Discurso de Posse de Barack Obama: um esforço sagrado

Henry Louis Gates Jr.

Quase a metade da plateia presente no discurso da posse do segundo mandato de Abraham Lincoln consistia de negros. Ao falar para a multidão, Lincoln sugeriu, para surpresa generalizada, que talvez Deus tivesse desejado que a Guerra Civil continuasse, "até que fossem consumidas todas as riquezas acumuladas pelos escravos em duzentos e cinquenta anos de fadigas sem recompensa e até que cada gota de sangue derramado sob o chicote fosse compensada por uma outra derramada pela espada". Foi naquele dia que Lincoln tornou-se o presidente dos negros.

Frederick Douglass mencionou um "silêncio pesado" na metade da plateia composta de brancos. Mas um jornalista do "Times" de Londres observou uma entusiasmada reação dos negros que ouviam o discurso de Lincoln. A sugestão de que Deus finalmente desaprovava o sofrimento amargado pelos escravos negros durante vários anos foi uma das ideias mais radicais já expressas na história da presidência norte-americana.

Frederick Douglass tentou abrir caminho entre dois guardas que impediam a sua entrada na Casa Branca para a recepção que se seguiu à cerimônia de posse. Lincoln viu Douglass e acenou aos guardas, ordenando que estes o deixassem passar. A seguir o presidente pediu que Douglass lhe dissesse francamente o que achara, afirmando que nenhuma opinião era tão importante quanto a dele.

Douglass, profundamente emocionado pelo discurso e pelos comentários de Lincoln sobre ele, respondeu: "Senhor Lincoln, foi um esforço sagrado".

Na semana passada, quando Barack Obama apontou para o discurso de Lincoln, de 703 palavras, entalhado na parede do Lincoln Memorial, em Washington D.C., mostrando-o às suas filhas, e Michelle explicou às garotas a luta de Lincoln por maior igualdade, Malia, de dez anos, reagiu com uma pergunta: "Como estamos nos saindo em relação a isso?". A seguir, a menina disse ao pai que seria recomendável que o discurso dele fosse bom.

Assim, o que o nosso novo presidente fez com o seu discurso de 2.419 palavras? Embora eu tenha achado que o discurso foi soberbamente proferido, alguns comentaristas pensam que ele careceu da tradicional eloquência de Obama. Mas nós tendemos a nos esquecer de que os discursos mais famosos de Lincoln - o de Gettysburg e o da segunda posse - soam muito melhor quando lidos do que quando proferidos. Esta pode ter sido a primeira experiência de Obama com esse fenômeno.

Não sei bem o que eu estava esperando, mas a minha reação inicial ao discurso do presidente foi de uma certa perplexidade com a minha própria reação, já que, como declaração retórica, achei o texto menos tocante do que esperava. E eu acredito que a plateia sentada a minha volta na área do Capitólio sentiu o mesmo, a julgar pela nossa ansiedade coletiva por recompensá-lo em voz alta e com grande emoção, aplaudindo tanto quanto podíamos.

Eu deveria saber que a intenção do presidente em relação a este discurso - em termos de formato, declamação e efeito - era diferente daquilo que ele esperava transmitir com o seu surpreendente discurso de vitória em Iowa (que fez com que eu pulasse da cama, todo arrepiado), e com o igualmente memorável "discurso da raça" em Filadélfia.

Eu deveria ter imaginado que ele tinha uma outra coisa em mente. Quando Obama aproximou-se da tribuna no início da cerimônia, Angela De Leon, sentada ao meu lado, disse: "Ele encarou o problema de frente".

Eu nunca tinha visto aquela expressão na face de Obama. Para mim, ele pareceu, pela primeira vez, ser o presidente dos Estados Unidos. E não pude evitar as lágrimas ao perceber que pela primeira vez na história o indivíduo mais poderoso do mundo era um homem negro. Este homem negro.

Para mim, francamente, ver um negro jurando "preservar, proteger e defender" a nossa Constituição dos Estados Unidos, na qual os nossos ancestrais foram definidos como três quintos de um homem, foi um dos momentos de emoção mais profundos da minha vida. Foi algo que demonstrou o quanto nós - como povo e como nação - avançamos desde que aquele terrível compromisso foi firmado em nosso detrimento no verão de 1787.

