A sabedoria de acabar com a "guerra às drogas"

Marcela Sanchez*

Em sua reunião com o presidente do México, Felipe Calderon, na semana passada, o presidente eleito Barack Obama ressaltou seu "interesse em encontrar formas de trabalharem juntos para reduzir a violência relacionada às drogas" no México, que no ano passado causou 5.600 mortes, mais do que sofreram os EUA em quase seis anos de guerra no Iraque.

No dia seguinte, a poucas quadras de distância, outro encontro presidencial ressaltou uma forma potencial de avançar. No Salão Leste da Casa Branca, o presidente Bush, de saída, condecorou o presidente colombiano, Álvaro Uribe, com a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta honra conferida a um civil.

O país que algumas autoridades americanas temiam que fosse se tornar um narcoestado é uma nação diferente. Hoje, na Colômbia, os homicídios caíram 40%, os seqüestros caíram mais de 80%, e os ataques terroristas, mais de 75%. "As forças da violência estão na defensiva, e o povo está retomando seu país", disse Bush.

Durante a cerimônia, Bush não fez menção a hectares de coca erradicados ou toneladas de cocaína confiscadas e nenhuma vez usou a expressão "guerra às drogas". Em outras palavras, ele não falou do sucesso da Colômbia nos termos que por tanto tempo justificaram a política americana e enquadraram o apoio inicial de Washington para o Plano Colômbia, de US$ 6 bilhões (cerca de R$ 12 bilhões), atualmente com nove anos.

A razão é simples: a estratégia antidrogas americana não reduziu a oferta da Colômbia, ou da América Latina em geral, nem diminuiu a demanda americana. As drogas ilegais continuam a ser consumidas, produzidas e contrabandeadas em tal nível que altas autoridades americanas, incluindo os ex-diplomatas do Departamento de Estado Thomas Pickering e Rand Beers, chamaram as políticas antidrogas americanas de fracassadas.

Fracasso? Sim, pelas medidas tradicionais, a guerra contra a commodity tremendamente lucrativa progrediu pouco. Agora, ficou muito mais claro que, enquanto houver demanda por drogas, haverá produtores e traficantes para fornecê-las.

Mas é claro que o colombiano comum não vê o que aconteceu nos últimos anos como um fracasso e tampouco as autoridades americanas. Eles vêem o plano Colômbia como um enorme sucesso - portanto a medalha para seu atual defensor.

Essa contradição aparente deve-se ao simples fato de que guerra às drogas não é mais o que está sendo travado na Colômbia. De fato, a expressão "guerra às drogas" é um nome errado que ofusca os objetivos e não reflete a evolução da própria política.

Em 1999, foi feito um enorme esforço para definir uma estratégia ampla de longo prazo para ajudar a Colômbia. Por meio desse processo, Washington começou a compreender os desafios da Colômbia além do tráfico ilegal de drogas -não mais em termos do plantio da coca, dos laboratórios de drogas e do crime organizado,mas como uma luta para reconquistar o controle do território, reforçar instituições democráticas e reduzir a pobreza e o desespero.

Hoje, como parte dessa evolução de pensamento, o odioso processo americano de certificação de drogas tornou-se história. Nos anos 80 e 90, os presidentes americanos sancionavam ou recompensavam nações com base no número de plantações erradicadas ou de carregamentos interditados, um exercício tão contraprodutivo que se tornou mais político do que convincente.

O novo pacote de assistência de três anos para o México e a América Central, de US$ 1,6 bilhão (em torno de R$ 3,2 bilhões), conhecido como iniciativa Merida, representa uma forma de pensar um pouco mais evoluída, ao menos em sua admissão da responsabilidade dos EUA como principal consumidor de drogas e fornecedor de armas. Parecem distantes os dias de 1996 quando a idéia de Washington de cooperação chegou na forma de uma frota de helicópteros da era do Vietnã, que se provou velha e mais cara demais para ser operada. O México devolveu-a dois anos depois.

O antigo paradigma, entretanto, não morreu de todo. O ex-presidente da Bolívia, George Quiroga, que certa vez personificou a possibilidade de vitória em uma guerra às drogas, lamentou em recente entrevista a "cínica" perda de interesse dos EUA em seu país. Quiroga disse que, agora que as drogas da Bolívia não vão mais para os mercados americanos, Washington se comporta como se sua missão no país tivesse terminado.

No atual contexto, com o surgimento de novos agentes globais e a diminuição da influência e dos recursos americanos, especialistas em segurança advertem para não se perder tempo e dinheiro caçando objetivos pouco realistas. Como Patrick Cronin, diretor do Instituto de Estudos Nacionais Estratégicos da Universidade de Defesa Nacional em Washington, esses especialistas sugerem que o novo governo de Obama redefina os problemas em termos mais realistas e menos ambiciosos. "Em uma busca quixotesca pela vitória definitiva... é mais fácil apressar a exaustão e o fracasso", escreveu recentemente Cronin no "US News and World Report".

Uma reforma positiva da política americana em relação à América Latina extinguiria de uma vez por todas a obsessão com "drogas" e, em vez disso, direcionaria os recursos preciosos para levar paz e estabilidade à região.

(Marcela Sanchez é jornalista em Washington desde o início dos anos 90 e colunista há mais de seis anos.)

Tradução: Deborah Weinberg

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