Max Boot: não há espaço para Israel sob a proteção nuclear americana

Max Boot

Agora que acabou a guerra em Gaza, os líderes israelenses e americanos devem desviar sua atenção do Hamas para a ameaça maior daqueles que o apóiam em Teerã. Uma reportagem do "Haaretz", o principal jornal de Israel, sugere que a equipe de Obama pode considerar estender a proteção nuclear americana a Israel, para o caso do Irã se tornar uma potência nuclear. Esta idéia foi apresentada em abril pelo colunista Charles Krauthammer e adotada por Hillary Clinton, que declarou quando ainda era candidata presidencial que se o Irã atacasse Israel, "nós poderíamos destruí-los totalmente".

Essa fala dura pode fazer nos sentirmos bem, mas não deve ser confundida com uma solução para a crise nuclear iraniana. Não está claro que propósito um ataque nuclear americano serviria, já que Israel conta com seu próprio arsenal nuclear, que teria entre 100 a 200 ogivas. Isso é suficiente para "destruir totalmente" o Irã.

Esta dissuasão israelense é mais crível do que qualquer ameaça americana. Não é realista presumir que, em caso de um ataque iraniano a Israel, um presidente americano mataria iranianos inocentes. A chance de uma ação americana diminui se for considerado como uma ogiva iraniana seria entregue. Um ataque empregando os mísseis Shahab-3 do Irã é o método de entrega menos provável, já que pode ser rastreado de volta ao seu ponto de origem antes que atinja seu alvo. Mais difícil de rastrear, e mais provável de ser usado, seria um dispositivo nuclear portátil detonado por terroristas. Os Estados Unidos seriam forçados a contemplar uma retaliação com base em inteligência obscura. Nós sabemos onde isso nos levou no Iraque. O presidente Barack Obama correria o risco de iniciar uma guerra nuclear com base em inteligência capaz de ser igualmente falha?

Mesmo se presumirmos que os Estados Unidos poderiam criar uma dissuasão nuclear crível contra o Irã, isso dificilmente significaria que poderíamos respirar mais tranquilos. Durante a Guerra Fria, as duas superpotências chegaram perigosamente perto do conflito nuclear em pelo menos duas ocasiões, não apenas durante a crise dos mísseis cubanos em 1962, mas também durante o exercício "Able Archer" da Otan em 1983, que algumas pessoas no Kremlin entenderam erroneamente que se tratava de preparativos para um primeiro ataque de fato. Estes erros de cálculo são muito mais prováveis ao se lidar com os líderes iranianos isolados, fanáticos e paranóicos.

Mesmo se as armas nucleares nunca forem usadas, a simples posse delas pode ser desestabilizadora. Escudada por seu arsenal nuclear, a União Soviética conseguiu dominar o Leste Europeu, invadiu o Afeganistão e apoiou guerras onerosas na Coréia e no Vietnã. O Kremlin pôde agir tão agressivamente ao menos em parte porque os Estados Unidos não tinham opções militares eficazes contra uma superpotência dotada de armas nucleares.

O Paquistão tem atuado com imprudência semelhante desde que testou suas primeiras armas nucleares em 1998. Em 1999, seu exército aumentou suas infiltrações na Caxemira, provocando um conflito de baixa intensidade com a Índia que poderia ter saído de controle. O Paquistão também proliferou sua tecnologia, com a rede de A.Q. Khan fornecendo know-how nuclear para países como o Irã e a Coréia do Norte.

Como nota Scott Sagan de Stanford, o Paquistão oferece uma analogia mais pertinente para o programa nuclear iraniano do que a União Soviética. O Irã, como o Paquistão, é um Estado islâmico militante com laços estreitos com grupos terroristas. De posse de armas nucleares, é provável que os mulás se sentiriam encorajados a aumentar seu apoio já substancial ao terrorismo. Eles também poderiam se sentir tentados a compartilhar segredos nucleares com Estados aliados como a Síria ou até mesmo grupos como o Hizbollah.

Os vizinhos do Irã já estão apavorados com seus supostos planos de dominar a região. A posse de armas nucleares por Teerã aumentaria o temor deles e poderia levar países como a Argélia, Egito, Jordânia, Arábia Saudita, Turquia e os Emirados Árabes Unidos a adquirir seus próprios arsenais atômicos.

Alguns sugerem que os Estados Unidos poderiam impedir isso estendendo sua proteção nuclear não apenas a Israel, mas também a estes outros países. Essa estratégia funcionou com a Coréia do Sul, Alemanha Ocidental e Japão, mas em todos os três casos a garantia americana foi apoiada por um grande número de tropas americanas. Como há poucas tropas americanas estacionadas na maioria dos países do Oriente Médio, seus líderes teriam motivo para duvidar da sinceridade de qualquer promessa americana de correr o risco de uma guerra nuclear em prol deles.

Em vez de planejar para o que aconteceria após o Irã adquirir armas nucleares, nós precisamos nos concentrar no que podemos fazer para impedir isso. Falar sobre como deteremos um Irã nuclear sugere que já o aceitamos no clube. Esta é a última mensagem que queremos enviar - ela poderia ser uma profecia que cumpre a si mesma.

*Max Boot é membro sênior do Conselho de Relações Exteriores e escritor, mais recentemente de "War Made New: Technology, Warfare, and the Course of History, 1500 to Today".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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