A era da responsabilidade: um caso de estudo

Marcela Sanchez*

Gustavo Huapalla entrou em uma nova era de responsabilidade antes mesmo de se tornar o tema central do discurso de posse do presidente Obama.

O proprietário nascido na Argentina de dois pequenos restaurantes latinos em Washington teve pouca escolha. O ano passado provou ser particularmente desafiador à medida que a alta dos preços se somou à queda nas vendas -mais de 50% em um de seus restaurantes no mês passado.

Mas Huapalla não é apenas um sobrevivente. Ele e muitos ao seu redor parecem personificar o que Obama chamou de senso de reconhecimento de que "nós temos deveres para conosco, nossa nação e o mundo, deveres que não devemos aceitar com má vontade, mas sim aproveitar alegremente".

"Se temos que trabalhar arduamente, é agora. Eu tenho que inventar algo para evitar a falência do meu negócio", Huapalla me disse nesta semana enquanto se sentava para um almoço tardio no Rumba Cafe, um de seus restaurantes. Ele já tinha baixado os preços no cardápio e agora faz todas as compras e entregas pessoalmente, economizando os cerca de 20% costumava gastar com intermediários.

Mesmo assim, Huapalla agora se vê fazendo constantes malabarismos com as finanças. Algumas semanas ele precisa pedir aos seus funcionários que descontem seus contracheques um ou dois dias depois ou para antigos fornecedores para que aguardem até o final do mês. Todos aceitaram, interessados em ajudar Huapalla a manter seu restaurante aberto.

Ele se dedica tanto ao que faz que se recusa a ver o fracasso como uma opção. Em vez disso, ele se sente mais próximo que nunca de seus funcionários e associados de negócios, à medida que todos se tornam mais cientes da necessidade de dar mais visando sobreviver.

Isso não quer dizer que Huapalla encontrou solidariedade universal. De fato, ele acredita que alguns donos de propriedades comerciais, por exemplo, demoraram para dar mais apoio e se tornarem mais flexíveis. Mesmo assim, apenas com essa mudança de postura, ele acredita, é que a economia se recuperará.

Agora, quando se trata de mudança de postura, nada foi claramente mais dramático nos últimos meses do que a decisão do governo de se tornar mais envolvido no que está acontecendo na economia. Se a atual crise ensinou algo a este país é que uma grande responsabilidade está depositada nos ombros do governo. Em seu discurso de posse, Obama falou que a crise atual "nos lembrou de que sem um olho vigilante, o mercado pode sair de controle".

Logo, nestes tempos de capitalismo pós-laissez-faire, pessoas como Huapalla esperam ver um apoio do governo federal às pequenas empresas, assim como resgatou as instituições financeiras. Eles esperam que Obama cumpra sua afirmação de que essas empresas são o "sangue" da economia e forneça, por exemplo, incentivos para que os proprietários de imóveis comerciais reduzam os aluguéis.

Obama e sua equipe já destacaram a necessidade de que parte do resgate inicial de US$ 700 bilhões seja usado para fornecer empréstimos a juros baixos para proprietários de pequenas empresas. Este seria um bom começo para pessoas como Huapalla, que na semana passada, graças ao seu histórico de crédito e empresarial, conseguiu obter um empréstimo no meio do arrocho, apesar dos termos altamente onerosos.

Até o momento, Huapalla e outros empresários da cidade encontraram ajuda na Latino Economic Development Corp., uma organização sem fins lucrativos com sede em Washington que auxilia pequenas empresas com microempréstimos, assistência técnica e melhoria da fachada comercial, entre outras coisas. Apesar de a recessão ter arruinado empresas com modelos insustentáveis, Manuel Hidalgo, o diretor executivo da LEDC, aponta para o negócio de Huapalla como "uma empresa que consegue seguir em frente".

À medida que a economia começou a cair em 2006, a LEDC ajudou a formar uma coalizão de pequenas empresas, incluindo a de Huapalla, para negociar taxas coletivas para energia eólica, seguro e marketing. Mais recentemente, a LEDC lançou a campanha Pense Localmente Primeiro para aumentar a conscientização entre a comunidade da importância de apoiar as empresas locais para ajudar a economia.

"Este é o momento perfeito para aumentar a consciência a respeito do que significa gastar seu dinheiro", disse Hidalgo. Em uma área de responsabilidade, as pessoas devem se tornar mais cientes das implicações de cada dólar gasto.

Segundo um relatório divulgado em setembro pela Civic Economics, uma firma de análise de economia sustentável, para cada dólar gasto em empresas locais independentes, 68 centavos permanecem na economia local, diferente de 43 centavos se forem gastos em uma rede nacional de lojas.

Atualmente Huapalla tem pouco tempo para qualquer outra coisa além de seus negócios. Ainda assim, ele não exibe sinal de arrependimento. Ele sente, isso sim, muita gratidão pelos tempos atuais, particularmente em relação às pessoas que entram em seus restaurantes. Mesmo antes de Obama ter dito, Huapalla parecia estar "firme no conhecimento de que não há nada mais satisfatório para o espírito, tão definidor de nosso caráter, do que nos dedicar inteiramente a uma tarefa difícil".

*Marcela Sanchez é uma jornalista baseada em Washington desde o início dos anos 90 e uma colunista distribuída para vários jornais há mais de seis anos.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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