Obama deverá abrandar a política dos Estados Unidos em relação a Cuba

Marcela Sanchez
Colunista do The New York Times

Uma política linha dura em relação a Cuba tem sido uma característica permanente de Washington, mais antiga do que vários monumentos da capital norte-americana. Mas, a partir de 20 de janeiro, o presidente Barack Obama poderá começar a modificar essa política externa, afastando-a do dogmatismo político e canalizando-a para uma interação construtiva, com o abrandamento da política dos Estados Unidos em relação à ilha. Quanta diferença um ciclo eleitoral é capaz de fazer!

Obama conta com tamanha oportunidade devido a duas razões básicas: ele venceu na Flórida sem ter conquistado o poderoso eleitorado cubano-americano que há muito tempo dita a política norte-americana para Cuba, e ganhou a presidência sem precisar dos 27 votos do Estado no colégio eleitoral. Conforme descreveu Dan Erikson, autor do livro "The Cuba Wars" ("As Guerras de Cuba"): "Essa é uma fórmula para uma influência cubana bem mais reduzida sobre o poder executivo".

Acredita-se que, pouco após à posse, Obama suspenderá as restrições às viagens de cubano-americanos à Cuba e ao envio de dinheiro por parte destes à ilha. O presidente Bush impôs estas duas restrições cinco anos atrás "para apressar o surgimento de uma Cuba nova, livre e democrática". As iniciativas de Bush não resultaram em nada disso.

Em vez disso, elas serviram para fortalecer o apoio de várias instituições, grupos empresariais, organizações cubano-americanas moderadas e ex-autoridades norte-americanas à extinção de uma política que tem sido um fracasso nos últimos 47 anos. Entre eles está Arturo Valenzuela, ex-funcionário do governo Clinton e provável indicado para o principal posto diplomático dos Estados para questões do Hemisfério Ocidental no Departamento de Estado de Hillary Clinton.

Ironicamente, as restrições impostas por Bush, criadas para agradar os cubano-americanos, aprofundaram as divisões entre estes. Pesquisas realizadas nos últimos anos revelaram falta de consenso quanto à questão em uma comunidade que no passado era monoliticamente favorável ao embargo contra Cuba. E, agora, pela primeira vez, segundo uma pesquisa realizada após a eleição pela Universidade Internacional da Flórida e a Brookings Institution, a maioria dos cubano-americanos entrevistados é favorável à suspensão do embargo.

Esta mudança "histórica" é na verdade consistente com uma ideia que circula há muito tempo em meio a uma forte maioria de cubano-americanos, segundo a qual o embargo foi um fracasso. Apoiar uma política fracassada pode parecer uma contradição, mas os cubano-americanos sentem que não têm opções. Se houvesse medidas multilaterais no sentido de apoiar os direitos humanos e o desenvolvimento econômico na ilha, por exemplo, um número ainda maior de cubano-americanos abriria mão do embargo.

Atualmente a dinâmica política na Flórida permite - e alguns diriam que até mesmo encoraja - a Obama explorar tais alternativas. Joe Garcia, que como candidato ameaçou seriamente a re-eleição do deputado republicano e elemento de linha dura Mario Diaz Balart na disputa parlamentar em Miami-Dade neste ano, acredita que qualquer mudança feita por Obama será bem recebida como uma medida "rumo a políticas que sejam mais consistentes" com o sentimento atual da comunidade.

Mas existem limites práticos em relação ao que se pode conseguir. "A relação (entre os Estados Unidos e Cuba) é muito complexa e não é suficientemente urgente para que se empregue o tempo e a energia que seriam necessários para uma normalização", advertiu Jake Colvin em um relatório divulgado nesta semana pelo New Ideas Fund.

Além do mais, algumas das medidas que espera-se que Obama venha a reverter, como a proibição de viagens de todos os estadunidenses (e não apenas os cubano-americanos) a Cuba, exigiriam a aprovação do Congresso. E lá Obama bateria de frente com parlamentares como Diaz Balart e outros antigos cubano-americanos de linha dura, incluindo democratas como o senador Bob Menendez, de Nova Jersey. Conforme disse Erikson: "O Congresso fica basicamente paralisado quando a questão é a política em relação a Cuba. Existe ao mesmo tempo apoio e oposição à suspensão do embargo".

Mesmo assim, Colvin insiste que o presidente terá bastante margem de manobra para remodelar essa política. Além de reverter as restrições impostas por Bush, Obama poderia reiniciar discussões em um nível diplomático menos graduado com autoridades cubanas sobre questões de interesse mútuo, como imigração e tráfico de drogas.

Ele poderia suspender restrições comerciais para permitir a entrada de equipamentos pesados e outros produtos em Cuba a fim de ajudar a reconstruir a infraestrutura destruída pelos recentes furacões e aprovar os serviços de operações bancárias diretas com o objetivo de facilitar estas vendas, conforme foi solicitado em uma carta enviada a Obama nesta semana por uma coalizão de grupos empresariais norte-americanos, incluindo pela primeira vez em vários anos a Câmara de Comércio dos Estados Unidos e a Business Roundtable.

Quaisquer dessas medidas constituir-se-iam em um sinal positivo para os países latino-americanos, indicando que eles não precisariam mais temer as reações de Washington ou Havana às suas próprias políticas em relação a Cuba. Embora uma América Latina mais autônoma não esteja contando com Obama para liderar a maioria dos assuntos da região, esta é uma questão na qual a liderança dos Estados Unidos será absolutamente necessária para que se busque uma abordagem colaborativa que coloque as questões humanitárias acima das sanções ao regime.

O presidente Obama tomará posse 19 dias após o aniversário de 50 anos da Revolução Cubana. A história proporcionou a ele uma oportunidade de tomar algumas medidas práticas no sentido de reformar uma política que é quase tão antiga quanto a própria revolução, e que não foi capaz de dar aos cubanos a liberdade de escolha de seus próprio destinos.

(Marcela Sanches é jornalista que trabalha em Washington desde o início dos anos noventa, e colunista há mais de seis anos).

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