Investindo no futuro latino dos EUA

Marcela Sanchez

Você teria de estar talvez em outro planeta para ignorar o fato de que o rosto dos Estados Unidos está mudando. O estereótipo dos americanos loiros de olhos azuis está indo embora. E em 2042, os brancos serão minoria e em 2050, os hispânicos serão mais de um quarto da população.

Essa mudança demográfica é a base de um novo livro, "Latinos and the Nation's Future" ["Latinos e o Futuro da Nação"], editado pelo ex-secretário de habitação Henry Cisneros. Com ensaios de alguns dos mais proeminentes líderes latinos e de imigração além de acadêmicos do país, o livro é uma tentativa séria de explorar o que significa essa mudança para o futuro dos Estados Unidos.

Se por um lado os autores querem acreditar que os melhores dias ainda estão pela frente, eles sabem que isso será apenas uma possibilidade levando em conta, honestamente, o desempenho atual, abaixo da média, da população latina. Conforme escreve Cisneros, é essencial perguntar se a população latina será "maior e sem escolaridade, com salários baixos, alienada e uma força divisória no cenário americano... ou uma grande porção educada, criativa, próspera e enérgica da história americana?"

Como alerta, Cisneros cita a Califórnia, onde os resultados dos estudantes latinos derrubaram a classificação acadêmica do Estado para 45º entre os 50 Estados. Em todo o país, se o resultado escolar da população latina não melhorar agora, os Estados Unidos podem experimentar uma redução de 12 milhões de trabalhadores com nível universitário até 2020, quando quase um quarto da população em idade universitária dos EUA será de latinos. Isso significa ter a mão-de-obra menos competitiva da história do país, alerta Sarita Brown, presidente-fundadora da organização Excelencia in Education.

Também existe, de acordo com a Pesquisa do Censo de Comunidade Americano de 2008, uma diferença de US$ 25 mil na renda média entre os brancos não-hispânicos e os hispânicos. Além disso, conforme afirma Harry Pachon, diretor do Instituto de Política Romas Rivera, há um potencial claro para uma "pobreza multigeracional" entre os hispânicos, principalmente para os filhos de imigrantes criados nos centros das grandes cidades, onde as escolas ruins e a alta criminalidade são comuns e a probabilidade de participar de gangues e a gravidez adolescente aumentam a cada dia.

Certamente o ônus é para os latinos, principalmente para os 40% de recém-chegados, que precisam aprender inglês, ter um compromisso sério com a educação, e, conforme coloca Cisneros, reforçar "nossa capacidade de ajudar a reconstruir a nação na qual tanto apostamos".

Até certo ponto, esse tipo de iniciativa já está acontecendo e deve amainar o olhar pessimista de muitos. O número de latinos matriculados no estudo de terceiro grau aumentou quase 25% entre 2000 e 2004.
Também é fato conhecido que a demanda por aulas de inglês entre os imigrantes normalmente excede a oferta.

A especialista em imigração Tamar Jacoby argumenta que para que o progresso seja mais do que modesto, os latinos precisam de um senso maior de pertencimento. Entre vários graus de investimento físico e psicológico nos EUA, a naturalização representa um "ponto crítico de virada... quando muitos começam a dizer 'nós' em vez de 'eles'", ela escreve e cita um estudo que descobriu que os filhos de mulheres nascidas no México que se tornaram cidadãs americanas têm duas vezes mais chances de se formarem no ensino superior do que os filhos de mulheres que não se naturalizaram.

Cisneros parte desse ponto para argumentar que o ônus também é da sociedade americana como um todo para "revigorar seus instintos progressistas" e promover a ascensão dos latinos à classe média. Isso significaria chegar a um ponto em que os americanos aceitem a naturalização e a reforma da imigração como um expediente político e econômico.

De fato, a maior parte dos hispânicos, e o sucesso futuro do país, depende de reformar o precário sistema de imigração dos EUA. Enquanto o país continuar permitindo que cerca de 10 milhões de trabalhadores estejam nessa sociedade sem serem considerados totalmente membros dela, não há como esperar que eles se sintam mais comprometidos com o futuro do país.

Mas é muito mais do que o aspecto técnico da legalização ou cidadania.
Um grupo de líderes latinos reconheceu a necessidade do investimento pessoal a longo prazo e fizeram um "plano de vida" de 15 anos que estabelece objetivos para assegurar que os latinos se tornem melhor integrados nesse país.

Cisneros também anuncia planos para fundar uma organização sem fins lucrativos para ajudar nesse processo.

Numa entrevista depois da apresentação do livro no Centro para o Progresso Americano, Cisneros reconheceu que o foco em ajudar os latinos a ajudarem o país pode fornecer uma mentalidade melhor para o debate da imigração, que nos anos recentes se tornou simplesmente muito beligerante para ser produtivo.

Sugerindo que o crescimento dos latinos pode contribuir para os EUA, o declínio certamente fornecerá matéria-prima para os que vêem essa transformação no rosto do país como uma ameaça. Mas Cisneros não parecia preocupado. "Para alguém concluir a partir dessa mensagem", disse, "que essas são circunstâncias terríveis para o país, essa pessoa provavelmente já acredita nisso. O que estamos tentando fazer é mostrar o caminho para sair de um destino como esse".

*Marcela Sanchez é jornalista baseada em Washington desde o início dos anos 90 e colunista há mais de seis anos.

Tradução: Eloise De Vylder

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