Os desafios de Barack Obama: Iraque, Paquistão e Afeganistão

Por Noam Chomsky*

(Noam Chomsky avalia as perspectivas do governo de Barack Obama em uma série dividida em duas partes. A primeira parte, sobre a economia, foi publicada no mês passado).

A disposição de Barack Obama para "conversar" com os inimigos foi um dos temas que definiu sua campanha pela presidência. Será ele capaz de cumprir essa promessa?

A diplomacia é a única alternativa sã para o ciclo de violência que atinge desde o Oriente Médio até a Ásia Central e ameaça devorar o mundo. Um corolário é reconhecer que a violência somente gera mais violência. Também ajudaria se o governo de Obama, e o Ocidente, enfrentassem os motivos não declarados que movem a política na região.

Iraque

O governo do Iraque elaborou um Acordo sobre o Status das Forças de ocupação [Sofa, em inglês], aceito com relutância por Washington, e que tem como propósito por fim à presença militar norte-americana no país árabe. O acordo é o último passo no processo de resistência não violenta em massa que obrigou Washington, pouco a pouco, a aceitar as eleições e o aumento da independência do país ocupado.

Um porta-voz iraquiano disse que a tentativa de acordo "se ajusta à visão do presidente eleito dos Estados Unidos Barack Obama". A "visão"
de Obama não está claramente definida, mas ele provavelmente aceitará, de alguma forma, as demandas do governo iraquiano. Se for assim, isso exigirá modificações nos planos dos Estados Unidos para assegurar o controle sobre as enormes reservas de petróleo do Iraque enquanto estabelece bases para reforçar seu domínio na região mais importante do mundo em termos de produção de energia.

Vale à pena destacar que pesquisas recentes em todo o mundo mostram uma forte oposição à existência de bases navais dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. A oposição é particularmente forte dentro da região.

A perspectiva de transferir as forças do Iraque para o Afeganistão evocou uma lição por parte dos editores do jornal The Washington Post:
"Apesar de os Estados Unidos terem interesse em evitar o ressurgimento do Talibã afegão, a importância estratégica do país empalidece diante da do Iraque, que repousa no centro geopolítico do Oriente Médio e contém algumas das maiores reservas de petróleo do mundo". Este é um bem-vindo reconhecimento da realidade, uma vez que os pretextos de segurança e promoção da democracia não podem continuar ocultando os reais interesses e intenções.

O comando da Otan também está começando a reconhecer a importância da questão energética. Em junho de 2007, o secretário-geral da Otan, Jaap de Hoop Scheffer, informou durante uma reunião de membros que "as tropas da Otan têm que proteger os dutos que transportam óleo e gás para o Ocidente", e de modo geral as rotas marítimas usadas pelos petroleiros e outras "infra-estrutura crucial" do sistema energético.

A tarefa provavelmente inclui o projeto de US$ 7,6 bilhões do gasoduto Tapi, que transportaria gás natural do Turcomenistão para o Paquistão e a Índia, passando pela província de Kandahar, no Afeganistão, para onde foram enviadas tropas canadenses. O objetivo é "bloquear um gasoduto concorrente que levaria gás para o Paquistão e a Índia através do Irã" e "diminuir a dominação da Rússia sobre as exportações para a Ásia Central", informou o jornal The (Toronto) Globe and Mail, provavelmente esboçando os contornos do novo "Grande Jogo" (nome dado à competição entre a Grã-Bretanha e a Rússia pela influência na Ásia Central durante o século 19).

Paquistão

Obama endossou a política de Bush de atacar supostos líderes da al-Qaida em países que os Estados Unidos (ainda) não invadiram. Em particular, ele não criticou as operações com aviões Predator guiados por controle remoto que mataram muitos civis no Paquistão.

Nesse momento, uma impiedosa mini-guerra está sendo travada na região tribal de Bajaur no Paquistão, próxima ao Afeganistão. A BBC descreve a destruição extensa por conta do intenso combate: "Muitos em Bajaur acreditam que a raiz do conflito tenha sido um suposto ataque de um míssil norte-americano a um seminário islâmico, ou madrassa, em novembro de 2006, que matou cerca de 80 pessoas".

