porto Sudão, de onde saem as exportações de petróleo do país e de onde vêm sua renda. O primeiro passo seria enviar navios da marinha para a área do porto. O próximo passo seria fazer buscas nos navios, fazendo alguns retornarem. E o passo final seria impor uma quarentena e interromper as exportações de petróleo do Sudão.

- Os Estados Unidos poderiam alvejar aeronaves militares sudanesas que desafiam o boicote da ONU aos vôos militares ofensivos em Darfur. O primeiro passo seria destruir helicópteros de guerra, no solo, à noite. Uma abordagem mais dura seria alertar o Sudão de que, a menos que ele cumpra a demanda internacional (entregando suspeitos indiciados pelo Tribunal Penal Internacional, por exemplo), perderia toda a sua Força Aérea. E, por fim, se o país não cumprir com as exigências, destruir todas as suas aeronaves militares no solo.

Autoridades frustradas com a passividade do governo me falaram sobre essas medidas, em parte para deixar claro que Obama pode fazer mais do que Bush se tiver vontade política para tanto.

Williamson foi um dos heróis não reconhecidos do governo Bush, lutando tenaz e secretamente - ameaçando até renunciar por duas vezes - para redimir a honra americana ao confrontar o genocídio. O próprio Bush parecia aberto a tomar atitudes mais duras, dizem as autoridades, mas a secretária de Estado Condoleezza Rice e Stephen Hadley, o conselheiro nacional de segurança, sempre resistiram, apoiados pelo Pentágono. Rice e Hadley mancharam sua própria honra e a dos Estados Unidos defendendo, de fato, a aquiescência em relação ao genocídio.

O argumento dos opositores era simples: esses passos eram demasiado sérios, com graves repercussões.

Eles estão certos. Mas por outro lado, o genocídio também é algo muito sério.

É algo que Obama e seus auxiliares compreendem. E em parte por esse motivo, o Sudão teme o governo Obama, e agora, pela primeira vez em anos, existe a possibilidade real de retirar Bashir do poder e terminar com seu regime assassino.

Vários fatores se aliaram para isso. Os líderes em Cartum sentem que seu governo está enfraquecendo, principalmente depois que os rebeldes entraram em conflito com soldados do governo nos arredores de Cartum no começo deste ano. Eles sabem que o Tribunal Penal Internacional deve divulgar um mandato de prisão para Bashir, provavelmente em fevereiro, e que nenhum outro alto líder será indiciado depois de Bashir.

A China, que há anos tem sido o mais importante aliado internacional de Bashir, parece estar retirando seu apoio - da mesma forma que acabou abandonando outros aliados genocidas como Slobodan Milosevic e o Khmer Vermelho. E o Estado árabe de Qatar lidera hoje uma iniciativa diplomática séria para tentar terminar com a matança.

Assim, há cada vez mais rumores de que figuras-chave do regime do Sudão podem abandonar Bashir nos próximos meses. Os outros líderes também são cruéis e têm sangue nas mãos, mas alguns já se mostraram mais dispostos a negociar acordos do que Bashir.

Pairando no cenário existe o risco de que a guerra norte-sul do Sudão seja retomada, levando a uma matança ainda pior do que a de Darfur. O mau presságio se deve ao fato de que o Sudão está estocando dinheiro e armas, aparentemente para entrar em guerra contra o sul mesmo que Porto Sudão seja bloqueada.

Williamson sugeriu fornecer mísseis de terra-ar para o governo autônomo do sul do Sudão. Esse armamento reduziria as chances de que o Sudão atacasse o sul.

Se Obama e seus auxiliares conseguirem trabalhar com a Europa, a China e Qatar para manter a pressão - e deixar claro que o Sudão não tem escolha a não ser entregar Bashir assim que o tribunal enviar o mandato de prisão - apenas então possamos talvez evitar uma nova guerra e terminar com o primeiro genocídio do século 21 no ano novo... Eloise De Vylder

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