Os pesadelos reais de Edgar Allan Poe

Joyce Carol Oates

Ali estava um mistério! Em nossa casa de fazenda que quase não tinha livros, no Estado de Nova York, na região conhecida estoicamente por seus moradores como Snow Belt (Cinturão de Neve), havia um volume -- danificado como se tivesse manchas de água, com cara de velho, austero em sua escura capa dura -- com o título intrigante de "O Escaravelho de Ouro".

"O Escaravelho de Ouro" -- minha imaginação infantil tomou asas com essa imagem intrigante. Insetos -- principalmente moscas e mosquitos -- existiam aos montes no interior. Mas um "escaravelho de ouro", o que poderia ser? O nome do autor -- Edgar Allan Poe -- era forte, "poético", mas desconhecido para mim, uma criança de dez anos com um interesse precoce por livros e contação de histórias e tudo o que não era real, mas imaginado, como uma espécie de sonho acordado.

O outro grande livro da minha infância foi "Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho", de Lewis Carroll. Apesar de superficialmente muito diferentes, Carroll, que nasceu em 1832, e Poe, que era 23 anos mais velho -- nascido há 200 anos em janeiro -- teriam entendido um ao outro perfeitamente, acho. Ambos escreveram histórias-pesadelo, contos de fada surreais, "góticos", que eram para ser lidos, ainda que não totalmente compreendidos, tanto por crianças quanto por adultos.

No fim das contas, não foi o atormentado, enlouquecido e lento "O Escaravelho de Ouro" que acabou se tornando minha história favorita de Poe, mas outras histórias mais curtas -- "O Gato Preto", "A Queda da Casa de Usher", "O Poço e o Pêndulo" e "O Coração Delator" -- que me cativaram e ficaram profundamente impressas em minha memória, sempre com admiração, encanto e certa ansiedade.

Entre as melhores e clássicas histórias de Poe reunidas em "Contos do Grotesco e do Arabesco" (1840), está "O Coração Delator" que exala um poder imediato e extremamente visceral. Lá encontramos a voz condenada, trágica, extática e quintessencial de Poe: "É verdade! Nervoso, muito, muito nervoso mesmo eu estive e estou; mas por que você vai dizer que estou louco? A doença exacerbou meus sentidos, não os destruiu, não os embotou."

Nessa curta obra-prima, Poe evoca a "voz" da loucura interior, personificada pela voz que fala ao leitor com uma intimidade desconcertante, se não cumplicidade. Um crime foi cometido -- um crime terrível, estarrecedor: parricídio? O assassinato sem sentido de um homem idoso, sem nome, que o narrador acredita ter um "Olho Maligno". Para proteger a si mesmo, o narrador precisa exorcizar esse Olho Maligno, do contrário sucumbirá ao terror abjeto.

Assim como na maioria das histórias de Poe, o terror precede qualquer objeto: o terror é simplesmente tão primordial quanto a própria vida. Assim, de forma extremamente bizarra e ritualística, o homem idoso precisa ser assassinado -- sufocado ou esmagado sob uma cama de forma improvável. "Então sorri contente, ao ver meu ato tão adiantado." Dessa forma a geração mais nova espera exorcizar e tomar o lugar de seus pais.

Mas em nenhuma história de Poe falta a recriminação e a punição. E então o assassino jubiloso é traído pelo que ele acredita ser o batimento amplificado do coração do velho -- mas que é, na verdade, o próprio batimento do coração do assassino -- o "coração delator", que fica cada vez mais alto e acelerado quando os policiais chegam para investigar. Até que o assassino fica louco e confessa o crime.

Quando li pela primeira vez essa narrativa misteriosa e fluente, eu era muito nova e não lia de forma analítica. O tema de uma história era para mim exatamente aquilo que parecia ser, e nada mais. Nos últimos anos, relendo e ensinando Poe (para meus alunos de redação da Universidade de Princeton), comecei a ver toda a sutileza de efeitos nessa curta história, a maestria da terrível racionalização do homem louco, o pronto estabelecimento da cena, o desenvolvimento rápido da "trama", o desfecho abrupto tão conclusivo e irrevogável como o bater de uma porta.

Agora, as narrativas em primeira-pessoa de personagens eloqüentes e perturbados raramente são novidade, mas no século 19, quando o inglês literário era formal, majestosa e infalivelmente valorizado, como se as estátuas falassem nos corredores de mármore cheios de eco, a histeria não velada da voz de Poe deve ter sido impressionante -- se não assustadora -- para a maioria dos leitores. Foi apenas uma coincidência, mas "Edgar Allan Poe" também era um personagem num jogo de cartas que tinha em casa chamado "Autores", que foi popular nos anos 50.

(Joyce Carol Oates recebeu o Prêmio Literário Nacional e o Prêmio PEN/Malamud por Excelência em Ficção Curta. Seu livro mais recente é "Wild Nights! Stories About the Last Days of Poe, Dickinson, Twain, James and Hemingway" (Ecco, 2008). Ela é professora de humanidades na Universidade de Princeton.)

Tradução: Eloise De Vylder

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