O ataque foi denunciado à imprensa paquistanesa pelo respeitado físico dissidente Pervez Hoodbhoy, mas foi ignorado nos Estados Unidos. As coisas normalmente parecem ser diferentes do outro lado do cassetete.

Hoodbhou observou que o resultado normal de ataques como esse "tem sido casas postas abaixo, crianças mortas ou mutiladas, e uma parcela crescente da população local que busca vingança contra o Paquistão e os EUA". Bajaur ilustra o ciclo vicioso que hoje Obama não parece disposto a romper.

Em 3 de novembro, o general David Petraeus, recém apontado para o cargo de chefe do Comando Central das Forças Armadas dos EUA, que cobre o Oriente Médio, teve sua primeira reunião com o presidente paquistanês Asif Ali Zardani, com o chefe do exército general Ashfaq Parvez Kayani e outras autoridades.

Os líderes paquistaneses explicitaram sua maior preocupação. "Os ataques remotos contínuos em nosso território, que resultam em perdas de preciosas vidas e propriedades, são contraproducentes e difíceis de serem explicados por um governo eleito de forma democrática", disse Zardari a Petraeus. Seu governo, disse ele, está "sob pressão para reagir de forma mais agressiva" aos ataques. Isso poderia levar a "uma repercussão negativa contra os EUA", já bastante impopulares no Paquistão.

Petraeus disse que ele havia ouvido a mensagem, e disse: "teremos de levar em conta (a opinião paquistanesa)" ao atacar o país - o que é uma necessidade prática, sem dúvida, já que mais de 80% dos suprimentos para a guerra dos EUA-Otan no Afeganistão passam pelo Paquistão.

A forma como a opinião paquistanesa foi "levada em conta" foi revelada duas semanas depois pelo jornal The Washington Post, que informou que os Estados Unidos e o Paquistão haviam chegado a um "acordo tácito em setembro (2008) para uma política de não-pergunte-não-responda que permite que aviões Predator sem tripulação ataquem supostos alvos terroristas" no Paquistão, de acordo com altos funcionários não identificados de ambos os países. "Os funcionários descreveram que, segundo o acordo, o governo dos EUA se recusa a reconhecer publicamente os ataques, enquanto o governo do Paquistão continua a reclamar ruidosamente dos ataques politicamente sensíveis".

No dia anterior à publicação da notícia do "acordo tácito", um ataque suicida nas regiões tribais conflituosas matou oito soldados paquistaneses - em retaliação a um ataque remoto com um avião Predator que havia matado 20 pessoas, incluindo dois líderes do Talibã. O Parlamento paquistanês decidiu abrir diálogo com o Talibã. Comentando a resolução, o ministro das relações exteriores do Paquistão, Shah Mehmood Qureshi disse: "Há uma compreensão cada vez maior de que o uso da força apenas não poderá produzir os resultados desejados".

Afeganistão

A primeira mensagem do presidente afegão Hamid Karzai para o presidente-eleito Obama foi muito parecida com a enviada a Petraeus pelos líderse paquistaneses: "Pare com os ataques aéreos dos EUA que colocam as vidas de civis em risco". Sua mensagem foi enviada logo depois que tropas de coalizão bombardearam uma festa de casamento na província de Kandahar, matando 40 pessoas, de acordo com relatos. Não há indicações de que sua opinião tenha sido "levada em conta".

Arriscando uma fissura nas relações com os Estados Unidos, o comando britânico alertou que não há uma solução militar para o conflito no Afeganistão e será necessário negociar com o Talibã, informou o jornal The Financial Times. Os assuntos já estão na mesa, escreveu Jason Burke, correspondente do The Observer com vasta experiência na região:
"O Talibã esteve envolvido em negociações secretas para terminar o conflito no Afeganistão com um amplo 'processo de paz' patrocinado pela Arábia Saudita e apoiado pela Inglaterra".

Alguns ativistas afegãos pela paz têm reservas quanto a essa abordagem, preferindo uma solução sem interferência estrangeira. Uma rede crescente de ativistas pela paz está convocando negociações e a reconciliação com o Talibã numa Jirga pela Paz Nacional, uma grande assembléia de afegãos, formada em maio de 2008.