Embora tenha havido menos interrupções com aplausos do que eu antecipara, eu festejei tão ruidosamente quanto todos na plateia ao final do discurso, profundamente emocionado, como todos, por aquilo que acabara de ouvir - ainda que eu não estivesse bem certo do que acabara de ver e escutar.

Mantive a minha ambivalência em relação ao discurso até a noite de terça-feira, quando encontrei o meu querido amigo, Cornel West, que eu considero um gênio da interpretação. Decidi fazer o teste da realidade.

"Eu sei o que você está dizendo", disse-me West com a voz amável, quando eu mencionei ter sentido que o discurso deixou algo a desejar. "Mas está tudo lá, no discurso. Você precisa lê-lo".

E, após lê-lo, percebi, como sempre, que West tinha razão.

Esse não foi um discurso para a história, como, digamos, o segundo discurso de Lincoln, embora partes dele sejam significativas e serão citadas durante muito tempo.

Algumas passagens ressoaram tanto quanto um bom sermão de um pastor negro feito perante uma plateia só de negros. Por exemplo, "um homem cujo pai, menos de 60 anos atrás, poderia não ser atendido em um restaurante local, está diante de vocês para fazer o juramento mais sagrado", ou, "a nossa segurança emana da justiça da nossa causa, da força do nosso exemplo, das qualidades temperantes que são a humildade e o comedimento".

Agora vejo que a minha passagem preferida foi: "... que os velhos ódios um dia passarão; que as linhas tribais em breve dissolver-se-ão; que, à medida que o mundo diminuir de tamanho, a nossa humanidade em comum revelar-se-á".

Quando revi o discurso, a estratégia retórica de Obama revelou-e claramente. Uma estratégia brilhante, calibrada entre os tons progressistas e os conservadores, revelando que ele é o presidente de todos. Palavras escolhidas para demonstrar que, conforme ele colocou, "O que os cínicos não conseguem entender é que a terra moveu-se sob os pés deles, que os improfícuos desentendimentos políticos que nos consumiram por tanto tempo não mais se aplicam".

A plateia principal de Obama não fomos eu e os irmãos e irmãs sentados à minha volta, aguardando ansiosamente por aquele momento sagrado presente em todo bom sermão de igrejas negras, quando todos podemos nos levantar e sentir que finalmente fez-se justiça em relação aos sacrifícios dos nossos ancestrais. A plateia principal dele foram aquelas potências que procuram modificar o local ocupado pela nossa nação no mundo: "Para aqueles que procuram alcançar as suas metas promovendo terror e matando inocentes, nós afirmamos neste momento que o nosso espírito é mais forte e não pode ser quebrado; vocês não sobreviverão a nós e nós os derrotaremos".

Obama estava declarando, nesta concessão retórica ao presidente Kennedy, que a tocha foi passada, e que foi passada a ele, um negro. E que, apesar de tudo que esta eleição significou simbolicamente quanto ao grande projeto histórico de Frederick Douglass, W.E.B. Du Bois e Martin Luther King Jr. referente às relações raciais nos Estados Unidos, a questão mais importante a ser comunicada foi que a tocha continuará ardendo de forma tão brilhante quanto ardeu nas mãos dos seus 43 antecessores, em defesa da liberdade e dos nossos interesses nacionais, no nosso país e no exterior.

Olhando para trás, sou agora capaz de entender o que significaria aquele magnífico dia de posse. Não foi um dia para floreios de retórica ou respostas emocionais. O objetivo do discurso de Barack Hussein Obama foi demonstrar que ele é agora o homem mais poderoso do mundo.

Nós aprendemos a apreciar a retórica altaneira porque é essa a retórica familiar. Talvez o poder intenso encarnado em um negro seja uma novidade para todos nós.

Com aquele discurso - o discurso que para muitos deixou a desejar, incluindo eu - o presidente Obama pode ter alterado fundamentalmente a percepção da situação do nosso povo, coletivamente, dentro daquilo que os filósofos costumavam chamar de "a escala da natureza".

Aquele talvez tenha sido o seu esforço sagrado.


Henry Louis Gates Jr., diretor do Instituto W.E.B. Du Bois de Pesquisas Africanas e Afro-Americanas da Universidade Harvard, é autor do livro "The African American Century: How Black Americans Have Shaped Our Country" ("O Século Afro-Americano: Como os Negros Norte-Americanos Modelaram o Nosso País") e co-editor de "The African American National Biography" ("A Biografia Nacional Afro-Americana"). Ele é também editor-chefe da revista "The Root").

Tradução: UOL

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