Obama: o vendedor de esperança

Jorge Ramos
Colunista do The New York Times*

Pobre Barack Obama. Inevitavelmente ele decepcionará muitas pessoas. Há tantas esperanças e aspirações depositadas em seus ombros que será impossível para ele atender a todas.

Todo mundo espera que ele resolva a crise econômica global, coloque um fim à guerra no Iraque, capture Osama Bin Laden, detenha o aquecimento global, obtenha um acordo entre israelenses e palestinos, ressuscite a América Latina, África e Ásia, coloque um fim a todas as ditaduras e faça tudo o que os últimos 10 presidentes americanos não conseguiram.

Obama tem uma missão impossível. Nem mesmo cem anos seriam suficientes para completar todas estas metas.

É impressionante como por todo o mundo as pessoas estão esperando grandes coisas de Obama. Há não muito tempo eu entrevistei a ex-refém colombiana Ingrid Betancourt, e ela me disse que seu desejo é que Obama ajude no processo de paz e libertação de centenas de pessoas seqüestradas pelos guerrilheiros das Farc na Colômbia.

O presidente mexicano, Felipe Calderón, também não quis ficar para trás, sugerindo que Obama deveria ajudar a criar empregos... no México.

E até mesmo os co-ditadores de Cuba, os irmãos Fidel e Raúl Castro, esperam que Obama remova o embargo contra a ilha.

Se você não acredita em mim, tente este experimento. Pergunte a alguém sobre o presidente eleito americano, e a resposta quase sempre começa com algo assim: "Eu acho que Barack Obama deve..."

Sim, tudo aquilo que não gostamos neste mundo e queremos mudar, nós podemos mandar para a Casa Branca, aos cuidados de Barack Obama.

Por ora, antes mesmo de passar sua primeira hora como presidente, muitos pensam nele como se fosse Super Obama. E isto porque Obama parece ter saído do nada e agora está prestes a se tornar o homem mais poderoso do planeta. Não é algo pequeno.

Após apenas quatro anos no Senado, ele anunciou sua candidatura à presidência. Muitos disseram que ele era um sonhador, que não teria condições de vencer. Mas ele venceu.

Depois disso, os políticos mais experientes e jornalistas veteranos, sobreviventes de milhares de batalhas, disseram que Obama nunca conseguiria derrotar a máquina de Clinton. Mas de alguma forma ele conseguiu tomar a indicação pelo Partido Democrata de Hillary.

Bem, Obama chegou ao seu limite, pensaram os republicanos. É impossível que um jovem afro-americano, de apenas 47 anos, possa derrotar um herói de guerra como John McCain, em um país que ainda não superou o racismo. Ele nunca sobreviverá aos ataques pessoais e falsas declarações, como aquelas que o acusaram de ser amigo terroristas e ter uma agenda socialista secreta, eles disseram. Estavam errados. Obama derrotou McCain: ele obteve 365 votos eleitorais contra magros 173 de McCain.

Em outras palavras, toda vez que apostaram contra Obama, ele venceu. Este é o motivo para ele ter uma reputação de ser invencível (apesar de que isso não durará muito).

O que aconteceu é que Obama conseguiu vender esperança durante sua campanha presidencial. E aquele que planta esperança, colhe expectativa. Tanto, que há vários grupos que nem mesmo lhe darão um mês na Casa Branca até começarem a exigir resultados.

Minha previsão é de que Obama terá uma lua-de-mel muito curta. Ela durará até o dia da divulgação dos primeiros números de desemprego do seu governo, ou quando o mercado de ações cair de novo.

Enquanto isso, Obama é como Papai Noel com um saco gigante de presentes. E como todo mundo está pedindo por algo, isto é o que eu diria caso cruzassem com ele em uma rua em Washington:

Você se lembra da entrevista que me deu em 28 de maio de 2008, em uma estação de trem em Denver? É claro que não. Foi uma das milhares de entrevistas que deu à imprensa. Mas não se preocupe. Eu o recordarei.

Quando lhe perguntei se estaria disposto a legalizar os milhões de imigrantes sem documentação durante os primeiros 100 dias de seu governo, você disse que não. Mas então acrescentou: "O que posso garantir é que teremos um projeto de lei de imigração no primeiro ano".

Perfeito. Esta promessa é mais que suficiente; certifique-se de cumpri-la, eu diria, e então me despediria. Outros viriam atrás de mim para apresentar seus desejos ao novo Aladdin da política mundial.

Esta promessa feita por Obama significa que antes de 20 de janeiro de 2010, milhões de pessoas poderão sair das sombras nos Estados Unidos. Os países se definem pela forma como tratam seus membros mais fracos. No caso dos Estados Unidos, o segmento mais fraco e vulnerável é o dos imigrantes ilegais.

E encerrarei isto com uma história. Em 5 de novembro, um dia após a eleição de Obama, eu estava em Los Angeles escutando a uma emissora de rádio de língua espanhola. O clima era eufórico. O locutor dizia o que sua audiência também estava dizendo: ontem nós vivíamos sem esperança de que algum dia os imigrantes ilegais seriam legalizados. E hoje tudo mudou. Obama vai fazê-lo.

Eu espero que não estejam enganados. Obama tem muitos problemas para resolver. Eu entendo isso. Mas não podemos esquecer os quase 7 milhões de latinos que votaram nele e os 12 milhões de imigrantes ilegais que esperam que ele lhes dê a oportunidade de viverem sem medo.

É o que acontece quando se elege um homem que vende esperança.

*(Jorge Ramos é jornalista, ganhador do Prêmio Emmy, autor e âncora de jornalismo da Univision Network, o noticiário de língua espanhola mais assistido nos Estados Unidos. Nascido no México, Ramos é autor de nove livros best seller: "Behind the Mask", "What I Saw", "The Other Face of America", "Hunting the Lion", sua autobiografia "No Borders: a Journalist's Search for Home", "The Latino Wave", "Dying to Cross" e "The Gift of Time; Letters from a Father" publicado pela HarperCollins. Ele publicou recentemente seu primeiro livro infantil, "I'm Just Like My Dad/I'm Just Like My Mom". Ele foi listado como um dos 25 latinos mais influentes nos Estados Unidos pela revista "Time".)

Tradução: George El Khouri Andolfato

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