Marcela Sanchez: A guerra acabou na Colômbia?

Marcela Sanchez*

As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, que, com 45 anos, são a mais antiga guerrilha da América Latina, estão desmoronando. Vários dos principais líderes morreram no último ano -um foi morto pelo exército colombiano, outro foi assassinado por seus subordinados, e seu comandante lendário foi levado pela velhice. Sua desordem tornou-se embaraçosamente clara em julho, quando uma de suas divisões foi enganada e levada a liberar alguns dos reféns mais preciosos das Farc, inclusive uma ex-candidata presidencial colombiana e três prestadores de serviços militares dos EUA.

De acordo com o governo colombiano, muitos dos atuais líderes das Farc, assim como alguns do grupo menor Exército de Liberação Nacional, não estão mais morando no país. Duas fortes divisões das Farc que operavam ao longo da costa do Caribe com quase 500 membros essencialmente evaporaram. As deserções vêm crescendo em tal ritmo que as Farc cessaram operações organizadas contra o exército colombiano.

Os oficiais colombianos chamam de fim do fim -ainda não terminou, mas está quase lá. Em uma entrevista aqui nesta semana, o ministro de defesa, Juan Manuel Santos, descreveu como o governo cercou as Farc, minando seu apoio popular, seu acesso ao financiamento e sua capacidade operacional. "Estamos afogando eles", disse ele, e acrescentou: "Acredito que (o conflito) pode ser vencido".

E talvez esteja certo -é difícil acreditar que as Farc tenham qualquer chance de recuperação. Mas uma coisa é vencer a guerra e outra bem diferente é assegurar a paz. Hoje, há várias indicações que os avanços militares estão à frente de outros passos críticos para a paz na Colômbia.

O conflito evoluiu, e o exército está claramente na liderança. As Farc, contudo, fizeram modificações táticas e continuam a infligir dores substanciais. Neste mês apenas, a organização que alegava defender os pobres e marginalizados admitiu matar ao menos oito índios no sul da Colômbia, acusando-os de cooperar com governo.

Agora, não faz mais ataques planejados e sim aterroriza a população civil. De acordo com Santos, as Farc agora se dedicam a sequestrar e plantar bombas e minas terrestres, apesar de sua capacidade diminuída. Além disso, com a redução de suas fileiras, o recrutamento tornou-se mais agressivo, forçando a fuga das famílias.

Na Colômbia, a paz nunca é facilmente alcançada: em 2003, o presidente Álvaro Uribe tentou negociar com a facção criminosa de direita AUC, ou Auto-Defesa Unida da Colômbia, uma coalizão de grupos paramilitares formada nos anos 80 para proteger proprietários de terra e empresários, assim como traficantes, dos guerrilheiros de esquerda.

O governo desmobilizou 32.000 combatentes e defensores da AUC e extraditou vários de seus líderes para os EUA por violarem os termos do acordo. Muitos dos combatentes ainda participam dos programas que buscam integrá-los à sociedade.

Ainda assim, estima-se que 5.000 deixaram o processo e provavelmente ingressaram para 16 a 22 grupos armados ilegais que hoje lutam pelo controle do território com atividades ilegais de drogas e de agroindústria potencialmente lucrativa. Esses grupos agora frequentemente trabalham com guerrilheiros "de esquerda" e juntos aterrorizam as populações locais.

Como consequência de toda essa batalha, a crise dos refugiados internos da Colômbia talvez seja o maior obstáculo no caminho para a paz. Apesar de todo o progresso no campo de batalha, o número oficial de refugiados continua a crescer, chegando atualmente a mais de 2,5 milhões.

Entre as comunidades de desabrigados e organizações que os representam, "não há um sentimento que o conflito está avançando na direção da paz", de acordo com Roberto Vidal, professor da Universidade Javeriana em Bogotá. Vidal é autor de um relatório publicado nesta semana na Instituição Brookings, em Washington, sobre as relações entre os refugiados e a paz na Colômbia. O estudo ressalta uma conclusão básica tirada de outros conflitos no mundo todo: sem soluções duradouras para os refugiados, sem reparações ou resoluções para as disputas de terra e de propriedade, "a estabilidade e a paz sustentável dificilmente serão atingidas".

Para Vidal e para muitos ativistas de direitos humanos, o caminho para a paz sustentável passa por Washington. Para eles, o apoio americano na última década, com bilhões de dólares, foi crucial para os sucessos militares da Colômbia e agora cabe aos governantes americanos estimularem seus colegas colombianos a avançarem na redução das novas formas de violência, eliminando as minas terrestres e levando os refugiados de volta para casa em segurança.

Nos últimos anos, entretanto, os democratas em Washington se concentraram mais na violência contra os sindicalistas, usando o acordo pendente de livre comércio com a Colômbia. E apesar dessas preocupações terem importância, sugerem uma perspectiva estreita que ignora o quanto os esforços colombianos e o apoio americano precisam evoluir.

* Marcela Sanchez é jornalista em Washington desde os anos 90 e colunista há mais de seis anos.

Tradução: Deborah Weinberg

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