Sobreviva à crise com pensamento empreendedor

Rosabeth Moss Kanter*
Especial para o The New York Times

Nesta era de crise financeira, um maior papel do governo pode desviar a atenção de um dos mais poderosos motores do crescimento econômico: o espírito empreendedor.

Em novembro, eu perguntei a uma platéia internacional reunida em Istambul: eles prefeririam que o governo encontrasse uma saída para a confusão financeira por meio de regulamentação, ou que o setor privado lidasse com o problema por meio de inovação?

Todos entendiam a necessidade de intervenção do governo, após terem sofrido as consequências da pouca regulamentação no setor bancário. Mas se forçada a escolher, a vasta maioria da platéia preferiu a opção do empreendedorismo -o fomento de novas empresas com potencial de crescimento assim como o encorajamento da inovação nas empresas estabelecidas.

A imaginação e energia empresarial estimulam o crescimento ao redor do mundo, na Irlanda, Espanha e África do Sul, assim como na Índia e na China, onde "bilhões de empreendedores" estão prontos para trabalhar, como diz meu colega de Harvard, Tarun Khanna. Mesmo em lugares como Cingapura, Dubai ou Abu Dhabi, onde o governo é o principal investidor, esses investimentos se pagam apenas se os empreendedores e inovadores forem encorajados a pensar e agir em grandes ideias.

Há um enorme potencial econômico quando pequenas empresas começam a pensar grande. Uma pessoa em uma empresa de artesanato doméstica pode ser uma semente para algo maior. Considere uma empreendedora que conheci na Dinamarca, Jette Egelund. Quando o pai dela morreu, Egelund assumiu o pequeno negócio dele na cidade de Randers. O pai dela produzia artesanalmente lixeiras metálicas para o salão de beleza de sua esposa, no final os vendendo para outros salões.

Inicialmente, Egelund fazia tudo sozinha; seu escritório era um quarto na casa de sua mãe. Quando seus filhos formados em administração se juntaram a ela, eles procuraram por oportunidades para vender as lixeiras Vipp para um mercado de consumo muito maior. O primeiro avanço da Vipp foi um contrato com a Conran's, a rede de lojas de móveis britânica. À medida que a Vipp crescia, empregos foram criados; um prédio em Copenhague foi comprado para servir tanto como sede da empresa como sala de concerto; e a Vipp se tornou parte de um plano econômico nacional da Dinamarca para vender o design dinamarquês. A Vipp agora conta com uma ampla linha de produtos vendida mundialmente, com um showroom em Nova York.

Os líderes podem promover o crescimento de empresas de médio porte mais rapidamente transformando funcionários em empreendedores. A Semco é uma empresa de equipamento industrial no Brasil que atua desde os anos 50. Ela agora inclui um grupo de empresas internacionais bem-sucedidas em consultoria ambiental, gestão de instalações e gestão de documentos. Seu crescimento deriva da crença de seu presidente-executivo de longa data, Ricardo Semler, de que todo funcionário pode ser um empreendedor. A Semco dá às pessoas a liberdade de trabalhar quando e como quiserem, em coordenação com os colegas, e os encoraja a encontrarem um empreendimento que possam iniciar e dirigir. A unidade de empreendimentos busca ativamente investimentos em empresas que vão ampliar os negócios existentes da Semco. Ela também comprou os ativos de empresas estrangeiras que deixaram o Brasil, como a Hobart, salvando assim empregos brasileiros.

A recaptura do espírito empreendedor pode ajudar empresas estabelecidas a evitar a estagnação. A Timberland, uma empresa americana, se tornou uma marca mundial em calçados depois que seu fundador, que tinha uma pequena empresa de sapatos, inventou uma bota à prova d'água. Recentemente, os executivos da Timberland decidiram que era novamente hora de repensar os calçados. Eles deram início à Invention Factory para estudar os mais recentes desenvolvimentos em biomecânica como forma de ver os sapatos de forma diferente. Por exemplo, a Invention Factory desenvolveu protótipos de calçados desmontáveis para viagem e que podem ser reconfigurados para vários esportes. Mas também era importante as pessoas responsáveis pelos produtos tradicionais da Timberland se sentirem parte do processo criativo, para que apoiassem as mudanças. A inclusão delas no processo de brainstorming levou ao avanço de fazer com que calçados-padrão pareçam personalizados. Os lucros ajudaram a Timberland a contribuir para atividades internacionais de direitos humanos.

A Cemex, a companhia mundial de cimento com sede no México, cresceu por meio de aquisição, mas também cultivando o espírito empreendedor dentro de suas próprias fileiras e entre seus parceiros. A Cemex criou o cimento embalado de marca. Variantes como cimento antibacteriano (usado em hospitais) ou cimento à prova de água salgada (usado em portos) abriu novas frentes de negócios lucrativas. Ajudar os distribuidores a melhorarem seus negócios foi uma vitória para os distribuidores e para a Cemex. Sua rede Construrama solidificou o mercado da Cemex na América Latina contra grandes redes de varejo americanas, como Lowe's e Home Depot, que entraram no território da Cemex.

Líderes em empresas de todos os tamanhos podem cultivar o espírito empreendedor. Veja como:

1) Encoraje a curiosidade, o aprendizado constante e a disposição de repensar as suposições convencionais.

Realize sessões regulares de brainstorm para funcionários de todos os níveis. O que está mudando? Novas descobertas podem ajudar a reinventar os produtos atuais? Transforme funcionários em batedores de ideias à procura de novas oportunidades.

2) Monte um grupo para encontrar e desenvolver novos empreendimentos.

Assegure que esteja estreitamente ligado ao restante da empresa. Dê a todos uma chance de contribuir com ideias ou que tenham tempo livre para um projeto caso sua ideia seja boa o bastante.

3) Crie um fundo -mesmo que pequeno- para apoiar ideias promissoras que não se encaixem dentro dos negócios existentes.

Encoraje funcionários que caso contrário poderiam partir para desenvolver um novo negócio a permanecerem como parte da empresa.

4) Trabalhe estreitamente com empreendedores de fora.

Ajude a abrir novas empresas para encontrar aplicações para os produtos de sua empresa. Encoraje pequenos fornecedores e distribuidores a pensarem cada vez maior e a procurar novas ideias.

5) Mantenha o empreendedorismo na agenda de política pública

Conecte fontes de ideias (como universidades) com pessoas prontas para usá-las no desenvolvimento de empresas. Lute para assegurar que planos de resgate do governo incluam empréstimos para pequenas empresas.

No meio da crise financeira e nacionalizações pelo governo, os líderes empresariais não podem se dar ao luxo de negligenciar o espírito empreendedor. Cultivá-lo ajudará as empresas a sobreviverem e as economias a se recuperarem mais rapidamente.

* Rosabeth Moss Kanter, professora Ernest L. Arbuckle da Escola de Administração e Negócios de Harvard. Kanter é uma especialista de renome internacional de estratégia, inovação e liderança e é autora de 17 livros, mais recentemente "Confidence: How Winning Streaks and Losing Streaks Begin and End" e "America the Principled: 6 Opportunities for Becoming a Can-Do Nation Once Again".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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