Pesadelo em Gaza

Noam Chomsky

Enquanto escrevo, enquanto o ataque cruel israelense em Gaza continua, enquanto o horror se aprofunda e se torna ainda mais sangrento, as perspectivas para uma resolução decente se esvaecem em meio aos gritos dos feridos, dos mortos e de seus familiares.

O último ataque a Gaza iniciou-se com a violação do cessar-fogo por Israel no dia 4 de novembro, enquanto os eleitores americanos iam às urnas para eleger Barack Obama, e atingiu fúria total no dia 27 de dezembro.

A resposta de Obama a esses crimes foi o silêncio -diferentemente, digamos, dos ataques terroristas de Mumbai, rapidamente criticados, junto com a "ideologia de ódio" por trás deles. No caso de Gaza, seus porta-vozes se esconderam por trás do mantra de que "há apenas um presidente" e repetiram seu apoio às ações israelenses de quando Obama visitou a cidade israelense de Sderot, em julho: "Se alguém lançasse foguetes contra a minha casa, onde minhas duas filhas dormem à noite, faria de tudo em meu poder para impedi-lo."

Entretanto, aparentemente ele não fará nada, nem mesmo uma declaração, enquanto os caças e helicópteros americanos com pilotos israelenses estão causando sofrimento incomparavelmente pior às crianças palestinas.

A voz do presidente que entra deveria ser ouvida, ao menos como resposta moral e um pedido para que os crimes cessem e os esforços humanitários sejam promovidos. Israel não pode agir independentemente de seu principal aliado, patrocinador e apoio. O banho de sangue em Gaza também está nas mãos americanas. Essa voz também poderia indicar se o apoio radical de Washington para as ações israelenses será suavizado, após décadas.

Durante a campanha, rumores circularam que Obama talvez se afastasse da política de rejeição americana que há muito é uma barreira primária a um acordo genuíno de dois Estados, um Estado palestino independente coexistindo com Israel. Este é o consenso internacional antigo que os EUA e Israel bloquearam, em virtual isolamento, por mais de 30 anos, com raras e temporárias exceções. De outra forma, o consenso tem o apoio do mundo todo, inclusive da maioria da população americana. O histórico de Obama, contudo, não promete nenhuma base para que os rumores sejam levados a sério.

Para o cargo de assessor especial do Oriente Médio, Obama escolheu Daniel C. Kurtzer, embaixador de Clinton-Bush para o Egito e Israel. Kurtzer participou da redação do discurso de Obama para a organização de lobby israelense Aipac, em Washington, em junho. O texto notável foi ainda mais obsequioso que os do presidente Bush, declarando até que "Jerusalém deve permanecer a capital de Israel e não deve ser dividida" -uma posição tão extrema que seu comitê teve que explicar que suas palavras não significavam o que ele dizia. E Kurtzer é uma das mais moderadas entre as escolhas de Obama para a região.

O presidente israelense, Shimon Peres, informou à imprensa que, em sua visita de julho a Israel, Obama tinha dito que ficara "muito impressionado" com a proposta da Liga Árabe que propõe a total normalização das relações com Israel. Isso iria além do consenso de um acordo de dois Estados. (O próprio Peres nunca aceitou o consenso. De fato, em seus últimos dias com primeiro-ministro em 1996, ele disse que um estado palestino nunca poderia existir.)

Os comentários de Obama poderiam sugerir uma mudança de opinião significativa, exceto que, na mesma viagem, segundo o líder de direita israelense Benjamin Netanyahu, Obama disse que ficou "muito impressionado" com o plano de Netanyahu, que propõe um controle israelense indefinido dos territórios ocupados.

O paradoxo é resolvido de forma plausível pelo analista político israelense Aluf Benn, que aponta que "o principal objetivo de Obama não era prejudicar nem irritar ninguém. Presumivelmente, ele foi educado e disse a seus anfitriões que suas propostas eram 'muito interessantes'. Assim, eles saíram satisfeitos, e Obama não prometeu coisa alguma". Compreensível, mas ficamos sem nada, exceto pelas promessas de amor fervorosas de Obama por Israel e seu descaso com os interesses palestinos.

Obama há muito defende o "direito de autodefesa" e o "direito de proteger seus cidadãos" de Israel. Em 2006, durante a invasão do Líbano por Israel com o apoio americano, Obama co-patrocinou "uma resolução do Senado contra o envolvimento do Irã e da Síria na guerra, insistindo que Israel não deveria ser pressionado a assinar um cessar-fogo que não lidasse com a ameaça de mísseis da Hezbollah", de acordo com o site da sua campanha. A invasão do Líbano, a quinta de Israel, matou mais de 1.000 libaneses e novamente destruiu grande extensão do Sul do país, assim como parte de Beirute.

Porém, é a única menção do Líbano em meio às questões de política externa no site de Obama. Evidentemente, o Líbano não tem direito à autodefesa. De fato, quem poderia ter o direito de autodefesa contra os EUA ou seus clientes?

A invasão de Gaza e é o mais recente episódio trágico após uma eleição palestina democrática pacífica em janeiro de 2006, cuidadosamente monitorada e considerada livre e justa por observadores internacionais. Entretanto, apesar dos esforços israelenses e americanos em favor do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, e de seu partido, Fatah, os palestinos elegeram o Hamas. Aqueles que desobedecem o mestre devem sofrer por seus atos.

A punição dos palestinos por votarem de forma errada começou logo e tornou-se cada vez mais severa. Com o apoio americano, Israel aumentou sua violência sobre Gaza, sequestrou grande parte dos líderes eleitos e apertou cada vez mais o cerco, cortando até o fluxo de água para a Faixa de Gaza. Os EUA e Israel asseguraram que o governo eleito não teria chances de funcionar.

Mesmo quando Israel aceitou um cessar-fogo, como fez em junho de 2008, violou-o instantaneamente, mantendo seu cerco (um ato de guerra) e impedindo a Unrwa, agência da ONU que mantém os palestinos vivos, de estocar suas lojas. "Então, quando o cessar-fogo foi rompido (no dia 4 de novembro), ficamos sem comida para as 750.000 pessoas que dependem de nós", informou o diretor da Unrwa em Gaza, John Ging, à BBC.

Nas semanas que se seguiram, o bloqueio foi ainda mais apertado, com consequências desastrosas para a população. Os dois lados escalaram a violência (todas as mortes foram palestinas), até que o cessar-fogo terminou formalmente no dia 19 de dezembro, e o primeiro-ministro Ehud Olmert autorizou a invasão em grande escala.

Atualmente, em Gaza, primeiro as mortes têm que parar. A pressão internacional provavelmente levará a um cessar-fogo. Obama talvez já tenha tomado posse então, antes que Gaza e seu povo sejam destruídos.

No meio de outro pesadelo em Gaza, a esperança de um acordo de dois Estados em Israel- Palestina, segundo o consenso internacional, pode parecer quase inimaginável. Entretanto, já se chegou muito perto disso antes, durante o último mês da presidência de Bill Clinton. Em janeiro de 2001 -o que não faz muito tempo, afinal- a ONU deu seu apoio às negociações em Taba, Egito, que quase alcançaram tal tratado, antes de serem suspensas pelo primeiro-ministro israelense Ehud Barak. Um elemento crucial para o acordo foi a disposição do presidente americano de contemplá-lo.

(Os textos de Noam Chomsky sobre linguística e políticas foram recentemente reunidos em "The Essential Chomsky", editado por Anthony Arnove, da New Press. Chomsky é professor emérito de linguística e filosofia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts em Cambridge).

Tradução: Deborah Weinberg

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