Max Boot: qualquer um menos Karzai?

Max Boot

A recente história de capa da "Newsweek", "O Vietnã de Obama", estava repleta de analogias batidas. Não há mais motivo para pensar que a guerra no Afeganistão será "outro Vietnã" assim como pensar que o Iraque seria "outro Vietnã", como tantas pessoas já alegaram.

Mas os editores da "Newsweek" podem ter prestado um serviço público ao lembrarem um dos maiores erros que os Estados Unidos cometeram no Vietnã: apoiar a derrubada de Ngo Dinh Diem, o presidente do Vietnã do Sul, em 1963. O presidente John F. Kennedy e seus assessores consideravam Diem um líder divisor, ineficaz, e temiam que a guerra poderia não ter sucesso com ele no poder. Mas os sucessores de Diem foram ainda piores e sua derrubada provocou um longo período de instabilidade que prejudicou os esforços de guerra americanos.

Por que isto é relevante hoje? Porque altos funcionários americanos cada vez mais atribuem nossos problemas no Afeganistão ao líder do país, Hamid Karzai. A tendência já estava evidente no ano passado, quando Joe Biden, na época um senador, abandonou um jantar com o presidente afegão em Cabul. O novo diretor de inteligência nacional, Dennis Blair, condenou recentemente "a incapacidade de Cabul de construir instituições eficazes, honestas e leais". Mais e mais, os altos funcionários do governo sinalizam que desejam substituir Karzai.

Essas conversas me levam de volta à janeiro de 2008, quando, durante uma visita ao Iraque, toda discussão que ouvi entre os políticos iraquianos e autoridades americanas envolvia a remoção ou não do primeiro-ministro Nouri al-Maliki. O consenso parecia ser o de que Maliki era um líder fraco e um maquinador sectário que estava mais interessado em servir seus "mestres" iranianos do que o povo do Iraque. A única falta de acordo era sobre quem ocuparia seu lugar. A incapacidade de vários partidos políticos de chegar a um sucessor foi basicamente o que o impediu de ser derrubado.

Poucos meses depois, Maliki contrariou todas as expectativas ao enviar as tropas para Basra para enfrentar os combatentes liderados por Muqtada al-Sadr, a quem supostamente devia gratidão. O sucesso dessa campanha o encorajou a remover os sadristas do distrito no leste de Bagdá conhecido como Sadr City. Com essas ações, Maliki afastou a impressão de fraqueza e obteve nova popularidade junto aos iraquianos comuns, que recompensaram seu partido com um forte resultado nas recentes eleições provinciais. Hoje, um ano após aquele ponto baixo, a preocupação é de que Maliki pode estar ficando forte demais.

O que provocou a mudança de comportamento de Maliki? É provável que ele tenha reagido às mudanças das condições provocada pelo "aumento" de tropas americanas. A estratégia desenvolvida pelo general David Petraeus foi a de usar os reforços americanos para atacar primeiro a Al Qaeda no Iraque, porque ele sabia que este grupo de terroristas calejados era o principal "acelerador" da violência.

O senso de ameaça induzido pela Al Qaeda fornecia justificativa para as atividades violentas do Exército Mahdi, que alegava estar protegendo os xiitas. Reduzir o terrorismo sunita, raciocinou Petraeus, também reduzirá o apoio xiita aos sadristas. E foi exatamente o que aconteceu. Com a Al Qaeda no Iraque praticamente derrotada, Maliki se sentiu livre para agir contra o Exército Mahdi.

Em outras palavras, Maliki pareceu fraco apenas em um momento em que as condições no Iraque eram tão ruins que qualquer líder teria dificuldade em exercer autoridade. Melhorias na segurança levaram a melhorias na governança.

Não há motivo para a mesma dinâmica não funcionar no Afeganistão. Há não muito tempo Karzai era visto como líder modelo. Lembra-se de quando muitos se desesperavam em relação ao futuro do Iraque porque ele não tinha um líder do calibre de Karzai? Parte dessa badalação inicial pode ter sido exagerada, mas Karzai foi razoavelmente eficaz de 2003 a 2005, quando o Taleban ainda lambia suas feridas e as condições de segurança eram razoavelmente "permissivas".

Ajudava o fato de Zalmay Khalilzad ser o embaixador americano. Natural do Afeganistão, Khalilzad era próximo de Karzai mas também duro com ele, o pressionando a combater a corrupção e melhorar a governança regional. Após a partida de Khalilzad em 2005, a política americana pareceu ficar à deriva e o Taleban promoveu um ressurgimento.

Karzai tem muitos defeitos, particularmente sua inabilidade ou falta de vontade de combater a corrupção e o tráfico de drogas no qual seu irmão está envolvido. Mas há algum motivo para achar que outra pessoa seria mais eficaz? As autoridades americanas de olho nas eleições marcadas para agosto elogiam possíveis candidatos, como o ex-ministro das finanças, Ashraf Ghani, e o ex-ministro das relações exteriores, Abdullah.

Sim, são homens com credenciais impressionantes. Mas, a certa altura, as autoridades americanas também viam Ayad Allawi como o salvador do Iraque. Em seguida optaram por Ibrahim al-Jafari, apenas para removê-lo e acabaram ficando com Maliki, cuja reputação sobe e desce feito iô-iô. O retrospecto americano na escolha de líderes para países estrangeiros não inspira muita confiança.

Logo, em vez de ficarmos obcecados com os defeitos de Karzai, talvez devêssemos nos concentrar no problema real: a falta de segurança. Os esforços para melhorar a segurança não podem ficar reféns dos esforços para melhorar a governança. Como no Iraque, a solução no Afeganistão deve vir do envio de reforços para implantação de uma estratégia clássica de contrainsurreição voltada para a proteção das pessoas. Apenas quando a situação da segurança melhorar é que o presidente do Afeganistão, seja qual for esta pessoa, poderá funcionar com algum grau de eficácia.


(Max Boot é membro sênior do Conselho de Relações Exteriores e escritor, mais recentemente de "War Made New: Technology, Warfare, and the Course of History, 1500 to Today".)

Tradução: George El Khouri Andolfato

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