Num encontro em maio em apoio à Jirga, 3 mil políticos e intelectuais afegãos, principalmente do grupo étnico pashtuns, o maior grupo do país, criticaram "a campanha militar internacional contra os militantes islâmicos no Afeganistão e pediram o diálogo e o fim da guerra", informou a agência France-Presse.

O presidente interino da Jirga Nacional pela Paz, Bakhtar Amianzai, "disse no encontro de abertura que o conflito atual não poder ser resolvido por meios militares e que apenas as conversas podem trazer uma solução".

Um líder da Juventude Desperta do Afeganistão, um importante grupo anti-guerra, disse que os EUA têm que acabar com o "Afeganicídio - o assassinato do Afeganistão".

Fazer pesquisas de opinião no Afeganistão destruído pela guerra é difícil, mas os resultados merecem atenção. Uma pesquisa canadense descobriu que os afegãos são a favor da presença do Canadá e de outras tropas estrangeiras - resultado que ganhou as manchetes no Canadá.
Outras descobertas devem ser examinadas com cautela.

Apenas 20% dos afegãos da pesquisa "acham que o Talibã prevalecerá uma vez que as tropas estrangeiras saiam do país". Três quartos apóiam negociações entre o governo de Karzai e o Talibã, e mais da metade é a favor de um governo de coalizão. A grande maioria, portanto, discorda fortemente do foco dos EUA-Otan numa maior militarização do conflito, e parece acreditar que a paz é possível com a adoção de meios pacíficos.

Um estudo sobre os guerrilheiros talibãs feito pelo The Globe and Mail, apesar de não se tratar de uma pesquisa científica como diz o jornal, proporciona, de qualquer forma, uma compreensão considerável. Todos eram afegãos pashtuns, da região de Kandahar. Eles descreveram a si mesmos como Mujahadeen, e seguem a antiga tradição de expulsar invasores estrangeiros. Quase um terço informou que pelo menos um membro da família morreu por conta de bombardeios aéreos nos últimos anos.

Muitos disseram que estavam lutando para defender os afegãos dos ataques aéreos de tropas estrangeiras. Poucos disseram estar lutando uma jihad global, ou ter lealdade para com o líder Talibã Mullah Omar. A maioria acredita que está lutando por princípios - um governo islâmico - não por um líder. Mais uma vez, esses resultados sugerem possibilidades para a negociação de um acordo pacífico, sem interferência estrangeira.

Na revista Foreign Affairs, Barnett Rubin e Ahmed Rashid recomendaram que a estratégia dos EUA deveria abandonar a idéia de mais tropas e ataques no Paquistão em favor de "uma grande negociação diplomática - criando compromisso com os insurgentes enquanto lida com uma série de rivalidades e inseguranças regionais".

O atual foco militar "e o terrorismo subseqüente", alertam, pode levar ao colapso do Paquistão, que têm armas nucleares, com conseqüências funestas. Eles conclamam o governo dos EUA a "colocar um fim às dinâmicas cada vez mais destrutivas do Grande Jogo na região" através de negociações que reconhecem os interesses das partes interessadas dentro do Afeganistão assim como no Paquistão e Irã, mas também da Índia, China e Rússia, que "têm reservas em relação a uma base da Otan dentro de suas próprias esferas de influência" e estão preocupados com as ameaças "representadas pelos Estados Unidos e Otan" assim como pela al-Qaida e o Talibã.

O próximo presidente dos EUA, segundo os autores, precisa acabar com a "fraqueza de Washington pela vitória" como solução para todos os problemas, e com a relutância dos Estados Unidos em envolver concorrentes, oponentes ou inimigos na diplomacia".

Desde o início, em vários pontos da zona de perigo, o governo Obama poderia agir para quebrar esse sinistro ciclo de violência.

*(Os escritos de Noam Chomsky sobre lingüística e política foram recentemente reunidos no livro "The Essential Chomsky", editado por Anthony Arnove, da New Press. Chomsky é professor emérito de lingüística e filosofia no Massachusetts Institute of Technology em Cambridge, Massachusetts.) Eloise De Vylder

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